Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.06.2011 10.06.2011

Homem X Mulheres: as diferenças ainda rendem bons livros

Por Natasha Ramos
Foto: Martha Mendonça, autora de Canalha, Substantivo Feminino

O tema já foi tema de diversas pesquisas. Se para alguns estudiosos essas diferenças têm base genética, para outros, há fatores diversos envolvidos, principalmente os que dizem respeito ao comportamento. A psicologia popular estabeleceu algumas características próprias de cada gênero, como os homens são mais rápidos no raciocínio matemático, enquanto as mulheres são melhores com as palavras; eles são mais objetivos, elas, mais emotivas; eles são de exatas, elas de humanas. Para além da explicação científica, esta é uma discussão que está longe de ter fim. E isso se reflete no número crescente de publicações acerca do assunto.

Desde o clássico Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus (Rocco), do psicólogo John Gray, lançado em 1992, até livros mais recentes como Mulheres São Loucas, Homens São Estúpidos (Nova Fronteira), do casal de roteiristas Howard J. Morris e Jenny Lee, lançado neste ano, são inúmeras as obras já publicadas que tentam explicar essas diferenças e ensinar como administrá-las para viver bem com o sexo oposto.

 “O entendimento desse nicho de mercado levou a editora a apostar neste tipo de leitura que discute relacionamento interpessoal entre homem e mulher, criando um catálogo com autores e pontos de vista diversificados, atendendo a diferentes necessidades dentro deste mesmo contexto”, diz Carla Rabetti, Coordenadora de Marketing e Comunicação da Editora Novo Século, que, para compor o catálogo desses livros, optou por autores de diversas áreas, para atender a públicos de diversas faixas etárias.

“Temos médicas, como Cibele Fabichak, que avalia esta relação homem/mulher do ponto de vista biológico; jornalistas que avaliam a questão de um ponto de vista mais histórico e social, como é o caso de Fábio Brunelli; até chegar a pesquisadores como Eduardo Nunes, que iniciou suas obras após realizar pesquisas para um programa de televisão voltado para relacionamento, e Jânio Queiroz, especialista em comportamento humano. Sem esquecer aqueles que são protagonistas de sua própria história, compartilhando suas experiências pessoais, como é o caso de Evandro A. Daólio”, conta Carla.

Sem dúvida, esse é um assunto que desperta o interesse de boa parte das pessoas. No entanto, é notável uma procura maior por esses títulos pelo público feminino, que está sempre em busca de entender o que se passa na mente masculina. “Oitenta por cento dos leitores desses livros são mulheres”, afirma Marcos da Veiga Pereira, diretor da Sextante.
“O Brasil não detém grandes pesquisas consolidadas, mas os perfis de consumidores evidenciados em nossas principais livrarias indicam as mulheres, dos 16 aos 40 anos, como o principal público leitor desses títulos”, confirma Neila Name, diretora editorial dos selos Agir e Nova Fronteira, cujas vendas de títulos desse segmento no mercado editorial representam cerca de 18% e vêm crescendo a cada ano.

“Durante décadas, a sociedade e a igreja exerceram forte pressão sobre a sexualidade feminina, e a mulher era vista como um ser puro, sublime e não erotizado. No entanto, aquela mulher frágil e dependente do século XX não existe mais e a mulher do século XXI é a mulher que encontrou sua emancipação e liberdade sexual e se sente muito mais à vontade em consumir informação sobre sexo e relacionamento. Esta mulher está muito mais livre e interessada em conhecer seu próprio corpo, suas emoções e suas interações com o sexo oposto”, explica Carla Rabetti, da Novo Século.

Este fator de mudança social gerou uma nova demanda de mercado tanto para as mulheres que se sentem à vontade e, cada vez mais, curiosas para conhecer o universo masculino, quanto para os homens que estão aprendendo a lidar com este novo perfil do comportamento feminino.

O primeiro livro sobre o assunto publicado pela Sextante foi Por que os Homens Fazem Sexo e as Mulheres Fazem Amor, de Allan e Barbara Pease, que, desde 2000, quando foi lançado, até agora, já vendeu mais de um milhão de exemplares.

“O tema sempre esteve presente nos livros de autoajuda, e a cada vez que um autor propõe uma abordagem original ou o assunto ocupa a mídia (como foi o caso do BBB) os livros voltam a ter destaque”, complementa Marcos da Veiga.

E quando falamos nas abordagens desses livros de autoajuda em relacionamentos, o céu é o limite. Tem livros para casados, namorados, adolescentes, mulheres que querem deixar os homens aos seus pés e muitos outros; geralmente apresentam títulos bem didáticos, a exemplo do Guia Prático Para um Namorado Perfeito – Para Quem Quer Ser Um e Para Quem Quer Ter Um (Gente), ou divertidos, como a série Ria da Minha Vida (Novo Século).

