Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 30.11.-0001 30.11.-0001

House sai do ar na hora certa, mas deixará saudade nos fãs do médico rabugento

Por Andréia Silva
Hugh Laurie como Gregory House
“Todo mundo mente”. Bem que muitos desejaram por instantes que essa frase, bordão do médico Gregory House (Hugh Laurie), fosse verdade no dia em que a Fox anunciou que a série estava com os dias contados.
O anúncio de que a atual temporada, a oitava, era a última foi feito no início de fevereiro e pegou muita gente de surpresa, deixando os fãs já saudosos das ironias do médico mais rabugento do mundo das séries.
 
O último episódio será exibido em 21 de maio. E você, já sabe do que vai sentir mais falta quando a série sair do ar?
 
 
 
 
 
O médico-enxaqueca
Para criar o protagonista de House, a produção da série apostou no anti-herói – aliás, algo bem comum na última década, com destaque para personagens como Dexter e Tony Soprano, só para citar alguns.
A fórmula para que mesmo os personagens politicamente incorretos caiam nas graças do público parece simples: escolha um ator carismático, faça-o dizer umas boas verdades (daquelas que a gente às vezes morre de vontade de dizer, mas pensa duas vezes) e adicione algum charme: no caso de Greg, a música – elemento muito usado na série, onde ele aparece tocando guitarra e piano–, a bengala e o visual descolado, totalmente antijaleco: paletó, tênis, calça jeans ou o estilo motoqueiro.
 
Com uma personalidade dessas, a identificação do público foi imediata. E boa parte desse sucesso se deve à simpatia de Hugh Laurie, que não era tão conhecido até a série e pôde incorporar por inteiro o personagem.

Em uma entrevista para o jornal The New York Times, em 2011, o ator britânico – ele disfarça bem o sotaque na série, um dos pontos que contou para sua contratação – disse que construiu sua carreira sendo um “invasivo exótico”, uma espécie de pessoa que é diferente das outras de mesma origem.
 
Talvez tenha sido essa excentricidade em comum com o personagem o segredo do sucesso de House.
 
O próprio Laurie chegou a dizer que nunca esperou que a série fosse durar tanto. Resultado: o ator passou os últimos oito anos colecionando cheques de grandes valores e nomeações para o Emmy por interpretar o médico americano.
Os pontos altos da série
House veio na esteira do final de Plantão Médico – ou E.R., para quem prefere – e muitos pensaram que a série substituiria a outra.
 
Mas a trama, pegando referências de outros seriados, tomou outro rumo. Um caminho até certo ponto perigoso, já que era baseada numa fórmula que permitia poucas saídas, o esquema “um paciente por episódio”, com House destilando ironia no início, meio e fim. Nesse ponto, a direção precisou rechear as temporadas para não cansar o público. 
Por outro lado, House ganhou ao ser uma série médica que não se apoia apenas em dramas paralelos, mas é centrada em um personagem que aguçou a curiosidade dos telespectadores com suas doenças misteriosas. Foi esse um dos primeiros destaques do seriado, que rendeu até livros explicando a complexidade dos casos apresentados no programa.
 
Quando a fórmula “paciente ou caso” da semana parecia esgotada, os dramas pessoais dos coadjuvantes foram ganhando força, como as tentativas da doutora Cuddy (Lisa Edelstein) para adotar uma criança, os relacionamentos entre os integrantes da equipe e seus dilemas pessoais, o problema de Chris Taub (Peter Jacobson) em ser fiel e a doença de Thirteen (Olivia Wilde), por exemplo.
 
O elenco de House em foto do livro O Guia Oficial de House
A série de David Shore trouxe para o campo médico o tom investigativo antes visto apenas em séries policiais – ou você nunca reparou nas leves semelhanças entre Dr. House e Sherlock Holmes?
E assim como o detetive, House tem em James Wilson (Robert Sean Leonard) seu fiel escudeiro. A parceria dos dois também foi um dos pilares da série. Enquanto o protagonista vinha com o tom debochado e irônico, Wilson reforçava o lado dramático da série com seus questionamentos e timidez.
Episódios inesquecíveis
Quantos aos episódios, muitos marcaram e, com certeza, pelo menos um deles vai entrar para a lista de melhores episódios de todos os tempos. É o último da quarta temporada, dividido em duas partes, House’s Head e Wilson’s Heart, quando a personagem Amber (Anne Dudek) sofre um acidente e morre nos braços de Wilson.
Na primeira temporada, o episódio DNR traz um jazzman que parece sofrer de ELA (esclerose lateral amórfica). House dá seus primeiros sinais de humanidade, com o paciente prestes a se entregar à morte. Uma reviravolta no diagnóstico marca a trama.
 
Na segunda temporada, um dos episódios marcantes é Euphoria, que coloca pela primeira vez um membro da equipe no lugar do paciente. Quem não se lembra de Foreman isolado, correndo risco de morte devido a uma infecção misteriosa, num final de dar nó na garganta?
Em Frozen, episódio da quarta temporada, House mostra suas habilidades para tratar de um caso à distância. A atriz Mira Sorvino interpreta uma médica que está no Pólo Sul e precisa de cuidados médicos. Sem ter como sair de lá, ela é atendida por House via webcam.
Outro episódio, Help Me, no final da sexta temporada, também arrancou lágrimas e deixou os telespectadores angustiados. House estava na balança, tinha reconhecido que queria ser feliz, mas não conseguia, até que um acidente abala novamente a trama e coloca House e Cuddy trabalhando lado a lado. O médico se comove com o caso de uma mulher soterrada que precisará ter a perna amputada para ter chances de sobreviver e manifesta sinas de humanidade até então nunca vistos – aliás, o grande objetivo da série parece ter sido tentar inúmeras vezes humanizar o personagem, torná-lo menos obscuro, mais compreensível pelo senso comum.
O médico pesa a relação com Cuddy, a dependência do Vicodin para aliviar a dor e a distância de Wilson. O final, pelo menos daquela vez, acaba sendo feliz.
Mulheres, o inferno astral de House
 
Cameron, Cuddy, Amber e Thirteen. O que essas mulheres têm em comum? Durante toda a série, elas foram o verdadeiro inferno astral de House.
 
O amor platônico de Cameron por House fez muita gente torcer pelos dois, mas a médica teve que se contentar com outro médico, o doutor Chase.
Já no caso de Cuddy, desde o início da série, sempre ficou nas entrelinhas que os dois teriam alguma coisa. Mas ao contrário do amor platônico de Cameron, o romance com a chefe apagou o personagem e, a partir daí, apontou para um desgaste da série.
 
A direção, então, apostou no velho estilo House, avesso a relações estáveis, e o namoro terminou. No entanto, talvez o que o médico precisasse naquele momento era de uma virada para ganhar mais fôlego, o que não veio.
 
Hugh Laurie e Lisa Edelstein em episódio de House
Amber e Thirteen funcionaram como provocadoras de House. A primeira por obrigá-lo a dividir a atenção de Wilson, amigo para todas as horas e armações, enquanto a segunda mostrou que o médico realmente se importava com alguém.
A relação entre House e Thirteen superou todas as outras do médico, mesmo sem nenhum envolvimento amoroso. Os dois eram do tipo que não buscavam relações profundas e evitavam criar laços com colegas de trabalho. Talvez daí a identificação dos personagens.
A saída de Thirteen da série, na atual temporada, tirou do ar um dos pontos altos da trama, dando sinais do fim do programa. E, se é para acabar, que seja enquanto o personagem ainda é popular. Afinal, Gregory House não gostaria de sair por baixo.
 
 
Recomendamos para você