Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 14.01.2015 14.01.2015

Ícaro Silva: suingue e afinação em cena com ‘S´imbora, o Musical – A história de Wilson Simonal`

Por Cintia Lopes
Ícaro Silva é figura tarimbada no meio dos musicais. Aos 27 anos, acumula experiência e passagens por grandes montagens do segmento no Brasil. Mas agora, pela primeira vez, prepara-se para protagonizar um espetáculo interpretando ninguém menos que Wilson Simonal, um dos cantores mais controversos da MPB e autor de sucessos inesquecíveis como “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “País Tropical”, “Nem Vem que Não Tem”, entre tantos outros.
O ator não esconde a ansiedade com a estreia de S´imbora, o Musical – A história de Wilson Simonal, com direção de Pedro Brício, que estreia dia 15 de janeiro no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Depois de concorrer (e desbancar) outros 100 concorrentes, a rotina de Ícaro se resume a ensaios de sete horas por dia e muita pesquisa sobre Simonal. “A maior dificuldade em interpretar alguém que já existiu é fugir da caricatura. É preciso entender que é um trabalho de evocação de uma imagem, uma pessoa, um ícone. Imitar é sempre perigoso, pois é o processo de fora para dentro”, explica.
Mas reviver no palco alguém conhecido do grande público não é novidade para Ícaro. Em Elis, a Musical também escrito pela dupla Nelson Motta e Patrícia Andrade, o ator deu vida a outro ídolo da MPB, Jair Rodrigues, e dividia o palco com Laila Garin, intérprete da “Pimentinha” Elis.
Festejado pela crítica especializada, pelo público e pelo próprio Jair, que chegou a assistir à performance de Ícaro pouco antes de falecer em maio do ano passado, o ator conta que teve o primeiro contato com o gênero musical aos 16, quando estudou no colégio Ábaco, em São Bernardo de Campo. “Muita gente boa que se vê nos palcos hoje veio de lá. Gosto de cantar desde pequeno. É algo que aprendi com meus pais. Os dois sempre cantaram em casa e isso foi um incentivo”, recorda ele, que também tem no currículo a participação em Rock in Rio – o Musical.
Você já era fã de musicais quando resolveu investir nesse segmento?
Ícaro Silva. Comecei a fazer aulas de canto há uns quatro anos, quando decidi explorar o mercado dos musicais. Percebi que me empolgava a ideia de cantar fazendo teatro, ou vice-versa. Já sabia desde cedo que queria estar envolvido com música, mas ainda não sabia como, até começar a fazer os primeiros testes. Foi aí que entendi minha voz como instrumento. Outros instrumentos chamavam minha atenção, mas me cansavam rápido. Quando garoto, nunca tive disciplina para aprender, embora já tenha tentado piano e violão.
Sou naturalmente disperso, e instrumentos requerem muito foco. Já no teatro, minha capacidade de foco é grande, cantando então, embora precise ficar bastante atento, me sinto livre. Além disso, a atenção está sempre distribuída. Cenas, trocas, entradas, saídas, a banda. Essa é uma das coisas que me atraem no meio dos musicais. Os musicais que me encantam são, geralmente, aqueles em que a técnica e o efeito não estão acima da arte, mas a favor dela. Os últimos musicais brasileiros são bons exemplos disso. Do cenário internacional, sou fã das produções lúdicas, como Wicked, e das dramáticas, como Rent.
Para viver Simonal, você desbancou outros 100 candidatos. A que você atribui a sua escolha para o papel?
Ícaro Silva. No teste interpretei “País Tropical”, que foi o maior sucesso de Simonal, e “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, outro clássico. Acho que meu trunfo foi resgatar a malandragem e alegria naturais dele, sem imitá-lo. Não é impossível pra mim ser um cantor alegre, malandro, carismático. O impossível é “ser” alguém que já se foi. À minha maneira, tento trazer ao palco aquilo que liga Simonal a seu público.
Como tem sido a rotina de ensaios desde a aprovação para a peça?
Ícaro Silva. Não há tempo para muita coisa quando se está ensaiando um musical. Ensaiamos 5 dias por semana, 7 horas por dia. No resto do tempo vivo o universo de Simonal de maneira simples, mas integral. É um mergulho lento, mas muito profundo. A maior composição acerca da vida de alguém está nos detalhes. E entender todos eles, ou a maioria, é um processo trabalhoso e minucioso. E bastante divertido também. No resto do tempo eu durmo! Se não, a voz acaba sumindo. O descanso é muito importante em um processo como esse.
                                                                                                                     Léo Aversa
Ícaro Silva e Thelmo Fernandes como Carlos Imperial
E o trabalho de composição para interpretar Wilson Simonal? Onde foi buscar a releitura para viver o cantor?
Ícaro Silva. Leio, ouço e vejo tudo o que posso a respeito do Simonal. Trechos de jornais da época, o documentário, biografia. Mesmo o que não está diretamente ligado a ele, mas faz parte do universo de um grande artista, me ajuda no processo de composição. Por sorte tenho a oportunidade de estar em contato com os filhos dele. Essa é uma grande vantagem. O pai está sempre presente em seus filhos. Isso é claro para mim quando encontro Patricia, Max ou Simoninha.
