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Habibi- O épico do Oriente Médio de Craig Thompson

Por Rafael Roncato
 
O esmero ao criar uma história, personagens e ainda por cima ilustrar mais de 600 páginas não é para qualquer um. O norte-americano Craig Thompson, após chamar a atenção com sua bem recebida e premiada HQ Retalhos, voltou a atacar as livrarias e a emoção dos leitores com uma longa e belíssima obra chamada Habibi.
Pode-se dizer “obra”, pois Thompson dedicou cerca de oito anos à conclusão desse projeto que mistura uma narrativa de fantasia com um certo realismo do Oriente Médio, onde a HQ é ambientada. No exterior, o quadrinista lançou uma espécie de diário ilustrado de viagem chamado Carnet de Voyage. Ali, ele conta e ilustra sua experiência na turnê de Retalhos pela França, Barcelona, os Alpes e também o Marrocos, local que resolveu usar como pesquisa para a nova HQ.
Habibi foi atacado, ou simplesmente questionado, a respeito de uma suposta ocidentalização do Oriente e sua cultura na eterna discussão sobre orientalismo e exotismo, além dos narizes torcidos devido a uma provável "erotização" na história. Nenhuma dessas ideias contrárias e mal-interpretadas impediu que a obra fosse acrescentada de última hora no livro 1001 Quadrinhos para Ler Antes de Morrer. Tudo indica que o Orientalismo foi entendido como um gênero em si.
Mas uma tradução também pode mudar o destino e toda a dedicação de um desenhista. No Brasil, Habibi foi publicada pelo selo Quadrinhos na Cia., da Cia. das Letras, e chegou aos leitores graças à interpretação de Érico Assis. Jornalista, crítico, tradutor e professor, assumiu o catatau de Thompson por conta da familiaridade com o trabalho do quadrinista; Érico foi responsável pelas palavras em português de Retalhos, em 2009, seu primeiro trabalho com os quadrinhos.
Desde esse trabalho, Érico seguiu traduzindo títulos importantes e interessantes dos quadrinhos, como os três volumes de Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Bryan Lee O’Malley, Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw, e Wilson, de Daniel Clowes. Mas ele não é um especialista em HQs, mesmo que essa seja uma de suas grandes paixões como curioso, jornalista e amante do meio.
Mas como é o processo de tradução de uma HQ? O SaraivaConteúdo foi buscar conhecer o método para traduzir uma obra como Habibi, além da especialidade quadrinística de Érico Assis.
Leia a entrevista completa com o tradutor de Habibi e Retalhos:
Quando você recebeu Habibi  pela primeira vez, o que pensou quando viu aquele catatau todo?
Érico Assis. Bom, eu já esperava o catatau, então não foi surpresa. Surpresa mesmo foi a tradução ser mais tranquila que do Retalhos. Tanto porque Retalhos foi minha primeira tradução quanto por Habibi ter menos texto.
 
Qual foi o processo de tradução de Habibi?
Érico Assis. Habibi já estava confirmado pela Companhia das Letras antes de sair, e era provável que eu seria o tradutor por já ter feito Retalhos. Mas antes de ser incumbido oficialmente da tradução, li o livro por pura curiosidade de fã.
 
Comentei no blog da Companhia os livros que li para me preparar para a tradução (o Thompson recomendou um deles). De resto, meu processo foi o de sempre: faço uma primeira versão da tradução, o texto completo, a etapa que mais consome tempo; reviso com uma pesquisa de termos mais aprofundada; e reviso de novo numa versão impressa, lendo em voz alta. No caso do Habibi, como havia tempo, também pude fazer a última revisão do livro já diagramado.
 
Por já ter tido contato com a obra do Craig Thompson ao traduzir Retalhos, você acredita que teve uma maior facilidade para Habibi?
Érico Assis. Não sei se ajudou, pois considero obras bastante diferentes. Tem um fator complicador em Retalhos por ela ter sido, como já disse, minha primeira tradução. Acho que passei tanto tempo pesquisando a tradução correta da Bíblia Nova Versão Internacional – que não é a Bíblia comum no Brasil, mas é a que o Craig lia – quanto pesquisei sobre o Corão.
 
Por Habibi ser uma obra extensa, que Thompson levou muito anos para completar, e também por tratar de uma cultura um pouco distante da nossa, o que você teve que estudar e descobrir para o quadrinho?
Érico Assis. Entender mais sobre o Corão, Maomé e os hadiths (li O Corão, de Bruce Lawrence). Pesquisar mais sobre os pontos de encontro entre a Bíblia e o Corão – muito embora o Habibi seja bem explicativo nesse quesito.
 
