Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Livros 26.06.2020 26.06.2020

Harry Potter e A Pedra Filosofal mudou a cultura Pop para sempre em 26 de junho de 1997

Em 26 de junho de 1997 foi lançado em Londres Harry Potter e a Pedra Filosofal, primeiro livro da então desconhecida escritora inglesa J.K. Rowling. Passadas mais de duas décadas que o mundo foi apresentado ao pequeno bruxo, Rony, Hermione e todos os habitantes do mundo mágico da Escola de Hogwarts, além é claro de seu arqui-inimigo Lord Voldemort, a literatura e toda a cultura pop nunca mais foram as mesmas.

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Desde que foi lançado, o primeiro livro de Harry Potter foi traduzido em mais de 70 línguas e vendeu mais de 107 milhões de exemplares, se tornando um dos 10 livros mais vendidos de todos os tempos. Harry Potter e a Pedra Filosofal rendeu a J.K. Rowling prêmios como o National Book Award e foi o primeiro de sete livros que contaram a história do bruxo, que inspiraram oito filmes campeões de bilheteria.

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A primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Hoje pode parecer inacreditável, mas a magia de Harry Potter não foi percebida logo de cara. J.K. Rowling digitou duas copias dos três primeiros capítulos, que foram enviados por sua agência literária, a Christopher Little, a doze editoras, que rejeitaram. Quem aceitou foi Barry Cuninghan, que trabalhava para a então pequena editora Inglesa Bloomsbury Publishing, que pagou a Rowling um adiantamento de 1.500 libras esterlinas.

Joanne Rowling, J.K. é um pseudônimo, afirmou que a carta da Bloomburry informando que publicaria Harry Potter é a melhor que já recebeu na vida. O que motivou Cuninghan a apostar na estreante J.K. foi que sua filha de oito anos leu os três primeiros capítulos, gostou, e queria saber como a história terminava.

A Bloomburry imprimiu apenas 500 exemplares da primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Cada um desses exemplares hoje são itens de colecionador raros, disputados e muito valiosos. Além de serem os primeiros, neles os editores deixaram passar pequenos erros de revisão, e são os únicos em que a autora foi creditada com o seu verdadeiro nome, Joanne Rowling.

Um exemplar da primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal já chegou a ser vendida em um leilão por 56,2 mil libras esterlinas, o equivalente a R$286,7 mil na cotação da época, quase quarenta vezes o que JK recebeu de adiantamento pelo original do livro. A vendedora havia comprado o livro em uma estação ferroviária inglesa e o vencedor do leilão foi um colecionador dos Estados Unidos, que não quis se identificar.

Quem é Harry Potter

Harry Potter e a Pedra Filosofal conta a história de um menino órfão de 11 anos, que vive na Inglaterra com seu primo Duda e os tios Valter e Petúnia, que é Irmã da mãe de Harry. Apesar do parentesco, os tios nunca demonstraram nenhum afeto por ele,  que além de dormir em um armário embaixo da escada, tinha de ouvi-los se referir a seus falecidos pais, Tiago e Lilly Potter, como ‘aberrações’, sem entender a razão de tanto ressentimento.

A vida de Harry muda quando começa a receber cartas trazidas por corujas, que seu tio insistentemente queima, até o dia em que a família, escondida em uma casa no litoral para fugir das cartas, recebe a visita do gigantesco Hagrid, que conta que ele na verdade é um bruxo, e avisa que ele foi aceito na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Em Hogwarts, Harry conhecerá sua verdadeira origem e porque tem alguns poderes estranhos, como falar com as cobras. Descobrirá também que é  famoso, o menino que sobreviveu, encontrará em Rony e Hermione amigos para toda a vida,  um rival em Draco Malfoy, um mentor no diretor da escola, Alvo Dumbledore e até uma figura ambígua, que ele levará muito tempo para entender a verdadeira natureza em Severo Snape.

Porque nós amamos Harry Potter

Existem personagens de que gostamos e histórias que amamos, mas que com o passar do tempo, e com o amadurecimento, perdem o significado que um dia tiveram. Mas também existem histórias e personagens que perduram através do tempo, que mesmo depois que suas sagas terminam nas páginas dos livros e nas telas, permanecem no imaginário dos fãs antigos, e ganham novos, que não se cansam de rever, ou reler, suas aventuras.

Esse é o caso dos principais arcos de histórias dos heróis da DC e Marvel, de Star Wars e de Harry Potter. Mas o que torna a saga do bruxo inglês tão especial, por que ela nos toca de uma maneira tão forte?

Harry Potter é uma jornada de crescimento e descoberta pessoal.

Harry Potter e a Pedra Filosofal segue toda a estrutura de 12 fases da Jornada do Herói descrita por Joseph Campbel em “ O herói de mil faces”,  que está presente em narrativas seminais da humanidade como a Ilíada e a OdisseiaA Vida Cotidiana, O Chamado, A Recusa, O Mestre, A Travessia Do Primeiro Limiar, Testes Aliados E Inimigos, Aproximação Da Caverna Oculta, A Provação Suprema, A Recompensa, O Caminho De Volta, Ressurreição, O Retorno Com O Elixir.

A Jornada do Herói identificou uma sequência que está presente em todos os mitos da humanidade e em muitas sagas da cultura pop. Harry Potter era um menino comum que vivia na Inglaterra até o dia em que Rubeo Hagrid aparece e lhe conta sobre sua verdadeira origem, levando-o até Dumbledore, que se torna seu mentor e mestre para compreender e enfrentar um mundo que ele acabou de descobrir que existe.

