Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 06.10.2009 06.10.2009

Herbert de perto

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel e divulgação

> Assista à entrevista exclusiva de Roberto Berliner ao SaraivaConteúdo  

Em uma cobertura de um prédio, cercada de árvores, um jovemHerbert Vianna comenta: “Acho que eu sempre consegui todas as coisas que euquis e não vejo nada que eu queira e não me sinta capaz de conseguir. Acho quemesmo se a gente parasse e acontecesse uma tragédia, eu ia começar de novo, oumúsica, ou alguma outra coisa, e ia conseguir tudo de novo.”

E aconteceu. Herbert se viu envolto em uma tragédia, perdeua mulher e teve que recomeçar praticamente tudo de novo, depois de passar 44 diasinternado, parte dele em coma. O cantor e compositor ficou paraplégico apóscair junto com Lucy, sua esposa e mãe de seus dois filhos, mas seu cérebropreservou as funções essenciais,como linguagem,escrita, inteligência, atenção, criatividade, planejamento, cálculo, motivaçãoe iniciativa.

MasHerbert, mesmo que critique aquela postura juvenil, não pode ser acusado dearrogante. Em outro momento, é ele também quem fala: “A minha autoconfiança ézero. Eu não confio nada na minha capacidade de criador, não me vejo como umartista, de maneira nenhuma. Não me acho uma pessoa particularmenteinteligente. A minha virtude é a capacidade de trabalho”.

Estase muitas outras facetas do vocalista e guitarrista que, junto com João Barone(bateria) e Bi Ribeiro (baixo), criou Os Paralamas do Sucesso, uma das maisimportantes bandas do rock brasileiro dos anos 1980, são reveladas no novodocumentário de Roberto Berliner, Herbert de perto, que entra emcartaz no país no próximo dia 9 de outubro.

Berliner,diretor de outros dois documentários, Apessoa é para o que nasce, sobre as três irmãs ceguinhas, cantadoras decoco, e Pindorama – A verdadeira históriados sete anões, a respeito do circo criado por uma família de anões, debruçou-sedesta vez sobre a trajetória de um grande amigo seu. A relação com Herbert e OsParalamas data dos primórdios do Circo Voador, mítica casa de shows no Rio deJaneiro, que surgiu na praia do Arpoador, antes de se estabelecer embaixo dosArcos da Lapa, no início dos anos 1980. “A gente se encontrou láa primeira vez, eu filmava todas as bandas que tocavam lá. Conheci, mas a gentenem se aproximou tanto”, conta Berliner em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. Em 1986, o diretorhavia feito o clipe de “Délica”,da cantora Dulce Quental. O trio gostou e o chamou para fazer o videoclipe de “Alagados”. Logo emseguida, ele dirigiu o clipe de “A novidade”, e a partirdaí começou uma longa relação de amizade e trabalho, com o diretor registrandopraticamente tudo o que pôde relacionado à banda, uma das primeiras a misturarao rock n’ roll sonoridades caribenhas, como o reggae e o ska.

Estas centenas de horas de material bruto, de shows – comoa hoje clássica apresentação no Rock in Rio em 1985 –, ensaios e momentosíntimos compõem a base para Herbert de perto,que conta com entrevistas e depoimentos dos integrantes da banda, da família eamigos, como Dado Villa-Lobos, além do próprio Herbert, hoje, falando, seja dosmomentos de sua vida, como destas imagens de arquivo, montadas e levadas paraele assistir, como parte do processo do documentário. “O filme é essa relaçãodo Herbert de hoje com a história dele. Uma coisa pessoal, entre dois amigos. Abanda tem um papel fundamental nisso aí, e na música brasileira, mas talvezseja um outro filme”, conta Berliner, para quem, no trabalho de Herbert, o ladopessoal se sobressai. “É a música e a poesia, que são um pouco a vida dele. Eas músicas vão traduzindo isso, todas as fases pelas quais ele vai passando.Assim como a minha relação com ele, o filme é um pouco essa mistura também, de comoa música ajudou muito o Herbert. Ele recomeça tudo através da poesia, daspalavras, das rimas, e a música, que não ficou abalada em nenhum momento”,conta o diretor sobre o autor de músicas que compõem o imaginário dos jovens quecresceram ao longo dos anos 1980, como “”Óculos””, “”Meu erro””, “”Ska””,“Alagados”, “A novidade”, “Melo do marinheiro”, e “Lanterna dos afogados”. 

