Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.11.2012 14.11.2012

Histórias que não podem ser apagadas

Por Maria Fernanda Moraes
 
“A postos para o seu general / mil faces de um homem leal (…)/Que ousou lutar, amou a raça/ Honrou a causa que adotou / Aplauso é pra poucos / Revolução no Brasil tem um nome/ Marighella”. É o que canta Mano Brown na música "Mil Faces de um Homem Leal" (Carlos Marighella), lançada recentemente.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A homenagem ao militante, deputado federal, poeta e estrategista da guerrilha no Brasil durante a ditadura não fica apenas por conta dos Racionais MC’s. A música faz parte da trilha sonora do documentário Marighella, da diretora Isa Grinspum Ferraz, também lançado em 2012. O clipe da canção, dirigido por Daniel Grinspum, foi filmado no conjunto ‘Ocupação Mauá’ e mostra os integrantes invadindo a Rádio Nacional em protesto contra a repressão da Ditadura Militar.
 
No final de outubro, a história desse personagem tão misterioso ganhou também as páginas dos livros. O jornalista Mario Magalhães lança Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo. “O livro não é uma hagiografia, a promoção do protagonista”, contou o autor ao SaraivaConteúdo. “Nem um libelo contra ele. Conto o que sei, para cada um tirar suas próprias conclusões e formar opinião. Escrevi tanto para os mais velhos, interessados na história apaixonante da década de 1930 à de 1960, quanto para os mais jovens, que só agora ouvem falar em Marighella. A biografia não se dirige só para quem é de esquerda ou só para quem é de direita. É para quem adora conhecer vidas fascinantes, como a do Marighella, mesmo que não se entusiasme especialmente com política”.
 
                                                                        Crédito/ Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj)
Marighella quando era deputado, em 1946 ou 47
 
Carteira do PCB emitida em um período de legalidade do partido, de 1945 a 47
 
Mario contou que entrevistou e consultou 256 pessoas, da professora de inglês do estudante Marighella no Ginásio da Bahia ao companheiro que foi buscá-lo na Alameda Casa Branca (São Paulo) em novembro de 1969 e o encontrou morto. A obra revela documentos secretos de arquivos públicos e privados do Brasil, Rússia, República Tcheca, Estados Unidos e Paraguai. Há três cadernos de imagens, somando 48 páginas e 102 fotografias. “O conhecimento contribui para o diálogo. Certa historiografia oficial tentou eliminar os rastros de Marighella da História. É legítimo amá-lo ou odiá-lo, mas é quase impossível ficar indiferente à sua trajetória trepidante. Apagá-lo da História é expressão de intolerância. Até hoje, Marighella é tratado como um brasileiro maldito. A história que eu conto não está nos livros escolares, que ignoram Marighella”.
 
Nascido na Bahia, em 1911, e morto em São Paulo, em 1969, Marighella passou um longo período de prisão em Fernando de Noronha e na Ilha Grande, durante outra ditadura, a do Estado Novo (1937-1945); viveu o inferno nas três semanas consecutivas em que foi torturado; e virou personagem de letra de samba, cantado por milhares de foliões nos blocos do Rio no Carnaval. Ganhou uma projeção enorme no exterior. Como analisou a CIA, agência de espionagem norte-americana, Marighella substituiu Che Guevara como o grande inspirador de rebeldes mundo afora.
 
O lançamento de Marighella coincide com uma leva de outros livros sobre a ditadura e o período de repressão no Brasil que também foram publicados recentemente. Curiosamente, os títulos abordam situações de repressão em diferentes regiões do Brasil, o que possibilita ao leitor um panorama da ditadura pelo paíse contribui com o entendimento do que ocorreu naquela época.

 
Estive lá fora, do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, narra a época de chumbo na cidade de Recife, permeada por um romance com ares biográficos. “Sinto que diferentemente da Argentina e do Chile, aqui no Brasil esse tema é bastante esquecido. As novas gerações desconhecem inteiramente nossa história recente, e as pessoas que viveram esse período, engajadas ou não na luta, também parecem adormecidas. Por isso, criei uma ficção, e não um relato histórico, na tentativa de provocar mais interesse pelo tema. Acho o relato ficcional a maneira mais eficiente de se referir à História”, contou Ronaldo em entrevista ao SaraivaConteúdo.
 
O eixo Minas Gerais-Rio de Janeiro é retratado em Seu amigo esteve aqui, da jornalista carioca Cristina Chacel. O livro fala sobre o desaparecido político Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, assassinado na famosa Casa da Morte, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Na obra, a jornalista traça a vida dele a partir de depoimentos de amigos e companheiros que reconstituem sua infância e adolescência, o início na política universitária, a militância na clandestinidade, até seu sequestro e assassinato.
 
                                                                                                                                 Crédito/ Arquivo Nacional
Cristina Chacel
 
Marighella fotografado pela polícia paulista em junho de 1939, um mês depois de sua terceira prisão
 
A interligação entre as obras é inegável. Segundo Mario, na ditadura militar, Marighella praticamente não esteve na Bahia. Concentrou-se no Rio e em São Paulo, em esconderijos revelados no livro. E angariou apoio em todo o Brasil e no exterior, onde personalidades como o filósofo Jean-Paul Sartre, o dramaturgo Augusto Boal, o pintor Joan Miró e os cineastas Glauber Rocha, Jean-Luc Godard e Luchino Visconti contribuíram com ele e sua organização guerrilheira, a ALN (Ação Libertadora Nacional).

