Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 28.03.2014 28.03.2014

HQ reconta ‘Canudos’ pela voz de diferentes personagens

Por Andréia Martins
O maior relato sobre a Guerra de Canudos no sertão baiano entre 1896 e 1897 foi escrito por Euclides da Cunha no seu Os Sertões. Agora, um dos principais episódios da história do Brasil ganha uma versão elegante em quadrinhos, contada sob a ótica de quatro personagens diferentes: do peregrino, do guerreiro, do religioso e do inocente. Quem assina o trabalho é o roteirista Daniel Esteves e os artistas Jozz e Akira Sanoki.
Um dos destaques dessa nova narrativa da saga de Antônio Conselheiro no sertão baiano é a qualidade das ilustrações. Se Esteves, vencedor do HQ Mix, soube colocar bem as expressões e o jeito de falar particular da população local da época, o retrato da região e das pessoas também merece atenção.
Jozz e Akira dividiram os trabalhos. O primeiro ilustrou e o segundo coloriu os desenhos. As referências para reconstruir o cenário do conflito, que retrata a pobreza da região,vieram de fotos antigas e filmes. Os dois já tinham trabalhado juntos na HQ Otelo, de Shakespeare, e o trabalho sobre Canudos foi o primeiro de ambos ligado à história do Brasil.
“Eu tinha um banco de imagens de uma viagem que fiz anos atrás, na qual passei por algumas cidades do Norte e Nordeste, e também pedi material a uma amiga que esteve pelas regiões mais próximas de Canudos hoje e tinha bastante registro fotográfico. E meu desenho naturalmente sempre tentou reforçar expressões fortes e marcantes nos rostos dos personagens, então foi um feliz casamento entre tema e traço”, conta Jozz.
Sobre o cenário, o jeito foi recorrer à mistura desses registros com as fotografias antigas que o ilustrador e Esteves encontraram durante a pesquisa histórica. “Nem sempre se tem registros de como era determinado lugar, e em um trabalho como esse é muito arriscado ‘desenhar qualquer coisa para resolver’, pois se trata de um conteúdo histórico nacional, e qualquer engano pode fazer com que você esteja ensinando errado ao aluno que está estudando esse material na escola”, completa ele.
A HQ ainda traz um detalhe curioso: a cor da terra é muito semelhante à cor da pele dos personagens, e não por acaso. “Nos testes de cor, decidimos que a cor da pele de grande parte dos personagens se assemelhasse à terra para aumentar a sensação de como o sertão e a seca afetavam as pessoas que lá viviam. Já as roupas dos soldados que atacavam Canudos sempre contrastam com esse ambiente. Nas primeiras páginas, essas relações são mais intensas ainda para fazer o leitor sentir que entrou no clima quente desse acontecimento. Agora estou revelando um segredo da produção (risos)”, diz Akira.
Se em seu livro Euclides dividiu a história em três partes – a terra, o homem e a luta –, a nova HQ prioriza o homem, o que fica claro com os planos que deixam os personagens mais próximos. Jozz conta que essa escolha veio da própria narrativa, onde Esteves “buscou contar uma história focada nas motivações dos personagens, suas ambições e medos”. “Tanto que Antônio Conselheiro não chega a ser o personagem principal, dando espaço e voz aos atos e fatos dos seus aliados, beatos, jagunços e também os soldados da república”, completa.
Entre seus personagens, Jozz cita Pajeú. “Ele foi o melhor personagem construído, ficam claras suas motivações para se juntar ao grupo de Conselheiro e sua evolução na trama. Gosto bastante das páginas duplas que o Esteves planejou para o livro. Em uma delas, Pajeú coordena um ataque à famigerada Matadeira, o canhão que abria caminhos para os soldados. Essa é a minha sequência preferida”.
NOVAS HQs HISTÓRICAS
Outros momentos da história brasileira devem sair em quadrinhos pela Nemo em uma série nomeada “História & Quadrinhos”. Para Jozz e Akira, um dos temas que poderiam ser explorados é a ditadura militar no Brasil, período ainda recente da nossa História.
“Estou sentindo muita falta de livros que contem a História recente do Brasil, como as atrocidades da ditadura militar ou mesmo [algum fato] mais recente, como o poder da mídia superior ao do estado. Aprendemos com Canudos que, quando as coisas vão bem e caminham com as próprias pernas, [isso] sempre atiça a ganância e inveja de quem tem o punho de ferro. Por isso, acho extremamente necessário relembrar os anos de chumbo”, comenta Jozz.
Já Akira vê nos quadrinhos uma possibilidade de apresentar o contexto da ditadura militar a gerações mais jovens de uma forma mais atrativa. “O período da ditadura militar me chama a atenção por ser recente, ter relação com tantos fatos políticos atuais e mesmo assim não ser conhecido pelos jovens desta nova geração. Eles sabem que ocorreu uma ditadura no Brasil, mas não sabem como aconteceu e como isso reflete na nossa sociedade nos dias de hoje”. Claro, ambos adorariam fazer esse trabalho.
Páginas da HQ A Luta de Canudos
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