Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.10.2012 24.10.2012

Humor, veracidade e subversão: a relação dos escritores com a internet e as redes sociais

Por Maria Fernanda Moraes
 
Em recente carta aberta publicada na revista The New Yorker, o escritor norte-americano Philip Roth deflagrou a polêmica. E a Wikipedia, famosa enciclopédia colaborativa on-line, ganhou os holofotes. Isso porque o maior romancista vivo, segundo a maioria dos críticos, despendeu seu tempo para que uma correção fosse feita na página da Wikipedia a respeito de A Marca Humana, um de seus romances.
 
A informação da página dizia que o protagonista Coleman Silk, um professor universitário, foi inspirado em um crítico literário chamado Anatole Broyard, famoso em Nova York. Segundo o próprio Roth, Coleman Silk é, na verdade, inspirado em Melvin Tumin, seu colega na Universidade Princeton.
 
O caso de Tumin que inspirou a criação de Silk (o personagem fictício) foi uma situação em sala de aula em que ele usou uma palavra de duplo sentido que pode ter também uma conotação racista. Referindo-se a dois alunos que nunca apareciam na aula, Tumin perguntou se eles existiam mesmo ou eram “spooks”. O termo em inglês, que significa “assombração”, também era uma forma chula de se referir aos negros antigamente. Por uma triste coincidência, os dois estudantes ausentes eram de fato negros, o que sujou a reputação de Tumin por um bom tempo.
 
O contato com a Wikipedia, entretanto, foi em vão, e a resposta a Roth, no mínimo, irônica: “Entendemos que o autor deva ser considerado a maior autoridade sobre sua própria obra, mas precisamos de fontes secundárias”. Espertamente, a reação do autor foi escrever uma carta aberta para a revista New Yorker. Isso porque, além de esclarecer o ocorrido, o documento serviria de fonte para que algum “wikipedista” pudesse, enfim, alterar o verbete.
 
AUTORIA EM DÚVIDA
 
Se, por um lado, Philip Roth luta para certificar seu texto, de outro, Luis Fernando Veríssimo tenta refutar, sempre que possível, a autoria de diversos versos que circulam na internet. Convidado na última edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), ele se utiliza desses eventos públicos que participa para ser taxativo: “A grande maioria dos textos que circulam na internet com minha assinatura não são meus”. Foi o que ocorreu na ocasião na FLIP, quando, durante uma palestra do autor, uma leitora o questionou sobre o que ele queria dizer “naquele texto sobre TPM feminina que circula nas redes sociais”. Gentilmente e um pouco embaraçado, Veríssimo esclareceu: “Sinto decepcioná-la, mas o texto não é de minha autoria”.
 
Alheio às novas tecnologias, o escritor também já advertiu que os vários perfis com o nome dele no microblog Twitter são falsos. Em entrevista recente, ele afirmou que de cada cinco textos atribuídos a ele na internet, ao menos quatro não foi ele quem escreveu. “Mas não há muito o que fazer para combater isso, a não ser desmentir a autoria sempre que possível”, afirmou.
 
Luis Fernando Veríssimo tenta refutar, sempre que possível, a autoria de diversos versos que circulam na internet
 
O autor ainda contou que muita gente lhe envia textos por email questionando se são realmente seus ou não. Entre tantas situações, acabam acontecendo casos engraçados, segundo ele. Certa vez, uma senhora lhe mandou uma mensagem sobre uma crônica que tinha lido na internet, mas que na verdade não era dele. A senhora dizia: “Olha, nunca gostei muito do que você escreve, mas esse seu texto está excelente!”.
 
Um dos textos mais famosos atribuídos erroneamente a Veríssimo é intitulado Quase. O texto tornou-se tão popular que lhe rendeu duas saias justas. No primeiro caso, uma turma de uma faculdade de Minas Gerais convidou o escritor para ser paraninfo e, em sua homenagem, publicou no álbum dos formandos o famoso Quase. Em outra situação, durante o Salão do Livro de Paris, o escritor foi abordado por uma senhora que lhe comunicou que estava publicando em francês uma coletânea de autores brasileiros, que incluía Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, além de um texto de Veríssimo. Apesar de agradecido, o escritor explicou à mulher que havia acontecido um engano. Mas já era tarde: o livro já havia sido impresso. E em francês, o texto Quase passou a se chamar Presque.
 
