Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 12.07.2013 12.07.2013

Histórias de terror que arrepiam a garotada

Por Marcelo Rafael
 
Os passos arrastados ecoam pelo ambiente. A respiração está arfante. Está escuro, e o frio faz os pelos arrepiarem. Há um barulho. Não se sabe o que há atrás da porta. De súbito, ela se abre.  Quem toma o susto é uma criança!
 
O gênero de terror espalhou-se pela cultura ocidental nos últimos anos com grande força, atingindo inclusive o público infantojuvenil.
O tema sempre foi tratado de maneira mais ou menos amena por meio de personagens como a Turma do Arrepio ou Zé Vampir, da Turma da Mônica. Mais recentemente, surgiram a franquia Monster High, filmes como Hotel Transilvânia e quadrinhos como Garoto-Vivo na Vila Cemitério, da revista Recreio.
No passado, no entanto, a coisa era mais sombria. Os contos de fadas e lendas do folclore eram feitos para assustar de verdade. Ao longo do século XX, entretanto, com a ajuda dos irmãos Grimm e Monteiro Lobato, foram perdendo o impacto.
LENDAS QUE ASSUSTAM
Mas alguns autores fazem questão de garantir que o susto dos mitos e lendas seja passado de geração para geração.
O próximo volume da Coleção HQ Saraiva, a ser lançado ainda este ano, trata justamente desse tema. O título? O Anjo Caído (aquele mesmo, de rabo com ponta de flecha, pele vermelha e um par de chifres na cabeça).
“A figura do diabo está presente em vários folclores do mundo. Então, pesquisei contos que dessem boas imagens e adaptei-os ao quadrinho. O resultado é um álbum que reúne quatro contos europeus, desenvolvidos graficamente com técnicas diferentes entre si”, conta o autor, Rogério Soud.
Foi justamente por meio das imagens que Soud tentou imprimir um clima mais sombrio aos contos, uma vez que, apesar de lidarem com o Diabo, são leves e terminam com o Tinhoso normalmente se dando mal, enganado pelos humanos.
“A HQ tem como mote os acordos para uma vida farta que o Diabo propunha aos homens em troca de suas almas, uma vez que a situação na Europa medieval era de extrema pobreza”, conta Soud sobre seu primeiro álbum com a temática do horror.
A escritora e ilustradora gaúcha Patrícia Langlois também foi pelo caminho das lendas. Mas, nesse caso, ela mesma criou uma.
Após ilustrar os contos da coletânea Assombros Juvenis, ela participou de uma oficina de criação. Em um dos exercícios, era preciso tirar um papel com uma palavra e criar uma história a partir dali. Pimba! Ela tirou “Torce-Braço”.
 
                            Crédito/Patrícia Langlois
O misterioso Torçe-braço, de Patrícia Langlois
“Isso me suscitou a ideia de trabalhar com o tema do terror, porque eu poderia ter feito uma lenda que não fosse de medo”, conta Langlois, que usou o texto em Assombros Juvenis II.
Trabalhando com a ideia da incerteza, com muitos “Me disseram”, “Uns dizem que foi lá, outros dizem que não”, dizeres característicos de uma lenda, ela incluiu referências locais do Rio Grande do Sul para dar maior verossimilhança.
“Queria que a pessoa que estivesse lendo pensasse: ‘Será que essa lenda existe? Será que é daqui? Será que aconteceu? Onde fica Turvo? Onde fica o Morro do Enforcado?’”, conta.
SUSTOS CRIADOS NA CABEÇA
A incerteza das lendas leva a uma dúvida cruel: de saber se algo existe ou não existe, se aconteceu ou não aconteceu, criando um terror psicológico. E foi esse o aspecto aproveitado pela também ilustradora e escritora Catherine de Léon.
Seu conto, em Assombros Juvenis II, não trata de uma lenda, mas da estranha relação entre um garoto e um boneco dentro de uma caixa.
“Eu quis deixar o boneco dentro de uma caixa. Deixei-o escondido, criei toda uma atmosfera de a criança encontrar um objeto que poderia ou não ser assombrado. Guardei o mistério. Preferi que os leitores criassem (na imaginação), com o que eu descrevi e com o que eu não contei”, explica Catherine.
Ela afirma que, até escrever o conto “Charlie”, não tinha criado nada do gênero. Tinha medo. Curiosamente, quem lhe sugeriu escrever sobre terror foi o filho, na época com 11 anos, que achava o máximo seriados como The Walking Dead.
ATÉ ONDE SE PODE IR
Para um público tão jovem, é preciso tomar cuidado para não assustar demais. “Até onde vai? É a questão da reescrita”, conta Catherine, que leu seu conto para adultos e crianças antes de publicá-lo.
 
                        Crédito/Catherine de Léon
O que será que tem na caixa do conto de Catherine de Léon?
“Eu via pela minha irmã, que é tão assustada quanto eu. Conforme o rosto dela ia mudando, eu pensava: ‘Opa, nessa parte eu posso dar uma diminuída’”, diz. É importante notar que a irmã tem 30 anos.
Já Patrícia foi para outro lado. “Eu já coloquei a ilustração abrindo o conto, uma imagem bem forte. Então, o pior já passou. A criança já viu aquela imagem e já se preparou para o que ela vai ler”, completa.
Ainda assim, ela leu sua lenda ao filho de 7 anos. O menino ficou preocupado e queria saber se o Torce-Braço realmente existia.
“Trabalhar com o terror na literatura ajuda as crianças a enfrentarem os seus medos. Elas podem experimentar essa vivência, que não é real, e se colocar naquela situação. Isso a prepara para outros medos que ela possa enfrentar na vida”, comenta Patrícia.
O fiel da balança, então, é “assustar sem assustar”, ensinar algo com o susto. “Eu cuidei para não passar isso (o medo) aos meus filhos. Eu dizia: ‘A bruxa? Ah, ela está na casa dela. Não tem problema. Ela não vai te pegar’”, comenta Catherine.
Ela revela que era uma criança assustada, tinha medo de lendas como a Mula-sem-Cabeça e o Velho do Saco. Hoje em dia? “Perdi o medo. Todo mundo na casa assiste The Walking Dead”, conta sorrindo.
 
 
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