Habibi é uma HQ extremamente visual e gráfica. Por conta disso, o seu trabalho foi mais tranquilo ou mais difícil?
Érico Assis. Há uma minúcia no trabalho do Thompson – e dos bons quadrinistas, enfim – que tem a ver com uma espécie de "rima" entre imagem e texto. E falo do texto aqui no sentido da pronúncia, de como o som daquela palavra torna ela a mais adequada à situação retratada. A palavra tem que combinar com a cena. É óbvio que isso é o mais difícil de se traduzir, pois não tem a ver só com dicionário de tradução ou de sinônimos, e sim algumas horas de thesaurus (dicionário analógico) até achar uma palavra que "rime" tão bem quanto a original. Meu editor elogiou e diz que "peguei a poesia da coisa", então acho que consegui um pouco dessa intenção original do Thompson.
 
As críticas se dividiram entre o sucesso da obra e também a falta de fidelidade com que Thompson retratou o Oriente. Particularmente, vejo como uma obra de ficção que utiliza elementos culturais como base de uma história que não visa mostrar quem é esse povo… Qual a sua visão sobre Habibi?
Érico Assis. Entendo as preocupações que alguns resenhistas tiveram quanto às implicações políticas-culturais da salada de referências que o Thompson fez. Não costumo levar essas coisas tão a sério, pois enxergo toda narrativa como ficção (sabe aquele filme do Todd Solondz, Storytelling, e a frase "Tudo que você colocar no papel vai virar ficção"? É meu lema). Thompson criou uma fábula que, por mais que tenha pontos de relação com nosso mundo real, não é o nosso mundo. Para mim, a discussão acaba aí.
 
Como funciona seu processo de trabalho além do Habibi? Você tem um método ou uma lógica específica?
Érico Assis. O método é quase sempre o mesmo que descrevi há pouco: tradução geral, uma revisão com pesquisa, uma revisão final. Fora isso, raramente estou envolvido em uma única tradução. Tenho dois ou três projetos concomitantes, entre os quais alterno para tentar evitar o cansaço ou a cegueira em torno de um só tema (financeiramente também é melhor, hehe).
 
Para a tradução, você tem contato com o autor da obra? Ou é simplesmente um trabalho solitário?
Érico Assis. O contato com o autor é mais raro do que se imagina. Lembro de perguntar alguns detalhes ao Thompson na tradução de Retalhos, mas dúvidas extremamente pontuais. Em Habibi, só tivemos aquele rápido contato prévio para ele me recomendar leituras.
 
Mas em hipótese alguma é um trabalho solitário. Discuto algumas opções com o editor durante o processo (mas, novamente, coisas pontuais) e, depois de passar por revisores e preparador, às vezes ainda tenho oportunidade de rediscutir algum aspecto com o editor. É difícil quantificar, mas tem sempre um percentual de diferença entre a tradução que eu entrego e o que é publicado com correções e melhorias desses outros envolvidos.
 
Quando você se interessou em começar a traduzir? E quando veio a vontade de se dedicar um pouco mais aos quadrinhos? Você traduzia trechos de livros e ia bater na porta das editoras, é isso mesmo?
Érico Assis. Não sei dizer ao certo quando começou o interesse por traduzir, mas sempre gostei muito de pesquisar o significado das coisas. Acho que vem daí. Uma vez, eu conclui que todos os empregos que tive – redator publicitário, jornalista, professor, tradutor – tinham a ver com explicar. Então, talvez seja pesquisar e explicar.
 
Da mesma forma, quadrinhos sempre fizeram parte da minha vida, então a ligação “traduzir-quadrinhos” foi óbvia. Passei vários anos tentando o teste em alguma editora, cheguei a enviar testes não solicitados para algumas, e nunca rolou. Uma vez, traduzi o trecho de um livro teórico para usar em aula e deixei o trecho na web – o que rendeu um trabalho de revisor técnico, embora eu quisesse o de tradutor.
 
Enfim, quando o André Conti estava montando a Quadrinhos na Cia. na Companhia das Letras, ele entrou em contato comigo para trocarmos ideias – por conta do meu trabalho no Omelete – e falei que tinha muito interesse em traduzir. Rolou um teste e, enfim, o Retalhos. Depois dali, felizmente, nunca parei de traduzir.
 