Você atuou em outros musicais como Rock in Rio, o Musical e Elis, a Musical. Agora estreia no papel de protagonista. Como está a sua expectativa com a estreia? O que isso, de fato, altera na sua preparação para o trabalho?
Ícaro Silva. Geralmente todos os artistas de um musical trabalham arduamente durante o tempo da encenação. A diferença do protagonista é que ele conduz o espetáculo e fica muito pouco fora de cena. Isso exige atenção dobrada aos detalhes e ao tempo. Como protagonista, tenho muita responsabilidade sobre o ritmo da peça. É preciso estar concentrado e tranquilo. Estou ansioso, claro, mas o elenco e a equipe são de primeira. O fato de estar cercado de excelentes profissionais me deixa muito mais à vontade.
Como é a sua relação com Nelson Motta e Patrícia Andrade? Você acredita que a familiaridade com o texto de Elis, a Musical, também escrito por eles, acabou ajudando neste trabalho?
Ícaro Silva. Nelson e Patricia estão sempre presentes. Eles assistiram aos nossos ensaios e já tivemos muitas conversas a respeito de Simonal e de seu universo. Nelson fez parte disso ativamente, por isso é uma referência fundamental. Ambos estão, assim como todos nós, mergulhados na história do cantor e empenhados em trazer o melhor espetáculo possível. Os dois também participaram do processo de seleção e estavam na banca do teste. Conhecê-los de Elis me ajudou a ficar menos nervoso na audição e mais seguro em relação ao universo de Simonal. Por [mais] opostos que sejam, Elis e Simonal são bem parecidos e viveram em um mesmo meio. Ambos tiveram domínio total sobre seu público e descontrole sobre a vida pessoal.
Ícaro Silva como Jair rodrigues ao lado de Laila Garin em Elis, a Musical
Durante o processo de composição e pesquisa, você tentou se aprofundar e entender essa questão envolvendo a acusação de que Simonal foi um delator na época da ditadura militar ou se fixou mais no lado musical? O que mais chama a sua atenção na história dele?
Ícaro Silva. O espetáculo fala do Simonal que o grande público conheceu, que foi o maior cantor do Brasil em seu tempo e que dominava plateias como ninguém, mas também de um Simonal introspectivo, distante, em queda. Esse lado poucos conheceram, mas não é difícil de imaginar. É surpreendente ver que Simonal foi do zero ao sucesso absoluto e perdeu tudo tão rapidamente. É doloroso saber que ele tentou, durante toda a vida, limpar seu nome, sem sucesso. Foi vítima de inveja, racismo e da própria ingenuidade e arrogância.
Jair Rodrigues era praticamente uma unanimidade do público em função do carisma, do alto astral, personalidade… enquanto Simonal, apesar de ser um cantor excepcional, viveu grande parte da vida no ostracismo em função de um episódio que nunca foi de fato esclarecido totalmente. Ainda assim você consegue identificar alguma característica semelhante entre os dois?
Ícaro Silva. Embora as personalidades de Jair e Simonal sejam, a princípio, tão opostas, os dois estão em um mesmo lugar histórico. São artistas negros, de origem humilde, mas muito sofisticados e com talento incontestável. Acho que Jair soube levar com mais tranquilidade o fato de estar em alta, de ter mudado completamente de realidade. Simonal quis, à sua maneira, se vingar daquilo que a sociedade lhe impunha por conta de sua cor e classe social. Quis provar que um garoto negro e pobre podia se tornar um rei. E, embora tenha passado dos limites de um rei, provou que podia.
No “mergulho musical” na obra de Simonal, quais canções você elege como as suas favoritas?
Ícaro Silva. Os sucessos dele acabaram por ser atribuídos a outros artistas, apesar da enorme qualidade musical de suas versões. Mesmo hoje, são músicas que soam muito bem, modernas, divertidas, alegres e atemporais. Ouço diariamente algumas que nem entraram para o repertório do musical, como “Fim de Semana em Paquetá” e “Maravilha”, e as mais emblemáticas da peça também, como “Carango” e “Nem Vem que Não Tem”. A obra de Simonal é espetacular.
Muitos atores que interpretaram personalidades conhecidas que já não são mais vivas sentiram de alguma maneira uma “aprovação” para o trabalho. Com você aconteceu algo semelhante?
Ícaro Silva. Tenho contato “direto” com Simonal todas as vezes que encontro seus filhos. Ele está lá. Presente nos olhos, nos traços, na maneira de falar. Além disso, sua obra, embora tenha passado tanto tempo esquecida, é tão rica que nos põe a par de sua personalidade e tino musical. Agora temos a função de resgatar alguém que é inegavelmente grande, alguém que fez muito por nossa música. Sei que ele ficaria e ficará grato com esta homenagem.
                                                                                               Léo Aversa
Ator é o protagonista do musical que estreia no Rio de Janeiro e retrata a história do controverso cantor que conheceu o sucesso e o ostracismo
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