A seguir, um trecho de Quase, que, segundo esclarecimento do próprio Veríssimo em sua coluna do jornal O Globo, pertence à escritora Sarah Westphal Batista da Silva:
 
(…) Pros erros há perdão; pros fracassos, chance;
pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta
cercar um coração vazio ou economizar alma. Um
romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é
romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a
rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
 
SUBVERSÃO, HUMOR E OS FAMOSOS “MEMES” DA INTERNET
 
Diferentemente de Veríssimo, que promove uma “quase militância” para esclarecer a autoria dos textos, alguns autores já não podem fazer o mesmo. É o caso de escritores já falecidos, mas que caíram nas graças dos usuários das redes sociais. Num levantamento feito recentemente, o site YouPix, plataforma que celebra e discute a cultura da internet, elencou os escritores brasileiros mais famosos nas redes sociais:
 
Clarice Lispector – é citada 3.500 vezes por dia (em média) no Twitter. É a autora com mais perfis fake no microblog, que divulgam diariamente pílulas com citações atribuídas à escritora.
 
Chico Buarque – é citado diariamente no Twitter (cerca de 300 vezes), e o perfil @chicolatras, o mais conhecido, tem mais de 130 mil seguidores.
 
Paulo Leminski – o formato dos poemas do escritor curitibano (Haikai) adapta-se perfeitamente aos 140 caracteres do Twitter. O perfil @leminski tem 32 mil seguidores.
 
Caio F. Abreu – junto com Clarice, é um dos campeões de preferência nas redes sociais. Além de vários perfis no Twitter, com 1600 menções por dia, ele também é popular no Facebook e no Tumblr. Está aqui, aqui e aqui.
 
Carlos Drummond de Andrade – apesar de não ter um número significativo de perfis, o @drummondandrade no Twitter tem mais de 107 mil seguidores.
 
Hilda Hist também aparece na lista, mas com proporção mais singela: pouco mais de dois mil seguidores.
 
Apesar de os perfis de escritores continuarem populares entre seus seguidores, a febre do momento são os “memes” da cultura de internet, que estão sempre associados ao humor. Segundo o site YouPix, tudo começou quando o zoólogo Richard Dawkins usou essa palavra em seu livro O Gene Egoísta, em 1976. Nele, Richard define “meme” como uma unidade de evolução cultural que se propaga de indivíduo para indivíduo.
 
Dois exemplos de memes literários que estão fazendo sucesso são as páginas do Facebook Clarice de TPM e Ah, a academia. A primeira utiliza as frases de Lispector, já bastante conhecidas no meio virtual, e faz com elas paródias bem-humoradas usando situações cotidianas e atuais. A página foi criada em março deste ano e já conta com quase 100 mil curtidas. A moderadora da página recebe também sugestões de usuários, que podem mandar suas frases para serem publicadas. No início, as “citações” eram apenas paródias das oficiais, mas, atualmente, com a ajuda das sugestões dos usuários, estão mais diversificadas. No perfil, a moderadora já adverte: "Amar é bom, mas piriguetiar arrasa!" Clarice de TPM. / Atenção: personagem fictício! Qualquer semelhança é mera coincidência.
 
Algumas das frases do perfil Clarice de TPM
 
O humor também é o mote da página Ah, a academia!, que conta com aproximadamente 56 mil curtidas no Facebook. As postagens utilizam fotos de pensadores, filósofos, cientistas e artistas em geral com frases de humor que dialogam com conceitos desenvolvidos pelos próprios autores retratados.
 
Francine Cavalcanti, uma das moderadoras da página, contou ao SaraivaConteúdo que tudo começou quando ela estava fazendo um trabalho sobre Walter Benjamin na faculdade. “Estava detestando o texto e fiquei imaginando a cara dele pra mim, então peguei uma foto em que ele aparece com uma expressão confusa e postei no Facebook com algo como ‘Essa seria a cara do Benjamin se ele pudesse ler meu trabalho’. Os amigos gostaram e comecei a postar outras imagens. Aí, a Bruna (a outra moderadora) me disse pra criar uma página. Eu não achei uma boa ideia no começo, mas acabamos criando ‘Ah, a academia’ e deu certo, acho. O intuito é divertir!”.
 
Além de Francine, a página tem mais três moderadores: Nathaly Soares, Bruna Faleiros e Arthur Miranda. As meninas são alunas do curso de Letras e o Arthur faz mestrado em Matemática. Francine também contou sobre o fluxo de postagens. “Muitas páginas deixam o material pronto e programam as postagens, mas somos bem menos burocráticos. A coisa toda é uma brincadeira, então realmente esperamos vir alguma ideia, aproveitamos datas comemorativas, homenageamos autores, etc. Recebemos muitas sugestões também, bem mais do que somos capazes de postar (aliás, fica aqui o agradecimento a todos que contribuem e lembram da gente quando veem alguma coisa engraçada). A interação é bem grande, algumas pessoas tentam adivinhar o que cursamos na graduação, perguntam quais são nossos autores favoritos. É tudo muito divertido!”, explicou.
 
Imagens retiradas do Ah, a academia
 
 
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