 
Marighella também esteve no Recife em 1961, comandando seus partidários na resistência à tentativa de golpe de Estado em agosto e setembro daquele ano. O militante colaborou e viveu tensões com várias organizações guerrilheiras, como a de Carlos Alberto Soares de Freitas, personagem de Seu amigo esteve aqui. “Todos os livros que contribuem para conhecer períodos históricos nebulosos são valiosos”, ressaltou o jornalista. 
 
COMISSÃO DA VERDADE
 
Os três autores concordam que a Comissão da Verdade, instaurada em maio deste ano no Brasil, é muito bem-vinda ao tentar jogar luz sobre um período histórico (1946-1988) com tantas passagens ainda obscuras. “Empreguei na biografia Marighella nove anos de trabalho, dos quais cinco anos e nove meses em dedicação exclusiva. Não a escrevi com vistas à comissão instaurada agora em 2012. Mas é evidente que há revelações sobre violações de direitos humanos que podem vir a interessá-la”, relatou Mario. 
 
Ronaldo também já trabalhava em seu romance bem antes de ser instaurada a comissão. “Não me sentia tolhido de escrever uma narrativa que tem por pano de fundo os acontecimentos das décadas de 60 e 70. Creio que as notícias mais recentes sobre a ditadura militar despertarão curiosidade e interesse nos leitores para livros sobre esse tema, como é o caso de Estive lá fora”.
 
Cristina endossa a ideia de que já está mais do que na hora de o Brasil contar essa história da ditadura. “E quanto mais gente contar, melhor. Neste momento, o Brasil é o último país da América Latina a instituir uma Comissão da Verdade. Essa Comissão está mobilizando o país inteiro, há uma Comissão Nacional e, também, as Comissões Estaduais. Essa é uma história que tem muito pouca documentação. O período da ditadura foi um período em que era preciso apagar os vestígios, de um poder que funcionava como um braço clandestino do estado, que foi a tortura, que foram os desaparecimentos. Enfim, esta é a hora para contar. É a hora que a democracia brasileira está amadurecida para enfrentar esse período com o qual, de alguma maneira, toda a sociedade acabou compulsoriamente tendo que conviver”.
 
ROMANCE E EVOCAÇÃO DO RECIFE NOS ANOS DE CHUMBO
 
Com formação em Medicina e Psicanálise, o escritor Ronaldo Correia de Brito usa suas próprias experiências de estudante na época da ditadura para dar vida à Cirilo, o personagem de Estive lá fora. O livro apresenta três núcleos: a experiência de um estudante de Medicina; a repressão; e a evocação do Recife. E o autor se utiliza muito mais de suas memórias para escrever as passagens do que de pesquisas históricas. Entre elas, está a sua experiência vivida com o atentado de Cândido Pinto, acontecida no Recife àquela época. “Trabalho com memória inventada. Construo uma ficção e enxerto dentro dela o que presenciei, vivi e sofri. Como no período mais sombrio da ditadura eu era um estudante de Medicina, foi mais fácil criar um personagem como eu era. O atentado ao jovem Cândido Pinto aconteceu no ano em que cheguei ao Recife. Fiquei profundamente marcado pela tragédia e decidi que um dia a transformaria em literatura. Foram necessários muitos anos para eu sentir-me capaz disso”. 
 
Na obra, Ronaldo aborda o golpe militar de uma forma diferente. O romance não fala especificamente sobre o fato em si, mas dá lugar ao sentimento da família diante da insegurança e do medo de um futuro incerto provocados pelo golpe e pelo contexto, o que denota traços da formação médica e psicanalítica do autor. “Meu projeto para o romance era contar de que maneira algumas famílias foram destruídas, depois que os seus filhos se engajaram na luta armada, durante a ditadura. Escrevo sobre dramas familiares. Posso garantir que cada um dos 29 capítulos de Estive lá fora é um drama, sugerindo até uma possível encenação. É fácil perceber que a minha literatura é a de um escritor psicanalisado. E o lugar de médico me obriga a escutar muitas histórias, o que é um excelente laboratório para a escrita. Portanto, quando escrevo, sou alguém que recorre à memória, que inventa histórias, que pensa como um escritor, que também é médico e fez formação psicanalítica”.

 
Ao mesmo tempo em que trata do horror e da barbárie em Recife, o autor cita e dialoga com autores importantes e universais que também viveram períodos difíceis, como o nazismo e o comunismo. Em alguns casos, é bem sutil essa presença, e não chega a ser uma citação específica. “Eu não encontrei nos livros que li sobre o período da ditadura militar brasileira o horror que presenciara. Tudo me parecia amenizado, perdoado ou até esquecido. Sem essa atmosfera de sombra, eu não conseguia escrever. Foi por isso que busquei na leitura de autores europeus que viveram as duas Guerras, e o período entre elas, o clima de insanidade que eu presenciei no Recife”. 
 
