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Histórias clássicas passadas a limpo nos quadrinhos

Por Priscila Roque
 
Os quadrinhos, que nas livrarias se misturavam às leituras jovens e adultas, se fortalecem ano a ano, e hoje aparecem em amplas seções dedicadas somente ao assunto. Parte desse sucesso se deve às adaptações para HQs, uma forma de aproximar o grande público dessa arte.
 
Laudo Ferreira é um dos quadrinistas brasileiros que tem como um de seus trabalhos a releitura e a adaptação de histórias. “O gênero cresceu muito e se tornou uma obra de livraria. Há até a discussão sobre ser uma literatura desenhada. Acho uma bobagem. HQ é HQ. Livro é livro. Música é música”, define.
À frente do estúdio Banda Desenhada, ao lado de Omar Sidney Viñole, ele iniciou a carreira em meados da década de 80. Durante esses quase 30 anos, lançou diversas obras baseadas em pesquisas minuciosas. “Mesmo quando o quadrinho é autoral, sobre uma ideia própria, existe pesquisa”, comenta.
Suas obras vão desde uma adaptação para o filme À Meia-Noite Levarei a Sua Alma, com Zé do Caixão, até uma visão própria da vida de Jesus, publicada em uma série intitulada Yeshuah.
Os clássicos da literatura
Seu mais recente trabalho é uma adaptação para o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, que saiu pela editora Peirópolis. Manter o texto original e usar artifícios da HQ para aproximar a alegoria dos leitores foram alguns de seus focos.
 
“Como ele é de 1517, o português é arcaico. Para solucionar isso, optamos por notas de rodapé. Ao mesmo tempo em que houve essa preocupação, tive liberdade na parte visual. Deu um bom casamento”, relata.
O humor sobre a sociedade da época, que em muitos fatores permanece até os dias de hoje, levou Laudo a propor essa obra à editora. “Minha esposa fazia parte de um grupo de teatro chamado Dragão 7, de São Paulo, responsável por uma das melhores adaptações para o teatro da obra de Gil Vicente – apresentada até em Portugal. Conheci o Auto da Barca do Inferno, primeiramente, por aí”, explica.
 
Para ele, esse tipo de obra não é caça-níquel, como muita gente pensa. Há um trabalho de qualidade, firmado por criadores e também editoras. “Os gêmeos (Fábio Moon e Gabriel Bá) fizeram uma adaptação para O Alienista (Machado de Assis) que ganhou até o prêmio Jabuti”, exemplifica.
Em 2008, Laudo já tinha produzido uma adaptação para um outro texto antigo. Tratava-se do ensaio “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Rotterdam, um projeto em conjunto com o roteirista André Diniz.
Da pesquisa à criação
 
Um dos principais destaques do currículo de Laudo Ferreira é a série composta de três volumes intitulada Yeshuah – inspirada na vida de Jesus. No momento, ele trabalha no último capítulo e tem como objetivo lançá-lo entre este ano e o próximo.
“De todos esses trabalhos, talvez Yeshuah seja o mais pessoal. Ele partiu da ideia de contar a história de Jesus por um caminho mediano. Geralmente, quando se fala dessa figura, as opções são uma obra religiosa ou então satírica. Como tinha esse conceito pré-concebido, passei a estudar profundamente”, comenta.
Material histórico, vertentes religiosas diversas e bate-papo com estudiosos do assunto permearam esses mais de 10 anos de projeto, iniciado em 2000. “Tudo isso desemboca em uma visão pessoal”, completa.
 
Milton Nascimento e a turma de músicos e poetas que o acompanharam no Clube da Esquina, como Marcio Borges, Fernando Brant e Lô Borges, também foram transportados para os quadrinhos pelas mãos de Laudo.
 
 
“Sou grande admirador da época do Clube da Esquina. As letras das músicas foram muito marcantes para mim. Então, resolvi fazer uma homenagem a eles”, explica. 
 
Histórias do Clube da Esquina teve como referência o livro Sonhos Não Envelhecemde Márcio Borges.
 
“Como eu tinha 40 anos de conteúdo, não dava para adaptar o livro completo. Optei por fazer como se fosse um documentário contado por eles, pelos próprios membros do Clube. Pincelei momentos dos anos 60 até o início dos 90”, conta.
“Procurei não desrespeitar visualmente o pessoal. Porém, não desenhei todos eles puxados para o cartoon. Um ou outro, como o Milton ou o Lô Borges, foram feitos de maneira caricatural. Houve uma preocupação em ser fiel ao clima deles, à amizade, às coisas da época, inclusive na forma de lidar com parcerias inusitadas ou situações da Ditadura Militar”, conclui.

 

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