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Intercâmbio literário luso-brasileiro

Por Priscila Roque
José Luís Peixoto, valter hugo mãe, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares… A lista de autores portugueses contemporâneos conhecidos no Brasil é extensa. Com a vinda de algumas editoras “lusas” para o País, como a Leya e a tinta-da-china, essa realidade se tornou ainda mais presente. Porém, não são somente essas empresas que editam livros de portugueses por aqui. A Companhia das Letras e a Editora Peirópolis, por exemplo, também se preocupam com o intercâmbio entre autores que fazem um bom uso da língua portuguesa.
Quando o assunto toma o caminho inverso, a situação também se inverte. Em Portugal, pouco se sabe sobre a literatura brasileira da atualidade, salvo por alguns apaixonados pelo assunto que consomem esses livros. “Os portugueses dizem que têm dificuldade para consumir a literatura brasileira. Há alguns autores que aceitam até adaptações para o português de Portugal. Nunca aceitei, pois leio a literatura portuguesa aqui no Brasil sem adaptação”, afirma o escritor brasileiro Luiz Ruffato, que já publicou dois de seus livros por lá, Eles Eram Muitos Cavalos, Estive em Lisboa e Lembrei-me de Ti – como ficou conhecido o título em Portugal Estive em Lisboa e Lembrei de Você (Companhia das Letras), e se prepara para lançar mais um ainda nesse ano.
Luiz Ruffato acumula idas anuais ao país e tem uma larga vivência na terra de Fernando Pessoa, por ter se casado duas vezes com mulheres portuguesas. A convite da Companhia das Letras, ele foi à capital escrever a obra Estive em Lisboa e Lembrei de Você, para a coleção Amores Expressos.
 
Para ele, Portugal tem um trabalho intenso na divulgação de seus autores para o exterior, diferente do Brasil, que ainda está no início. “Deveria ter uma política clara de aproximação. Enquanto a Espanha e o mundo hispânico, por meio do Instituto Cervantes, vendem – de uma maneira magnífica – a língua espanhola para o mundo, nós brigamos por outras coisas, como o acordo ortográfico. O que vai mudar tudo isso é uma política pública de estado clara, no sentido de transformar isso em um bem econômico”, comenta.
 
                                                                                                                           Crédito/ Adriana Vichi
O autor Luiz Rufatto
Residente no Rio de Janeiro há dois anos, a escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho se prepara para o lançamento de seu primeiro romance no País, E a Noite Roda (tinta-da-china). “Parece-me justa a ideia de que a literatura portuguesa receba mais atenção aqui do que a literatura brasileira em Portugal. Mas as vendas no Brasil, mesmo em termos absolutos, parecem-me mais baixas do que em Portugal. A grande vantagem, neste momento, é que o Brasil está investindo com força na literatura, com a criação de inúmeros festivais e bolsas que garantem toda uma rede de trabalho remunerado aos escritores e permitem a muitos viver do seu trabalho com a escrita, de forma global. Esta é uma diferença decisiva em relação a Portugal, onde cada vez será mais difícil os escritores viverem como escritores”, diz.
CONEXÃO LUSO-BRASILEIRA
O português José Jorge Letria já acumula em seu currículo títulos dedicados ao público infantojuvenil premiados nos dois países. Sua primeira obra do gênero atravessou o oceano Atlântico em meados dos anos 1990, e neste século voltou a publicar por aqui a convite da Editora Peirópolis.
O intercâmbio entre Portugal e Brasil é presente em sua trajetória. Recentemente, ele esteve na 22ª Bienal do Livro de São Paulo, onde discutiu literatura portuguesa ao lado da professora especialista no gênero Susana Ventura e lançou a obra Brincar com as Palavras, que conta com as ilustrações da brasileira Silvia Amstalden.
Paralelamente a isso, trabalha uma nova publicação ao lado do mineiro José Santos, baseado em uma troca de e-mails questionando e respondendo questões sobre as culturas portuguesa e brasileira. “O mais importante é manter viva a ideia de que há muitas formas criativas e originais de trabalharmos juntos. Para que isso resulte, é essencial que existam editoras interessadas, parcerias entre autores e ilustradores e disponibilidade para nos visitarmos. Eu acredito sinceramente no futuro desta caminhada conjunta que já está dando frutos apreciáveis”, explica Letria.
José Santos, que foi a Portugal fazer uma vivência literária e voltou ao Brasil disposto a produzir obras que pudessem ser usadas nas escolas com o objetivo de atualizar a imagem lusitana por aqui, relata esse intercâmbio: “Eu e Letria nos conhecemos em 2009. Desde então, temos estabelecido uma fértil parceria. Fiz uma antologia de poemas dele, publicada em 2011, chamada O Livro Extravagante (Editora Peirópolis). Depois, surgiu a ideia de produzir esse livro a quatro mãos, por e-mail, em que a gente faz perguntas e oferece respostas em estrofes de quatro versos. O bate-papo foi sobre cidades, brincadeiras, culinária, literatura… Foi muito bom de fazer.”
O escritor brasileiro Raphael Draccon, que publicou sua obra de literatura fantástica Espíritos de Gelo primeiro em Portugal, também espera poder estabelecer novos contatos com escritores lusos. “Infelizmente não pude ir na época da Feira de Lisboa, quando o meu livro foi lançado. De qualquer maneira, recebi o contato de alguns autores portugueses, a fim de trocar experiências. Eles são muito educados e gostam muito do Brasil. Não vi ainda nenhum grande talento da literatura fantástica portuguesa, mas adoraria encontrar um e compartilhar uma mesa de eventos”, completa.
A sua mais recente obra, Fios de Prata – Reconstruindo Sandman, que faz referência à série de quadrinhos do cultuado norte-americano Neil Gaiman, saiu no Brasil pela editora Leya – mais uma possível oportunidade de cruzar o oceano pelos céus e desembarcar nas livrarias lusitanas.
 
ANO DE PORTUGAL NO BRASIL
Entre os dias 7 de setembro de 2012 (Independência do Brasil) e 10 de junho de 2013 (Dia de Portugal), será celebrado o Ano de Portugal no Brasil e o Ano do Brasil em Portugal. O programa visa estabelecer novos parâmetros no âmbito da cultura dos países. O Museu da Língua Portuguesa, por exemplo, receberá a exposição “Palavras da Memória”, com 40 obras que são referência no idioma.
Após a descoberta das cartas de Ophélia Queiroz, o grande amor do poeta Fernando Pessoa, será publicada uma única obra com essa troca de correspondências completa. No programa, ainda está previsto o lançamento de dez novos autores portugueses no Brasil.
 
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