Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.07.2009 14.07.2009

Histórias verdadeiramente reais, talvez

Por Marcio Debellian

Fotos de Tomás Rangel (Sophie Calle em Paraty) e divulgação

> Assista à entrevista exclusiva de Sophie Calle ao SaraivaConteúdo 

A presença de Sophie Calle na Flip foi um dos grandes alvoroços do evento, perdendo apenas para a esperada tietagem em cima de Chico Buarque. Mas como este não permaneceu em Paraty, os holofotes voltaram-se para o reencontro de Sophie com seu ex-namorado, o escritor Gregoire Bouillier.  Exibida pela primeira vez na Bienal de Veneza, em 2007, a exposição de Sophie Calle, Cuide de Você, atualmente no SESC Pompéia em São Paulo, teve origem na frase final do e-mail em que Gregoire terminava o relacionamento entre os dois.  Sophie não soube responder a mensagem e, por isso, pediu a 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão, para interpretá-la. “analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la”.  A exposição é este “esgotamento”. A expectativa e a repercussão da Flip foi tanta, que pouco se discutiu sobre outras obras da artista e seus aspectos mais recorrentes, como o desprezo pelas fronteiras entre ficção e realidade, público e privado, arte e vida. Havia um excitamento, uma espécie de “big brother intelectual” que tomou conta do painel em que ela e Gregoire participaram. Ao final, as conversas em Paraty davam conta de que muitos consideraram o encontro como uma espécie de jogo.  

– Quem ganhou? 

– Ah, foi empate…  
Sophie parecia cansada do assédio. Na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, que ela chegou a desmarcar duas vezes, deixando para a última hora de domingo, momentos antes do painel final da Flip, e com a recomendação de que fôssemos breves,  queixou-se de “ter sido fotografada nas piores situações, suja, à meia-noite, enquanto jantava” e que “não tinha pretensão de se ver em todos os blogs da terra”. 

Falou rapidamente sobre as motivações que a levaram a lançar o livro Histórias reais (Agir, 2009), em que relata histórias pessoais acompanhadas de fotos, em textos breves, mas repletos de significados. Este formato, aliás, remete à sua infância. Sophie contou que virou artista para seduzir seu pai, médico e colecionador de arte.  “Passei sete anos fora da França e quando voltei estava gorda e feia. Achei que meu pai não gostava mais de mim. Nas paredes da minha casa, havia fotografias acompanhadas de textos. Aos 26 anos, virei artista para seduzi-lo”. Muitos dos trabalhos de Sophie Calle surgiram quando ela decidiu se colocar em situações arbitrárias: seguir um homem na rua documentando seus passos de Paris à Veneza registrando seus passos em fotografias e anotações; partir rumo a cidades apontadas por sua vidente e delegar a ela as decisões do caminho; empregar-se como camareira num hotel de luxo em Veneza, fotografando os pertences dos hóspedes, as marcas que deixam e o lixo que produzem, e depois expor as fotos com textos em que tenta imaginar quem são aquelas pessoas… Sophie, que já foi bastante atacada por basear sua obra na “invasão” da vida dos outros, virou a lente para si mesma em seus últimos trabalhos. O assédio em Paraty pode ser encarado de vários ângulos. Sophie Calle virou pop e o público brasileiro tomou intimidade, sem cerimônia, confundindo arte e artista, talvez um jeito tropical de compreendê-la. “Eu não quero nada do público. Ele é livre para fazer o que quiser. Não posso criar as regras do jogo e depois dar ao público uma bula. Isso não é mais problema meu. O trabalho é um território dele, não meu.”

> Confira o site sobre a exposição Cuide de você

> Assista à entrevista exclusiva de Sophie Calle ao SaraivaConteúdo


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