“Os livros de autoajuda funcionam como uma terapia caseira, um grupo de anônimos que te acompanha aonde você vai; porém com um custo infinitamente menor de tempo e exposição”, opina Carla Rabetti.

Invertendo clichês

Além dos livros de autoajuda que, de modo geral, abordam as diferenças entre gêneros de forma estereotipada, há ainda obras que propõem a quebra de antigos paradigmas, propondo novas formas de pensar a relação homem/mulher.

É o caso do livro Canalha, Substantivo Feminino, no qual a jornalista Martha Mendonça faz uma inversão do clichê do homem canalha. “Minha ideia não é dizer que as mulheres são canalhas, mas que elas podem ser canalhas. Mas existe uma diferenciação [em relação ao homem]: a canalha não é a mulher que se vinga do homem porque ele a fez sofrer. Ela não é a ex-mulher que aliena os filhos do pai nem a ex-namorada que arranha todo o carro do cara quando leva um pé na bunda. A canalha age por prazer, por necessidade de manipular e se dar bem. É como define a frase da Jessica Rabbit que inicia o livro: ‘Eu não tenho culpa, fui desenhada assim’”, explica Martha.

Outro livro que apresenta uma nova discussão acerca do relacionamento entre homem e mulher é Borralheiro, de Fabrício Carpinejar, que propõe uma inversão dos papéis: o “homem dono de casa” e a “mulher que sai para trabalhar”. “O livro é uma percepção da mudança do homem, uma espécie de emancipação ao avesso em que ele retorna para casa, sem a proteção tutelar da mãe. De certa forma, ele se apodera, se aproxima, estreita os laços com todo o enredo doméstico e toma ciência do mínimo: a arte de fazer a cama, lavar a louça, preparar a comida. Ele decide se conhecer”, explica Carpinejar.


Fabrício Carpinejar, autor de Borralheiro

A emancipação feminina conquistada ao longo dos anos, de certa forma, libertou o homem de seu papel de “macho alfa”, ao mesmo tempo em que deu livre-arbítrio às mulheres para agirem da maneira que bem entenderem. “Homens e mulheres podem agir diferente daquilo que é esperado deles. E é ótimo que seja assim. Eu, por exemplo, gosto mais de futebol do que a maioria dos homens. Gosto de bebidas mais do que meu marido…”, conta Martha.
“Eu acho que o homem ocidental sempre foi muito funcional. Cada vez mais, ele está assumindo esses contornos mais orientais: em vez de fazer um avião de guerra, fazer um origami. Ele sempre teve dificuldade de se criticar na frente da mulher, como se isso fizesse com que se sentisse menos homem. Aos poucos, ele sai dessa gincana da masculinidade e se confessa sensível”, argumenta Carpinejar, que também vivencia em seu cotidiano uma inversão do comportamento padrão.

“Muitas vezes brinco que minha mulher tem esse pensamento mais masculino e eu, um mais feminino. Ela entende tudo sobre mecânica e eletrônica; já de coisas femininas, lençol, toalha, sou eu que cuido. Eu que escolho as roupas para ela. Até hoje, nunca errei um vestido!”, diz entre risos.

Sem dúvida, os comportamentos mudaram. Ainda que existam casais de hábitos mais tradicionais, as obrigações entre gêneros são cada vez menores e as definições dos papéis masculino e feminino estão adquirindo contornos cada vez mais suaves. Isso faz com que o homem e a mulher se aproximem mais um do outro.
“Acredito nessa convergência. Eu acho que hoje tanto o homem quanto a mulher são mais movimento do que formas fixas. A atração rápida e a troca de papéis foram possíveis, justamente porque superamos a aparência”, diz Carpinejar.

Apesar de assumir uma proposta oposta à da maioria dos livros de autoajuda em relacionamentos, Martha não descarta a importância desse tipo de publicação. “Acho que muitos desses livros são interessantes, principalmente os que apresentam situações reais e não só teses ‘definitivas’. A partir dessas situações, leitores e leitoras podem se identificar. E essa familiarização os leva a pensar em sua própria realidade. Pensar a fundo o que estamos vivendo é um belo passo para resolvermos situações-limite, insatisfações de todo tipo.”

“As pessoas têm direito a ler, a procurar e a querer [esses livros de autoajuda]. As mulheres estão lendo e achando que os homens não estão. Se a maioria dos homens começar a ler esses livros, vai ser muito engraçado”, comenta Carpinejar.

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