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Humoristas falam da influência do Monty Python sobre as suas carreiras

Por André Bernardo
Quarenta e três segundos e meio. Esse foi o tempo que a O2 Arena, em Londres, levou para vender os mais de 20 mil ingressos para a única apresentação do Monty Python, no dia 1º de julho de 2014. O grupo britânico de humor formado pelos agora setentões John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin (Graham Chapman morreu em 1989, de câncer) não trabalhava junto desde 1983, quando filmou O Sentido da Vida. Redator-geral do humorístico Divertics, Cláudio Torres Gonzaga é um dos felizardos que conseguiu ingresso para assistir ao tão esperado reencontro da trupe. “Tenho uma ligação afetiva com Em Busca do Cálice Sagrado, por ter sido o primeiro filme deles que vi. Desde o início, me chamou a atenção o humor anárquico e politicamente incorreto. Há alguns anos, comprei a coleção completa em DVD”, conta.
A comoção causada pela venda ultrarrápida dos ingressos foi tanta que os organizadores do show se viram obrigados a realizar mais nove apresentações, todas com lotação esgotada. Já houve quem dissesse que o Monty Python está para o humor como os Beatles estão para a música. Sim, a comparação procede. De desenhos como South Park a revistas como Mad, de programas como Saturday Night Live a sites como College Humor, a influência deles está por toda parte. Até no Brasil. Não há como citar programas como TV Pirata, exibido pela TV Globo entre 1988 e 1992, e Casseta & Planeta, Urgente!, entre 1992 e 2010, e não se lembrar de Monty Python’s Flying Circus, humorístico exibido entre 1969 e 1974 pela rede britânica BBC. Foi ali, ao longo de 45 episódios divididos em quatro temporadas, que tudo começou.
Supervisor de texto do TV Pirata, Cláudio Paiva lembra que, ao longo da carreira, recorreu muitas vezes ao humor surreal do grupo. Numa delas, no extinto Sai de Baixo, entre 1996 e 2002. “Na cena em que Caco Antibes tentava exorcizar Cassandra, sua sogra, ele tira do corpo dela um ‘Vaporeto’, aquele aspirador de pó a vapor. O nonsense era tanto que o fabricante pagou pelo merchandising”, diverte-se. Já Cláudio Manoel, um dos redatores do Casseta & Planeta, Urgente!, admite que, desde os tempos da revista Casseta Popular, sempre gostou de brincar com o humor subversivo do Monty Python. “Em Busca do Cálice Sagrado era diferente de tudo que já tinha visto ou sonhado. Ali estava a vanguarda, a desfaçatez, a modernidade, tudo que você puder imaginar, em quantidade avassaladora. Não estava preparado praquilo”, brinca o “casseta”.
 
Cena de Em Busca do Cálice Sagrado (esquerda), e o elenco reunido
 
HUMOR REVOLUCIONÁRIO
Entre outras façanhas, Monty Python’s Flying Circus imortalizou o esquete, quadro de humor de curtíssima duração. Não por acaso, muitos deles, como “A Canção do Lenhador”, “A Loja de Queijos” e “A Entrevista Idiota”, foram parar na internet e, hoje, fazem sucesso no YouTube. Um dos mais engraçados é “Papagaio Morto”, que retrata o bate-boca entre o cliente (John Cleese) e o dono (Michael Palin) de um pet shop. Enquanto o primeiro reclama que comprou o papagaio morto, o segundo garante que o bichinho está apenas tirando um cochilo. “Comédia só tem graça, principalmente para quem escreve, quando se está inovando de alguma maneira. Uma nova visão sobre algum assunto, algo que ninguém conseguiu enxergar antes, isso é que é realmente engraçado”, endossa o roteirista Alexandre Machado, de séries de TV como Os Normais.
Com o fim do programa em 1974, o Monty Python logo migrou para o cinema. Na tela grande, produziu pelo menos três clássicos incontestáveis: Em Busca do Cálice Sagrado, de 1975; A Vida de Brian, de 1979; e O Sentido da Vida, de 1983. “A Vida de Brian é um dos meus favoritos e uma fonte inesgotável de inspiração. Talvez seja por causa dele que eu goste tanto de brincar com religião”, avalia o ator e roteirista Fábio Porchat, que assinou o roteiro de alguns esquetes de temática religiosa do Porta dos Fundos, como “Dez Mandamentos”, “Arca de Noé” e “Especial de Natal”. A exemplo dele, o cartunista Allan Sieber também elege A Vida de Brian como o seu predileto. “Até hoje, não sei como eles conseguiram grana para fazer um filme daqueles”, espanta-se o autor de Preto no Branco, É Tudo Mais ou Menos Verdade e Vida de Estagiário.
 
Cena de A Vida de Brian
COBRAS DO RISO
Depois das filmagens de O Sentido da Vida, cada integrante seguiu seu caminho. Separados, Cleese, Gilliam, Idle, Jones, Palin e Chapman jamais conseguiram repetir o sucesso que fizeram juntos. Embora a direção dos episódios ficasse a cargo de Jones e Gilliam, o sexteto gostava de criar tudo, do roteiro aos figurinos, a doze mãos. Coincidência ou não, o fim do Monty Python inspirou o surgimento de inúmeros grupos de humor, como Hermes e Renato e Os Melhores do Mundo. “Quando escrevemos esquetes de humor, tentamos ao máximo desconstruir a realidade”, admite Felipe Torres, que considera o Tela Class, da MTV, como o mais “pythonesco” dos trabalhos do Hermes e Renato. “Nossa maior influência está na maneira cínica de dizer as coisas mais sérias”, opina Victor Leal, ator e roteirista de Hermanoteu na Terra de Godah e Notícias Populares.
Para alegria dos fãs do mundo inteiro, a última das dez apresentações, agendada para o dia 20 de julho, será exibida em 450 salas de cinema do Reino Unido e outras 1.500 pelo mundo. Com direção de Aubrey Powell, The Last Night of Monty Python promete misturar quadros antológicos, esquetes inéditos e números musicais. A canção “Always Look On the Bright Side of Life”, do filme A Vida de Brian, é presença (quase) obrigatória no espetáculo. De quebra, uma homenagem mais do que merecida ao único integrante já falecido, Chapman. “Por mais que eu tente, não consigo me identificar com nenhum deles em particular. Quando assisto ao Monty Python, sou irrevogavelmente colocado na condição de fã. Eles são os deuses da comédia, e eu… Bem, eu sou um mero seguidor deles”, confessa o comediante Fernando Caruso.
 
Os integrantes do Monty Python atualmente
 
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