BETO, BRENO OU QUALQUER UM DE NÓS
 
Jornalista política e econômica, Cristina Chacel sempre teve uma formação alinhada à esquerda e, nesse sentido, segunda ela, sempre acompanhou e foi sensível à questão da ditadura. Mas mesmo com essa bagagem, ela desconhecia a história de Carlos Alberto Soares de Freitas até entrar em contato com o projeto do livro. “Não tinha a menor noção de quem se tratava. Você pensa que quem está dentro sabe tudo, mas também não sabe. Foi um período tão clandestino que os próprios protagonistas das histórias só conheciam pedaços desse enredo. Juntar esses cacos é uma coisa nova para todo mundo, é uma revelação para toda a sociedade brasileira. A gente imaginava que o cara foi militante e sabia de tudo. Mas não, por medida de segurança ele não podia saber muito. Muitos se conheciam só pelo codinome”.
 
Conhecido como Beto e usando o codinome de Breno, Carlos Alberto foi dirigente da organização clandestina de esquerda VAR-Palmares. Em fevereiro de 1971, foi preso pela ditadura militar e desapareceu. Na adolescência, ainda em Belo Horizonte, Beto foi amigo íntimo da presidenta Dilma Rousseff, na época em que ela também era militante. Na ocasião do discurso de posse da presidente, em fevereiro de 2010, ela lembrou do companheiro de militância. “Não posso deixar de ter uma lembrança especial para aqueles que não mais estão conosco. Para aqueles que caíram pelos nossos ideais. Eles fazem parte da minha história. Mais que isso: eles são parte da história do Brasil. Carlos Alberto Soares Freitas, Beto, você ia adorar estar aqui conosco”.
 
                                                    Crédito/ Divulgação
Ronaldo Correia Brito
 
O fato de Carlos Alberto ser uma pessoa comum, que poderia ser qualquer um de nós, sensibiliza as pessoas e humaniza ainda mais os fatos narrados por Cristina. “Quando eu tive contato com essa esquerda armada que lutou contra a ditadura e participou da resistência, os nomes que eu conhecia eram os mais famosos da época: Che Guevara, Carlos Marighella, Carlos Lamarca, nomes fortes. Esse foi o primeiro estalo que eu tive sobre a história do Beto. E demorei para mergulhar nessa história. Não foi fácil chegar em Carlos Alberto Soares de Freitas. A primeira coisa foi perceber que o nome era um nome comum, era alguém comum. Não era uma grife, uma marca. Ele não era um herói, era uma pessoa absolutamente comum. Essa foi a primeira desconstrução que eu fiz que me permitiu chegar mais perto dele”.  
 
AINDA HÁ PEDRAS NO CAMINHO
 
Apesar do aparente canal aberto para abordar o tema, na prática as coisas não são bem assim. Mario Magalhães contou que enfrentou muitíssimas dificuldades no processo de pesquisa do livro. “Por um lado, a tal historiografia oficial tentou apagar as pegadas de Marighella. Por outro, houve esforço dele para não deixar vestígios dos seus passos, porque era uma questão de sobrevivência, desde as perseguições policiais na Bahia na década de 1930. Tive a sorte de muitas pessoas que jamais tinham compartilhado suas memórias me receberem e confidenciarem segredos. E de encontrar tesouros documentais até agora inéditos”.
 
O caminho de Cristina Chacel foi parecido. O último capítulo de sua obra é dedicado a contar todo o processo de pesquisa sobre a trajetória de Carlos Alberto Soares de Freitas.O trabalho foi tomando corpo a partir de depoimentos de parentes, amigos e militantes, e também com dados de pesquisas em jornais, revistas e livros sobre o período, alémde documentos (basicamente inquéritos militares, peças jurídicas, trechos de relatórios). “Sem dúvida, o mais importante desses documentos é o depoimento depositado na OAB em que a militante Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte, denuncia o assassinato de Breno e outros companheiros no centro clandestino de tortura montado pelo Exército em Petrópolis”, revela a jornalista.

 
Em depoimento de 1979, Inês revelou ter sido informada por um dos torturadores da Casa da Morte: "Seu amigo esteve aqui", referindo-se a Carlos Alberto Soares de Freitas, que era muito amigo dela, desde Minas Gerais. Dessa revelação saiu o título do livro.
 
O curioso é que parte do projeto de pesquisa e escrita da publicação foi financiado por Sergio Emmanuel Dias Campos, hoje professor da PUC no Rio de Janeiro e, àquela época, militante junto com Breno. O financiamento foi possível graças a uma reparação financeira da anistia feita a ele pelo Estado brasileiro em função do tempo que ficou preso e foi torturado na ditadura militar. O projeto foi feito a quatro mãos: Sergio Campos, personagem e patrono da iniciativa; Sergio Ferreira, primo de Beto, também personagem e a voz da família na história; Flavia Cavalcanti, jornalista, ex-exilada, militante da VAR e amiga de todos os envolvidos; além de Cristina, que foi chamada para compor essa biografia.
 
 
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