Por conta dessa relação de 25 anos, Berliner teve muitadificuldade para editar o material. “Estava falando de um amigo muito íntimo,de uma história muito próxima. E tem momentos muito fortes, para além doacidente. Isso foi muito difícil e acho que o Pedro Bronz [co-diretor emontador do filme] teve um papel fundamental aí. Eu de perto e ele distanciado.Essa equação foi fundamental, pois tinha momentos em que eu já estava perdido,e o Pedro vinha com uma coisa mais racional. Foi difícil, mas foi bacanatambém.”

Nesse filme, diferente dos outros dois, Berliner não foibuscando uma história. Ele já a tinha, faltava-lhe o modo como iria contá-la. Nosoutros filmes, a forma e o conteúdo se misturavam mais. “Meus filmes são muitoassim, essa relação clara e direta com os personagens, sem muita censura. Nos anteriores,tinha uma investigação, estava entrando num mundo que não era meu. Eu estavaali em busca de conhecer como esses mundos transitavam dentro do nosso mundo. Oprimeiro documentário, Apessoa é para o que nasce, é sobre como aquelas três mulheres cegas sejuntam, sem educação, sem higiene, sem dinheiro, sem atenção, sem nada, econseguem fazer uma unidade, viver, conviver, de alguma maneira, sobreviver.Isso que me interessava, como eram os papéis de cada uma.”

O segundo filme, Pindorama,co-dirigido com Léo Crivellare e Lula Queiroga, investiga o circo criado poruma família de anões. “Por acaso me deparei com esse circo, estava escrito ‘Pindorama,o circo dos sete anões’. Caramba, é um circo, também é um mundo a parte. Ali,eles é que mandam, têm pessoas trabalhando para eles. Então esse planeta vaitransitando pelo sertão, pelas cidades pequenas – quando eu os vi, eles estavamno lixão – e vai aquele mundo igualzinho, os trailers sempre colocados da mesmamaneira. Ali dentro, eles são os chefes. Agora, quando eles saem, é um mundocruel, terra de gigantes, subir uma escada é difícil, fazer xixi no banheiro”,recorda.

Nestes dois, a amizade que surgiu com os personagens foi umarelação profunda em pouco tempo. Com Herbert, a relação é mais abrangente emuito mais pessoal, muito mais íntima. Em comum, nos três filmes, personagensque o diretor admira muito, e vem daí a motivação para realizá-los.

Sobre a recente produção documental brasileira, Berlinercita o filme de Pedro Cezar sobre o poeta Manoel de Barros, Só depois por centoé mentira, que estréia nos cinemas em novembro. “É um filme lindíssimo.E aí? Como é que vamos convencer o público a ver o filme sobre o Manoel deBarros? Pode acontecer, sei lá, o boca a boca vai fazer, mas vai ser umaexceção. É um filmaço, quem for ver vai ver um puta personagem, um filme superbem feito, mas tem vários filmes desses, que ninguém vê”, acredita ele.

Sobre por que, enfim, a música vai se tornando foco de maisdocumentários, ele arrisca uma resposta. “A imagem está muito ligada à música,então talvez isso seja um caminho mais fácil, mais óbvio, de filmar a música,que está o tempo todo dentro das nossas imagens. E, depois, porque se aproximado público. São filmes que talvez sejam mais fáceis de vender, ou mais fáceisde fazer, não sei”, afirma.

Apesar de filmes muito interessantes, com raríssimasexceções eles têm público. “O [Eduardo] Coutinho tem um público fiel e, mesmoassim, depois de anos e anos e anos. Ele virou uma marca de um cinemainteressante, instigante, novo, sempre novo. Mas documentário é lasca.”

Segundo ele, música é quase como futebol, as dois coisas queo Brasil produz de melhor. “E tem a ver com essa coisa intuitiva. Fazer músicaé que nem jogar futebol, o cara fica ali, chega um e outro, vai fazendo. Efutebol, em geral, é mal sucedido quando se pensa em filmes. No mundo, não temnenhuma ficção que eu tenha visto que trata de futebol e seja bom.Documentário, certamente tem. Pelé eterno tinha tudo para ser um grande filme. Tem uma grande chance, que é fazer o Canal100, estou lá conversando com o Alexandre Niemeyer. O Canal 100 tem imagens absurdas.A idéia é produzir filmes a partir do acervo do programa”, finaliza, comentandosobre o que pode vir a ser seu próximo projeto.

> Assista àentrevista exclusiva de Roberto Berliner ao SaraivaConteúdo 

> Veja o trailer de Herbertde perto, além dos clipes de“Alagados”e “A novidade”, ambos também dirigidos por Roberto Berliner 

> Confira o site oficial d’ OsParalamas do Sucesso

>Os Paralamas do Sucesso na Saraiva.com.br 

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