Fazendo um paralelo com outra história amada pelos fãs, Luke Skywalker vivia uma vida monótona no planeta Tatooine até o dia em que R2D2 e C3PO aparecem no planeta e o fazem procurar Obi Wan Kenobi, que será seu mestre e o ensinará a lidar com os poderes que ele ainda não sabe que tem, para enfrentar os perigos do novo universo que ele acabou de descobrir.

Essas não são coincidências narrativas. E crianças, jovens e adultos não se identificam com Harry Potter apenas porque a história é interessante, ou porque todos têm seus dias em que gostariam que acontecesse algo mágico, que mudasse suas vidas.  Na verdade, sua estrutura remete aos arquétipos que segundo Joseph Campbell, fazem parte do nosso inconsciente coletivo.

Harry Potter une mitologia com temas políticos sempre relevantes.

Não é somente na estrutura narrativa e na habilidade de escrever de JK Rowling que Harry Potter e a Pedra Filosofal remete aos clássicos. A autora bebe na fonte de diversas mitologias, como a grega, a celta, a nórdica e a cristã medieval, que tinha muitos dos personagens das mitologias anteriores ressignificados.

É dessa imensa riqueza cultural que vieram os personagens que JK Rowling insere com muita habilidade no primeiro livro e em todas as sequências como unicórnios, centauros, ogros e trolls. Nicolas Flamel, por exemplo,  foi um alquimista que teria vivido na França entre os séculos XIV e XV, e teria descoberto a Pedra Filosofal, um objeto que segundo as lendas, seria capaz de criar o elixir da vida eterna e transformar qualquer metal em ouro.

Mas no meio de tanta fantasia, JK Rowling aborda de forma metafórica, e com habilidade,  temas como tolerância, preconceito, exclusão, bullying, racismo, xenofobia, liberdade, totalitarismo e os limites do poder do Estado sobre a vida dos cidadãos. Assuntos relevantes para a Inglaterra na época em que ela escreveu  e que continuam relevantes muito tempo depois, em muitos países do mundo.

Lord Voldemort e os Comensais da Morte, por exemplo, que odeiam os bruxos sangue-ruim, aqueles nascidos de famílias de trouxas, os não bruxos, podem ser vistos como uma alegoria sobre nazistas ou qualquer grupo que odeia outras pessoas por serem como são, diferentes. E que estão dispostos a usar de violência para impor sua visão de mundo.

Mas isso não quer dizer que JK Rowling faça algum tipo de proselitismo político ou ideológico. Em suas metáforas, ela é mais uma inteligente analista. Em um dos livros seguintes, Harry Potter e a Ordem da Fênix, a pretexto de proteger a sociedade e o modo de vida dos bruxos, Dolores Umbridge institui em Hogwarts uma ditadura que não seria muito mais tolerável do que seria um governo de Voldemort e seus seguidores.

O Impacto cultural de Harry Potter e a Pedra Filosofal

O mundo de Harry Potter passou a fazer parte da cultura popular no mundo inteiro. Não só através de uma série de itens que os fãs adoram colecionar, de miniaturas dos personagens a camisetas e cachecóis com as cores e símbolos das casas de Hogwarts, como das expressões e referências que todos entendem, como expeliarmus, chapéu seletor e muitas outras, que identificam quem leu Harry Potter.

Harry Potter também revitalizou o gênero da literatura de fantasia, criando uma geração de fãs do gênero, que depois do mundo criado por JK Rowling, descobriram autores clássicos como J.R.R .Tolkien ( O Senhor dos Anéis) , C.S. Lewis (AS Crônicas de Nárnia) , e contemporâneos como  Rick Riordan de Percy Jackson e Magnus Chase e, claro, George R.R. Martin, de Game of Thrones, que embora tenha uma abordagem mais adulta, está no mesmo gênero fantasia.

Mas o primeiro, e mais importante impacto de Harry Potter é que ele tem criado gerações de leitores, que através dele descobriram os livros. Mesmo quem não gosta do personagem, ou do gênero fantasia, não pode negar que livros como Harry Potter e a Pedra Filosofal  apresentam a leitura às crianças como um prazer, não uma obrigação. E ler se torna um hábito saudável, que eles levam para a vida toda, se expandindo para outros gêneros literários, além da fantasia.

Harry Potter e a Pedra Filosofal, o filme

Muitos fãs de séries de quadrinhos e livros já se queixaram, muitas vezes com razão, de que as obras e personagens que eles tanto amam foram tão modificadas para se adaptar às versões live action das telas que acabaram desvirtuadas. Mas esse não foi o caso dos filmes de Harry Potter, que mantiveram o espírito da obra de JK Rowling, que como condição para negociar os direitos cinematográficos, exigiu que todos os atores fossem britânicos.

A exigência de JK Rowling não fez apenas com que o mundo descobrisse Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson ( Hermione Granger) e Rupert Grint ( Ronald Weasley). O elenco adulto é um verdadeiro quem é quem do cinema britânico, com atores como Alan Rickman (Severo Snape), Maggie Smith (Minerva McDowall)  e John Cleese (Nick Quase sem cabeça). A única exceção foi  irlandês Richard Harris, que interpretou o Professor Dumbledore.

Deu tão certo que Daniel Radliffe, Emma Watson e Rupert Grint se tornaram os rostos de Harry, Hermione e Rony, mas ao contrário de outros atores que ficaram marcados por um personagem, não parecem ter problemas com isso. Rupert Grint não seguiu carreira como ator, mas Daniel tem bons filmes no currículo e Emma é uma das jovens atrizes mais promissoras de sua geração.

Mesmo os atores veteranos e com carreiras anteriores premiadas,  como Maggie Smith, Alan Rickman (que faleceu em 2016) e Richard Harris (que faleceu em 2002 e foi substituído por Michael Ganbon no papel de Dumbledore), estão eternizados no coração dos fãs pelos seus papéis em Harry Potter.

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