Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.11.-0001 30.11.-0001

Hanif Kureishi e Gary Shteyngart falam de humor, sexo, fronteiras e divertem a plateia

 
ESPECIAL
 
Por Maria Fernanda Moraes
 
Humor ácido e nomes na lista da revista Granta entre os Melhores Jovens Escritores. Se não bastassem essas semelhanças, Hanif Kureishi e Gary Shteyngart são filhos de imigrantes que trouxeram essa peculiaridade para sua literatura. Mediada por Ángel Gurría-Quintana a mesa "Entre fronteiras" reuniu os dois autores no último dia da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que divertiram a plateia falando sobre temas recorrentes nas suas obras como humor e sexo.
 
Gary contou que foi o famoso romance de Hanif O Buda do Subúrbio (1990) que lhe trouxe a sensação de liberdade, já que ao chegar nos Estados Unidos ainda criança com os pais, ser russo era considerado uma monstruosidade. O americano de origem russa também contou que foi com o romance de Hanif que descobriu o sexo. "Comecei a escrever sobre sexo porque não estava fazendo sexo. Quando passei a fazer (aos 37 anos), vi que era bem melhor do que nos meus dois primeiros romances", confessou o escritor arrancando risos do público.
 
Filho de mãe inglesa e pai paquistanês, Hanif revelou que cresceu no subúrbio da Inglatera quando o país ainda não tinha se tornado multicultural. "Comecei a escrever para não enlouquecer. Sofri muito preconceito por ser imigrante. Me perguntavam de onde eu vinha e eu respondia 'daquela casa ali da esquina', mas não era suficiente. Eram perguntas filosóficas demais, então passei a procurar as respostas na escrita", disse Hanif. Com humor mais afiado, o inglês disse que é um autor cômico, sente a necessidade de escrever sobre as coisas horríveis do mundo da maneira mais engraçada. "Os maiores autores da história são cômicos: Joyce, Dostoiéviski, Beckett, não conheço nada mais engraçado". 
 
A religião também é muito presente na literatura dos dois. Gary brinca com uma série de identidades na sua obra: russo, americano, judeu. "A literatura russa tem um peso maior para mim. Quando termino um livro, meu pai pergunta se vai ser um livro bom para os judeus. E eu sempre digo que ele não vai ser bom para ninguém".
 
O interesse de Hanif pela religião surgiu quando ele esteve no Paquistão, em 1980. "As pessoas me perguntavam porque eu estava escrevendo sobre fundamentalismo (referindo-se ao livro Meu filho, o fanático). Mas o livro é o retrato do que está acontecendo hoje. O fundamentalismo islâmico é ainda pior do que acontece no resto do mundo em relação a direitos humanos, é fascista".
 
Hanif esteve presente na primeira edição da Flip, há dez anos. De lá pra cá publicou um livro de memórias sobre o pai. "Quando comecei a escrever pensei que tinha azar por ser filho de imigrante, mas depois vi que tinha sorte, pois não tinha nada publicado sobre isso na época. Eu tinha muito material com a presença da minha família e achei q tinha que fazer isso, um livro de memória. A Liz Calder (criadora da Flip) me incentivou bastante a publicá-lo. Meu pai escrevia sobre filosofia e queria ser escritor. Ficou um pouco chateado porque seu filho escrevia sobre coisas mais corriqueiras e conseguiu sucesso. Mas superamos isso", contou.
 
Ainda no círculo familiar, a primeira editora de Gary foi sua avó, em Leningrado, onde morava antes de ir para os Estados Unidos. "Morávamos numa praça que tinha uma estátua do Lênin que parecia estar dançando e todo mundo chamava-a de Lênin Latino. Minha avó me incentivou a escrever sobre a estátua e me pagava em pedaços de queijo", relembrou. "Uma vez, na Ásia, uma moça da plateia me perguntou quanto eu ganhava. Foi a pergunta mais sincera que já me fizeram". Minutos depois, chega a mesma pergunta da plateia brasileira, à qual o americano não titubeou: "Depende do valor do queijo parmesão. Se está em alta, ganho 20 dólares, se está em baixa, 5 reais". 
                                                                                                        Flip 2012/Walter Craveiro
 
Hanif Kureishi 
 
Os autores também comentaram sobre os diferentes prazeres em escrever conto e romance. Foram unânines em afirmar que são os romances e roteiros que pagam as contas. "Mas eu amo escrever contos, é uma negociação constante", disse Hanif. "Nos Estados Unidos há mais escritores do que leitores. Aqui na plateia, por exemplo, todo mundo está escrevendo um romance, aposto", brincou Gary.
 
Gary Shteyngart. Crédito foto: LucasBusto
Provocando os autores, o mediador perguntou a eles o que achavam da frase "O escritor tem que ser lido não ouvido e muito menos visto". A discordância foi uníssona e Gary emendou "É importante também para nós escritores sairmos de casa e conhecermos pessoas".
 
O americano também é usuário das redes sociais. Contou que no início foi preciso contratar uma pessoa para ajudá-lo, mas depois pegou gosto pela coisa."Faz cinco anos que não leio mais romances por causa das redes sociais", disse em tom sarcástico.
 
 
A propósito do tema da mesa que estavam ali discutindo- Entre fronteiras – Hanif sumarizou muito bem essa questão."O que precisamos é falar com honestidade para as pessoas, diminuindo as lacunas. Não há nada mais importante do que isso". Ele também comentou o que mudou na FLIP depois desses dez anos. "A cidade é a mesma, bonita como sempre. Mas há mais pessoas comprando livros, interessados nos escritores, na literatura, folhando livros. Só temos que aplaudir". 
 
 
ESPECIAL
 
 
Acompanhem a cobertura completa da Flip 2012: cobertura das mesas, programação paralela, fotos, entrevistas e muito mais.
Clique aqui e veja o que já foi publicado
 
 
 
Recomendamos para você