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Há 20 anos, ‘Maus’ recebia o Pulitzer especial e abria um novo capítulo para as graphic novels

Por Andréia Silva
O autor Art Spiegelman com máscara do personagem de Maus
Em 1992, o prêmio Pulitzer, dedicado a obras jornalísticas, foi dado pela primeira vez a uma história em quadrinhos, abrindo de vez uma discussão que dura até hoje: o valor da graphic novel como estilo jornalístico.
 
A obra em questão era Maus, de Art Spiegelman, que trazia como tema a história de seus pais como sobreviventes dos campos de concentração em Auschwitz.
Embora historicamente o pioneirismo das graphic novels seja atribuído a Will Eisner (1917-2005) – que teria lançado o termo ao publicar Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço (Brasiliense) – e outras obras tenham ajudado a destacar esse estilo de contar histórias nas HQs, como é o caso de Watchmen, de Alan Moore, e Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, a importância de Maus é indiscutível.
Por meio dessa HQ, cujo primeiro volume saiu em 1986 e o segundo em 1991, Spiegelman desfez definitivamente a associação entre histórias em quadrinhos e humor ou temas infantis.
A premiação levou ao grande público uma nova cara das HQs e abriu um debate para inserir os quadrinhos na literatura e nas artes em geral, mostrando que as HQs poderiam ser mais densas, abordando o drama das guerras e da perda.
Maus também abriu caminho para uma corrente dentro da HQ: a da autobiografia – conhecida como Quadrinhos Verdade –, comum hoje em dia com algumas obras de destaque mundial, como foi o caso da autora de Persépolis, Marjane Satrapi, Essa Bunch É um Amor, de Aline Kominsky-Crumb, O Paraíso de Zahra (recém-lançado no Brasil), sobre a busca de uma mãe pelo filho após a revolução de 2009, no Irã, só para citar algumas.
Um livro definitivo para uma obra definitiva
 
É possível que uma obra definitiva ganhe uma obra definitiva? Esse é o caso de Meta Maus, lançado em 2011 por Spiegelman.
 
O livro é um mergulho no universo de Maus, onde Spiegelman revela detalhes e curiosidades de sua obra, bem como suas motivações para contar essa história.
 
Além disso, o livro vem acompanhado de um DVD com análises, referências bibliográficas, gravações de áudio do pai de Art, rascunhos, entrevistas e vídeos feitos pelo autor.
 
Outros lados de Spiegelman
 
Arthur Spiegelman nasceu em Estocolmo, na Suécia, e imigrou para os EUA ainda criança.
 
Seus pais queriam que ele fosse dentista, mas ele logo começou a desenhar e a entrar no universo dos quadrinhos independentes.
 
Embora mais conhecido por Maus, muito antes da publicação Spiegelman já tinha um papel fundamental na cena: além de colaborar com inúmeras publicações, editava a revista de comics Raw, onde abriu espaço para quadrinistas americanos como Mark Beyer, Chris Ware, Dan Clowes, Charles Burns, J. Otto Seibold, Kaz e Jerry Moriarty.
 
O peso da história de Maus (certa vez, Spiegelman disse que tinha ficado famoso à custa da morte) fez com que o autor se dedicasse, durante 10 anos, a outros trabalhos, como cartoons para o New York Times e quadrinhos para crianças.
 
Curiosamente, ele voltaria com mais um livro baseado em um acontecimento ‘repleto de mortes’.
Depois de Maus, Spiegelman lançou poucos, mas bons livros como autor, desde alguns dedicados a crônicas (Jack Cole and Plastic Man: Forms Stretched to Their Limits, de 2001) até obras para o público infantil (Open Me, I'm A Dog), entre outros.
 
Dois em especial destacam o estilo e o conteúdo emocional: In the Shadow of No Towers e Breakdowns – Retrato de Artista Quando Jovem (2008).
O primeiro, de 2001, reúne uma coleção de tiras publicadas com o tema dos ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York.
 
 
Spielgeman declarou que esses comics o ajudaram a lidar com o estresse e o trauma provocados pelos ataques.
Já em Breakdowns, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o leitor tem acesso a uma série de histórias de mistério, autobiográficas e de humor, escritas por Spielgeman antes de Maus e editadas pela primeira vez em 1978.
“Ainda rimos dos desafortunados, dos deformados e dos loucos. Mas, para evitar um sentimento de culpa capaz de impedir os prazeres do riso, deve haver um equilíbrio habilidoso entre agressão e afeto”, escreve ele em uma de suas histórias.
 
Uma das relíquias desse livro é uma história de três páginas, de 1972, com o pai contando uma parte de sua história ao filho, um prelúdio do que seria Maus.
Com esses trabalhos, Spiegelman afastou qualquer relação entre quadrinhos e humor, assumindo uma postura de crítico, talvez por ter a mesma visão de outro quadrinista e crítico, o brasileiro Henfil, que dizia que não existe humor pelo humor.
 
 
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