Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.05.2012 29.05.2012

Humberto Gessinger estreia como cronista em ‘Nas Entrelinhas do Horizonte’

Por André Bernardo
 
Humberto Gessinger admite que ficou “cheio de dedos” ao receber, em 2008, um convite da Editora Belas-Letras para escrever um livro. Só aceitou porque era para falar sobre o Grêmio para a coleção Meu Time do Coração.
 
Um ano depois, outro convite. Desta vez, para falar sobre os Engenheiros do Hawaii para a obra Pra Ser Sincero. De convite em convite, Humberto resolveu montar um blog, o BloGessinger.
 
Toda semana, no exato momento em que a segunda vira terça, posta novos textos. Com pontualidade neurótica, disserta sobre os mais inusitados assuntos: de tecnologia digital à superexposição na mídia, do tenista Björn Borg ao cineasta Steven Spielberg.
 
“Saber que há um coração pulsando naquele exato momento no outro lado da web é algo mágico”, afirma Humberto. “É como se estivéssemos em volta da fogueira em um acampamento ou na pré-história”, compara.
Logo, surgiu a ideia de transformar os “posts” em crônicas e reuni-las em livro. Assim nasceu Nas Entrelinhas do Horizonte, o quarto já escrito por Humberto desde 2008 – o terceiro é Mapas do Acaso, de 2011.
 
“Rolou quase uma tradução do blog para o livro. Afinal, são formatos bem diferentes. Acabei reescrevendo os textos para que o livro tivesse um ritmo que superasse a fragmentação do blog”, explica.
 
Coincidência ou não, o período de intensa produção literária coincide com o de recesso dos Engenheiros do Hawaii. Mesmo sem estipular dia e hora para a volta da banda, Humberto continua a reverenciá-la nos livros que escreve.
 
O título de Nas Entrelinhas do Horizonte, por exemplo, foi tirado de um verso de “Infinita Highway”, de 1987. “Já pensei em largar a música (sempre penso em largar tudo), mas nunca pensei em encerrar a história dos EngHaw”, confessa.
Nos próximos meses, Humberto vai conciliar as sessões de autógrafos do recente livro com os shows da turnê do Pouca Vogal, seu mais recente projeto musical.
 
A literatura, aliás, sempre esteve intrinsecamente associada à música dos EngHaw. Por vezes, Humberto homenageou alguns de seus escritores prediletos nos títulos das canções.
 
Um dos capítulos de O Homem Revoltado, de Albert Camus, serviu de inspiração para “A Revolta dos Dândis”, do álbum homônimo, de 1987.
 
O Exército de Um Homem Só, de Moacyr Scliar, batizou a canção de mesmo nome do CD O Papa é Pop, de 1990.
 
Do álbum Dançando no Campo Minado, de 2003, a canção “Dom Quixote” fazia referência à obra-prima de Miguel de Cervantes. “Depois de maduro, o livro que mais me impactou foi o Grande Sertão: Veredas. Durante meses, só falava dele”, diverte-se.
Humberto na turnê Pouca Vogal
Nas Entrelinhas do Hhorizonte é uma coletânea de textos publicados em seu blog, BloGessinger. Como e quando surgiu a ideia de transformar esses posts em crônicas?
Humberto. Entrei tardiamente no mundo dos blogs, só no ano passado. De cara, já notei que ali estava a semente de um novo livro. Mas rolou quase uma tradução do blog para o livro, são formatos bem diferentes. Acabei reescrevendo os textos para que a publicação tivesse um ritmo que superasse a fragmentação do blog.
 
Você escreve num blog toda terça-feira, à meia-noite, e publica uma twitcam no dia 11 de cada mês. Qual é a importância das mídias sociais/digitais na divulgação de seu trabalho?
Humberto. São fundamentais. Mas não penso nelas como ferramentas. Agora, elas também são a vida. Como uma conversa casual com o motorista do táxi. Eu publico no BloGessinger exatamente no limbo da segunda para a terça. 24h ou zero hora? Meia-noite… Me fascina o que há de humano atrás destas tecnologias. Sei que o texto fica disponível, não há horário na www, mas acho a sensação de “tempo real” mágica. Saber que há um coração pulsando naquele exato momento do outro lado é algo mágico. Por isso, faço questão de manter a pontualidade neurótica, quase nerd. Já se criou uma galera que espera o “post”… É como se estivéssemos em volta de uma fogueira em um acampamento, ou na pré-história, balbuciando as primeiras palavras.
 