Você já traduziu vários materiais interessantes. De todos, com quais ou qual você realmente gostou de trabalhar? Você tem que gostar da obra para poder traduzir?
Érico Assis. Começando pelo final: não, se eu tivesse que gostar da obra para traduzi-la, eu não poderia ser profissional de tradução.
 
Dito isso, tenho bastante sorte com os trabalhos que me passam. Acho que até agora, meu preferido foi Contos de Lugares Distantes, o livro de contos do Shaun Tan. Fora o livro ser mágico, foi um processo de trabalho muito legal, com duas editoras da Cosac Naify que acho que me fizeram crescer muito enquanto tradutor. Eu tinha um investimento emocional no livro, mesmo que não houvesse lido antes de a editora me mandar.
 
Foi sensacional traduzir Scott Pilgrim pelos mesmos motivos. Wilson, do Daniel Clowes, porque eu tinha um prazo extenso e pude testar uma técnica diferente para traduzir (encenando os diálogos com um amigo – falei disso aqui ). E tem uma série chamada Casa dos Mistérios, que traduzo mensalmente na revista Vertigo, que deve ser a que mais me exige e/ou rende pesquisas sobre os assuntos mais esdrúxulos, porque o roteirista é um mar de referências, o que me diverte pra caramba. É uma série pouco comentada, tanto aqui quanto no original (e, quando é comentada, é para o lado negativo), mas eu acho brilhante na minha "leitura privilegiada" de tradutor (Y: O Último Homem também tem dessas).
 
Páginas da HQ Habibi
 
Você tem algum quadrinho que sonha um dia traduzir?
Érico Assis. Por enquanto, estou sonhando em ter uma larga experiência de tradução para ter a amplitude de poder traduzir qualquer coisa. Ainda faltam uns anos. Tenho sonhos de momento: neste momento, é traduzir Marvel Comics: The Untold Story, a biografia da editora. E só quero traduzir para poder reler com atenção o texto maravilhoso do Sean Howe.
 
Quais quadrinhos entre 2011 e 2012 você marca como leitura obrigatória para iniciantes e iniciados?
Érico Assis. Sou muito ruim em fazer listas. Eu diria para lerem:
A Chegada, do Shaun Tan
O Beijo Adolescente, do Rafael Coutinho
Três Sombras, do Cyril Pedrosa
Castelo de Areia, do Pierre Mac Orlan com o Frederik Peeters
Acme Novelty Library #20, do Chris Ware
Você acredita que fazer parte do Omelete, mostrar sua visão crítica e focar nos quadrinhos te ajudou a entrar para a tradução das HQs?
Érico Assis. Sim, ajudou. Eu mostrar que tenho essa vivência com os quadrinhos certamente conta. E acho que ainda tenho muito a explorar…
 
O Blog da Cia. Das Letras tornou-se um meio de você falar de quadrinhos e seu trabalho além do Omelete? Você tem que falar de quadrinhos no meio de pessoas que gostam de literatura… Não é difícil fazer isso com pessoas que não levam quadrinhos a sério?
Érico Assis. Não vejo tanto esse posicionamento de não levar os quadrinhos a sério. Quadrinhos são (estão) cool. Tanto que estão no blog da Cia. 😉 Vejo o espaço da coluna como lugar privilegiado para falar com esse pessoal da literatura, e tento ser muito cuidadoso. Mas, se tem público do blog que não consegue levar quadrinhos a sério, tem várias outras colunas para ler. Esse pessoal não lê a minha, não comenta, não manda recado, não twitta. Então, não fico sabendo.
 
Como você avalia este novo momento dos quadrinhos brasileiros? Será que conseguimos retornar para uma grande fase por volta dos anos 80/90 ou simplesmente estamos caminhando para uma outra situação? Ao que devemos esse boom quadrinístico?
Érico Assis. Acho que é uma confluência de fatores que incluem até o momento econômico do Brasil. Mas tem a entrada da internet e o fato de o quadrinho ser uma linguagem que pega bem nesse ritmo de mídias sociais.
 
Teve os EUA sinalizando que colocar gibi na livraria é cool. Teve o movimento de levar quadrinistas daqui a trabalhar para os EUA, que começou timidamente há uns 20 anos e hoje é um negócio profissional. Isso tudo contribui para um volume de produção que, bem grosso modo, gera um excedente de qualidade.
 
Se a gente ficar na regra de Pareto, dos 80/20, os 20% bons que se tinha antigamente eram em menor volume que os 20% que se tem hoje. Quanto mais quadrinhos, do jeito que forem, mais quadrinhos BONS vamos ter. É só dar condições para esse volume crescer.
 
 
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