Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.06.2012 20.06.2012

Hermanos contemporâneos

Por Marcos Fidalgo
Martin Kohan, Federico Andahazi, Samanta Schweblin, Oliverio Coelho, Alan Pauls, Pablo de Santis, Pola Oloixarac e Martin Caparrós. Você talvez já tenha se deparado com alguns desses nomes em certas prateleiras ou mesas literárias. Eles são autores pertencentes à geração de escritores argentinos que nasceram a partir do final dos anos 50 e que vem sendo reconhecida e premiada internacionalmente.
Tal projeção tem sido impulsionada por iniciativas como a do Ministério das Relações Exteriores da Argentina, que por meio do Programa Sur, financia traduções de obras literárias do país no exterior.
Para saber mais sobre algumas características dos trabalhos desses escritores argentinos contemporâneos, conversamos com o crítico literário Ronaldo Cagiano, a escritora e tradutora argentina Paloma Vidal e o escritor argentino Martin Kohan, um dos destaques dessa geração.
 
 
Um olhar no passado
Tradicionalmente, a literatura argentina sempre manteve um olho voltado para o passado histórico e político do país.
Os autores contemporâneos, contudo, têm dilatado esse olho, aberto anteriormente por escritores como Rodolfo Walsh, Rodolfo Fogwill e Tomás Eloy Martínez.
“Há entre os autores uma nítida preocupação com o passado político recente”, afirma Ronaldo Cagiano. O crítico ressalta que “a escrita tem sido usada na Argentina como espaço para se discutir os traumas da ditadura e realizar um acerto de contas com esse período, na tentativa de entendê-lo e também exorcizá-lo.”
 
Para Martin Kohan, “a literatura argentina tem encontrado maneiras originais de considerar esses temas, sem cair em realismos políticos, nem em livros de mensagens ou em outras simplificações dessa índole”.
 
Martin, no entanto, reforça que não há um mandado que obrigue os autores a escrever sobre tais assuntos. “E é melhor que assim o seja.”
 
Paloma Vidal, por sua vez, ressalta que o interesse pelo passado obscuro do país, fortemente discutido na sociedade argentina atual, foi reavivado pelos governos dos Kirchner, que decidiram reabrir os julgamentos contra os militares envolvidos na ditadura do país, uma das mais sangrentas do continente.
 
Martin Kohan, autor de Segundos Fora
 
A tradutora de escritores argentinos para o português diz que “a ficção tem sido usada para recuperar e recriar a memória do país, e que é possível observar isso em autores como Martin Kohan e Alan Pauls.”
Além das sombras
Apesar de atenta às feridas abertas do passado, a literatura argentina contemporânea não se prende ao retrovisor.
Ronaldo Cagiano observa que há nessa geração uma “linguagem cosmopolita”. “Nota-se nas obras uma pretensão mais universalizante, na medida em que caminham na esteira dos fenômenos da sociedade do consumo e da cultura de massas.”
Já Martin Kohan diz que “por sorte não há uma característica comum, mas sim zonas e climas compartilhados na literatura argentina de hoje. O mais interessante desse momento de nossa narrativa é justamente sua diversificação, a qual não há maneira de reduzir e apertar em uma ou duas definições gerais.”
O escritor ainda aponta o distanciamento do realismo mágico latino-americano como sendo uma virtude dos autores argentinos.
“Nossa literatura sempre se manteve à parte, e talvez a salvo desse movimento. À medida que os escritores latinos souberem desfazer-se desse peso, teremos mais pontos em comum entre nossas escritas.”
Martin acabou de lançar no Brasil o romance Segundos Fora. No livro, dois jornalistas têm a tarefa de produzir uma edição comemorativa de cinquenta anos do jornal em que trabalham.
Um deles pesquisa sobre uma luta de boxe, e outro sobre um concerto filarmônico, fatos verídicos ocorridos em 1923 na Argentina. A menção a esses eventos reforça a ideia da literatura contemporânea do país como instrumento restaurador da memória.
Martin se diz ansioso para ver os efeitos do lançamento no Brasil: “Por ser um país e uma língua diferentes, os sentidos da leitura vão provavelmente tomar direções inesperadas. E isso é o mais interessante para mim.”
 
Veja alguns livros de escritores argentinos contemporâneos lançados recentemente no Brasil
 
 
 
Alan Pauls – História do Cabelo
Segundo volume de uma trilogia iniciada com História do pranto, o livro traz a narrativa de um homem obcecado por cabelos e seus cortes. E são justamente os fios de cabelo que envolvem o protagonista em uma trama que remonta aos anos de luta armada na Argentina.
 
 
 
Samanta Schweblin – Pássaros na Boca
Vencedor do prêmio Casa de las Américas de 2008, o livro, que acaba de ser publicado no Brasil, traz contos de caráter surrealista, o que fez Samanta ser reconhecida na Argentina como a sucessora do estilo de Jorge Luis Borges. Também foi eleita pela revista britânica Granta como uma das melhores escritoras contemporâneas de língua espanhola.
 
 
 
Olivério Coelho – Um Homem Chamado Lobo
Também considerado pela revista Granta como um dos melhores escritores de língua espanhola da nova geração, Olívério narra a história de Lobo, um agente sanitário que empreende, ao lado de um detetive viciado em jogos de azar, uma busca pela esposa que fugiu com o filho.
 

 
Pola Olaixarac – As Teorias Selvagens
A era cibernética, com seus blogs, seus jogos e suas pornografias está infiltrada no romance de estreia da escritora.
 
 
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