Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.10.2011 13.10.2011

Ilustres desconhecidos

Por Rachel Souza
Na foto ao lado, o poeta sueco Tomas Tranströmer
 
Em 1982, Gabriel García Marquez, mesmo já reconhecido como um escritor importante, duvidou que ganharia o Prêmio Nobel de literatura. Acreditava que os julgadores prefeririam premiar autores ainda não reconhecidos pelo público, apesar de fazerem boa literatura. Para sua surpresa, levou naquele ano o prêmio para casa.
 
A academia tem por hábito tentar corrigir injustiças e esquecimentos, dando prêmio a autores desconhecidos do grande público, como ocorreu neste mês, com a premiação do poeta sueco Tomas Tranströmer.
 
Será que um Nobel, de fato, abre as portas para o sucesso editorial? Imaginamos que uma premiação tão conhecida traria a chance de uma ampla publicidade e facilitaria a inclusão de autores ao nosso mercado editorial. Mas, ao contrário do que se pensa, alguns autores laureados não tiveram essas benesses imediatas.
 
A escritora austríaca, Elfriede Jelinek, vencedora em 2004 teve sua primeira obra publicada no Brasil, A Pianista, apenas em 2011. Por que a demora do mercado editorial brasileiro em lançar uma escritora que, além de ter ganho o maior prêmio literário, possui uma obra vasta em seu currículo? Joaci Furtado, editor do selo Tordesilhas, responsável pela publicação da autora, credita o fato por Jelinek construir um universo pesado e fazer de Viena um lugar monstruoso, com sombras que em nada remete à Viena festiva e iluminada formada em nosso ideário.
 
Jelinek subverte não só nossa ideia de Viena, como também propõe relações de dominação, relações humanas degradantes e imorais, criando, através desses elementos, uma linguagem de leitura difícil. E os editores, provavelmente, não quiseram arriscar.
 
Furtado também se surpreende pela demora na publicação de outros escritores ganhadores do prêmio, tal como Luigi Pirandello, que apesar de ter ganho o referido prêmio em 1934 e  de suas peças serem conhecidas e montadas, seu Assim É, se lhe Parece ganhou primeira publicação em livro recentemente, pelo mesmo selo de Jelinek.
 
 Elfriede Jelinek
 
A poesia, com um mercado restrito, um público específico e suas dificuldades de tradução, é a que mais sofre para conseguir o sucesso editorial. Wislawa Szymborska, ganhadora do Nobel do ano de 1996, é uma das que não foram prontamente editadas em português. A poetisa polonesa era até então inédita no Brasil, apesar de ser considerada uma das maiores vozes da poesia contemporânea e de ser elogiada pelo cineasta Woody Allen e pelo escritor italiano Umberco Eco. Finalmente, Wislawa ganhou neste ano edição de 44 de seus poemas, pela editora Companhia das Letras, com um livro intitulado de Poemas.
 
Tomas Tranströmer engrossa a lista de autores premiados mais esquecidos no Brasil. Um dos poetas suecos de maior relevância lançou seu primeiro livro em 1954 e já foi traduzido para mais de 50 idiomas. Tomas ainda não tem livro editado em nossa terra. Sem dúvida, um Nobel debaixo do braço abre portas no mundo editorial, ainda que o Nobel não ofereça garantia de sucesso.
 
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