Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 17.01.2013 17.01.2013

Inflamável: o cinema-limite de François Ozon e Michael Haneke

Por Zaqueu Fogaça
 
Premiados nos principais festivais de cinema do mundo, cultuados pela crítica cinematográfica e criadores de obras que suscitam calorosos debates. Assim são os cineastas François Ozon e Michael Haneke, cujas obras mais recentes, Dentro da Casa e Amor, entram em cartaz nos cinemas brasileiros na metade de janeiro e início de fevereiro.
 
Observadores atentos da natureza humana, Ozon e Haneke, cada um à sua maneira, encontram nos valores sociais e familiares a matéria bruta para lapidar suas obras. “Eles desconstroem a intimidade de pessoas e núcleos sociais para apresentar suas visões de mundo; no entanto, enquanto o francês é um artista mais caloroso, o austríaco, por sua vez, é melancólico”, explica o crítico de cinema da revista Rolling Stone, Christian Petermann.
 
Para Ozon e Haneke, cinema é sinônimo de desconforto. E, nesse solo movediço, ambos caminham confortáveis, principalmente Haneke, como destaca Petermann. “O cinema de Michael Haneke é mais duro de ser engolido, pois o cineasta é cético e prático, impiedoso em suas defesas, pouco emocional e, acima de tudo, descrente da bondade humana”.
 
Por outro lado, Ozon reveste suas obras com ares mais amenos, com forte presença do olhar feminino e o tema da sexualidade. “Ozon pratica um cinema quase predominantemente solar – mesmo seus trabalhos mais densos incluem a luz do sol, a liberdade de espaços, a fruição de emoções e, principalmente, um carinho por seus personagens, uma espécie de crédito ao ser humano”, ressalta Petermann.
 
“Ainda é cedo para definir qual é a real importância de ambos para a sétima arte, mas é o mínimo afirmar que ambos estão entre os cineastas mais expressivos, pessoais e talentosos em atividade no último quarto de século. Agora, com Dentro da Casa e Amor, os dois entram em cartaz com bons filmes: Ozon com um ótimo, e Haneke com um extraordinário”, classifica Petermann.
 
Ernst Umhauer e Emmanuelle Seigner em cena do filme
 
O AMOR SEGUNDO MICHAEL HANEKE
 
Conhecido por seu cinema asfixiante e dominado pela estética da crueldade, como é visível em O Vídeo de Benny (1992) e A Fita Branca (2009), Haneke cria uma história de amor em sua fase terminal, denso e dramático. Em Amor, a trama se desenvolve em torno de um casal de idosos que, após um acidente, refletem sobre o relacionamento.
 
Ganhador do Globo de Ouro, como melhor filme estrangeiro, e representante austríaco na disputa do Oscar de melhor filme e melhor filme estrangeiro, o drama do casal octogenário, interpretado pela atriz Emmanuelle Riva e pelo ator Jean-Louis Trintgnant, tem colecionado prêmios por onde passa: Palma de Ouro no Festival de Cannes; prêmios entre críticos de Los Angeles, Chicago, Boston e Nova York; e melhor longa-metragem pela Associação Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos.
 
“Amor tem conquistado a maioria dos prêmios de melhor produção estrangeira da temporada, com muitas láureas também ao diretor e à atriz Emmanuelle Riva – afinal, o filme é, talvez, o primeiro em toda a filmografia de Haneke em que este revela empatia e zelo por seus dois personagens centrais. É uma obra ao mesmo tempo implacável em relação aos reveses da velhice, mas também bastante amorosa e íntima”, analisa Petermann.

 
O HUMOR AMARGO E IMPLACÁVEL DE FRANÇOIS OZON
 
Assim como o cineasta austríaco, o jovem diretor parisiense mantém certo fascínio por temas delicados e polêmicos. No entanto, diferentemente de Haneke, Ozon encontra em ares mais brandos o tom perfeito para exprimir seu olhar amargo sobre as relações familiares e sociais, desnudando com humor afiado a fragilidade que se encontra nos alicerces decadentes da estrutura burguesa.
 
“Em seu novo filme, Dentro da Casa, Ozon cria mais uma obra forte de tensão sexual e, novamente, versa sobre o voyeurismo, característica comum a muitos de seus personagens. Desta vez, ele adapta para o cinema a peça teatral de Juan Mayorga, e essa dinâmica cênica é perceptível, mas o diretor desenvolve muito bem o corpo cinematográfico, explorando ótimas possibilidades dramáticas”, destaca Petermann.
 
 O ator Ernst Umhauer 

 

A obra acompanha a relação do jovem estudante Claude Garcia (Ernst Umhauer) com seu professor, Germain (Frabrice Luchini). Instigado pela redação do aluno sobre seus interesses em seduzir a mãe de seu colega de classe, Germain vê no aluno um discípulo e o estimula a desenvolver seu texto ficcional para um trabalho, nem que para isso o estudante tenha que se infiltrar na família de seu colega.
 
Grande vencedor da 60ª edição do Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha, Ozon (8 Mulheres, 2002; Sitcom, 1998) tem conquistado o público brasileiro. Ganhador da Concha de Ouro no festival espanhol e do prêmio de melhor roteiro, o filme traz diversas referências literárias em seus diálogos, como a obra do escritor francês Gustave Flaubert.
 
Ernst Umhauer e Fabrici Luchini 
 
Amor, de Michael Haneke, entra em cartaz nos cinemas brasileiros no dia 18 de janeiro, enquanto o novo filme de Ozon, Dentro da Casa, poderá ser assistido nas telonas apenas no dia 1º de fevereiro. Para quem não vê a hora de conferir essas obras, Christian Petermann adianta: “Dois filmes que devem ser vistos obrigatoriamente”.
 
Trailer de Amor:
 

 
 
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