No livro, você cita diversos autores: de Mário Quintana a William Blake, de Moacyr Scliar a Machado de Assis. Quais são as suas principais referências literárias?
Humberto. Sou bem menos metódico como leitor do que como ouvinte, apesar de ler tanto quanto ouço. Sei bem quais são meus ídolos e influências na música. Na literatura, já não tenho muita certeza. Os caras que li muito na adolescência foram Herman Hesse, Moacyr Scliar, Franz Kafka, Albert Camus… Depois de maduro, o livro que mais me impactou foi o Grande Sertão: Veredas. Durante meses, fiquei muito chato, só falava dele.
 
Quando sente inspiração para escrever, já sabe, de antemão, no que ela vai dar: letra ou poesia?
Humberto. Alguns textos ficam numa zona intermediária. É difícil saber se eles querem ser poemas, letras de música, contos, crônicas. Outros são mais explícitos nas suas preferências. Falo assim porque realmente acho que os textos é que escolhem seus destinos. Dá pra musicar qualquer coisa, a questão é se a música enriquece de sentidos os versos ou não. Se enriquece, é letra de música. Senão, é poema.
 
No livro, você fala de seu “fuso horário disfuncional”. Você segue alguma metodologia para escrever ou compor? É um sujeito disciplinado?
Humberto. A disciplina é estar disponível a qualquer hora e em qualquer lugar. Ou seja: uma disciplina sem disciplina.
 
Em 2008, você resolveu dar uma parada, por tempo indeterminado, na carreira dos EngHaw. Nesse período, lançou três livros. A sensação que se tem é que você só não enveredou antes pela carreira literária por conta da sempre atribulada rotina de shows. Essa impressão procede? Ou a música nunca foi um obstáculo para a literatura?
Humberto. A música nunca foi obstáculo. Sempre escrevi. Mas não imaginava que alguém pudesse se interessar pelo que escrevo. Fui descobrindo isso aos poucos. Acho que, mesmo sem a carreira musical, eu começaria a publicar depois dos 40.
 
O número três é recorrente na obra dos EngHaw (“3ª do plural”, “3X4”, “3 minutos”, etc). Você vai encerrar sua trilogia literária com Nas Entrelinhas do Horizonte ou já pensa em lançar outros livros?
Humberto. Acho que o Nas Entrelinhas do Horizonte não é do mesmo time do Pra ser Sincero e do Mapas do Acaso. Pretendo voltar àquela série, mais relacionada à música, em algum momento.
 
As histórias de alguns representantes do rock brasileiro dos anos 80, como Cazuza, Lobão e Renato Russo, já viraram (ou vão virar) filmes. Não pensa em contar a história dos EngHaw no cinema?
Humberto. Não sou um cara audiovisual. Sempre achei um saco fazer videoclipe. Não sei o que um filme sobre minha vida teria a oferecer que não esteja nos livros e discos.
 
Há muita cobrança em torno da suposta volta dos EngHaw aos palcos, certo? Isso chega a incomodá-lo? Em algum momento, você já cogitou a hipótese de nunca mais ressuscitar a banda e prosseguir viagem com o Pouca Vogal?
Humberto. Isso me envaidece. Vejo como um sinal de carinho. Já pensei em largar a música (sempre penso em largar tudo), mas nunca pensei em encerrar a história dos EngHaw.
 
Você já pensou na possibilidade de convidar antigos integrantes dos EngHaw, como Marcelo Pitz e Augusto Licks, para participar da nova turnê da banda?
Humberto. Não descarto essa nem algumas outras possibilidades. Seria um prazer. São músicos talentosos e figuras muito boas de se conviver.
 
 
 
SERVIÇO
 
31/5, quinta-feira, 19h, Shopping Iguatemi (Fortaleza)
Noite de autógrafos do livro Nas Entrelinhas do Horizonte, de Humberto Gessinger, Editora Belas Artes
 
25/6, segunda-feira, 19h, Shopping Flamboyant (Goiânia)
Noite de autógrafos do livro Nas entrelinhas do horizonte, de Humberto Gessinger, Editora Belas Letras
 

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