Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.12.2009 18.12.2009

Guilherme Zarvos, branco sobre branco

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel

 > Assista à entrevista exclusiva de Guilherme Zarvos ao SaraivaConteúdo
 

Guilherme Zarvos é escritor. No entanto, é mais conhecido como poeta, principalmente por sua atuação como coordenador, ao lado de Chacal e outros comparsas, do Centro de Experimentação Poética 20.000, um pólo cultural do Rio de Janeiro que, desde o início dos anos 1990, tem servido como incubadora de poetas, músicos, atores e artistas plásticos contemporâneos.

Se na poesia a atuação de Zarvoleta – como é carinhosamente chamado pelos amigos – é evidente, na prosa o escritor se sente a vontade para pensar a realidade e colocá-la em discussão. Seguindo os próprios passos, Zarvos levou sua experiência prática para academia, transformando a atuação no CEP 20.000 e no Cepensamento numa tese de doutorado, sob a orientação da professora Marília Rothier Cardoso.

O texto híbrido e polifônico resultou no livro Branco sobre branco (Ateliê Editorial), um trabalho que reúne memórias pessoais e reflexão crítica. Os capítulos são recheados de depoimentos, fotos, cartas, e-mails, poemas e recortes de jornais. Guilherme Zarvos abre mão das normas acadêmicas e oferece um discurso em tom coloquial, que dialoga diretamente com seus pares.

“Esse é um livro que considero paradidático. Sendo uma possibilidade de avanço dentro da universidade para se fazer teses, tanto pessoais como em conjunto. É uma composição que pode ser um romance, uma tese de doutorado… Pode ser um poema longo.” Em resumo, o livro é “uma proposta alternativa de trabalho escritural adequado a uma compreensão ampla da história do presente”.

 

Há diversificação de vozes e linguagens no livro, uma escrita fragmentada. Como foi o processo de produção dele?

Guilherme Zarvos. Esse é um livro que considero paradidático. Sendo uma possibilidade de avanço dentro da universidade [no caso, a PUC-Rio onde a tese foi defendida] para se fazer teses, tanto pessoais como em conjunto. Porque quando um livro é redesenhado com a ajuda de outro designer passa a ser outro livro. É um somatório de metáforas. No sentido que tudo – como diria Michel Melamed – se pode dizer ene coisas de ene formas diferentes. É uma máxima do pós-moderno. É uma composição que pode ser um romance, uma tese de doutorado… Pode ser um poema longo. Passa a ser uma questão de conteúdo, não basta ene formas de dizer uma coisa, precisa saber o que vai falar. Que coisas você têm para falar? Mesmo que seja muito intuitivo.

Por que amplificar diferentes vozes para falar do CEP?

Zarvos. Pretendi pegar vozes que falariam melhor do que eu. São formas de dizer a mesma coisa. O encadeamento é a poesia, que é a noção do meu querido Walter Benjamin. Você começa uma história e esquece-se da história. Tomando essa liberdade você começa a história, termina a história e mantém até por olhar… Passando de página para página, volta para a página, e começa de trás pra frente.

CEP 20.000 é caracterizado pela cultura oral, a poesia falada. Foi difícil inserir esse universo na linguagem acadêmica?

Zarvos. É um desafio fazer um doutorado chegando aos 50 anos, diferente de fazer aos 30. Aos 30 anos você tem que conversar com a academia de uma forma que ela entenda mais o que está falando. E não aos 50 anos, já tendo publicado vários livros. Eu entrei para o doutorado nessas condições, que não eram favoráveis. [risos] Mas concluí o doutorado. Acho que essa linguagem tem de ser permitida. Tem que ter o especialista, a forma de diálogo moderna.

Você se considera moderno, pós-moderno ou contemporâneo?

Zarvos. [risos] Essa é a discussão. Cheguei à conclusão que após o moderno tem que ter alguma coisa. Depois de se experimentar a possibilidade de tudo, junto com o neoliberalismo…  A liberdade grande de comunicação, a partir da internet, todos os valores ruíram e cresceram. Essa liberdade de comunicação é fundamental, mas não pode ser a única. Na PUC-Rio, por exemplo, Ana Paula Mattos fez um mestrado sobre os movimentos do Recife, o Mangue Bit. Mas dentro da linguagem histórica, passando por todas as referências… O Ericson [Pires] fez um mestrado que puxava a arte – dentro da PUC ele abriu um caminho que se fizesse tese com mais liberdade. Estamos vivendo "após o moderno": a diluição de fronteiras, de linguagem e relações, inclusive emocionais. Com a liberdade de linguagens vamos precisar de uma ética, mesmo que não seja kantiana ou aristotélica. Ou a ética que [Zygmunt] Bauman define como líqüida. As liberdades conquistadas vieram para ficar. Há uma necessidade de mudança de ética, mudança de padrão de consumo. O ético é saber que padrão é esse, se você concorda com ele. Isso é uma posição ética que vai refletir com a poética, ou vice-versa. Tem que ter uma forma de escrita que represente esse novo momento.

Você tem uma relação próxima com os jovens poetas, chamados contemporâneos. O que é o contemporâneo?

Zarvos. Contemporâneo é o que está sendo feito, são as linguagens que demandam espaço. Essa é a forma contemporânea. É o que está acontecendo, é o grande bordão. Mas também o que aconteceu, o canônico. A redescoberta de novos esquecimentos, a arqueologia do saber.

CEP 20.000 gerou filhos como o Cepensamento. Fale sobre esse novo espaço.

Zarvos. Nesse sentido da nova ética, falo que os anos 1990 no Rio de Janeiro foi representado por essa liberdade do CEP: a poesia, os movimentos de música… Nessa década que estamos finalizando, essa liberdade seria representada pelas artes plásticas, onde o simbólico e as metáforas podem ser dados por pinturas, tonalidades diferentes. Falta ao Brasil o pensamento. A década que estamos entrando é a década do pensamento. Acho que o CEP 20.000 contribui muito com corpo, a cidade, a poesia, a música… Mas menos do que eu acho que pode em relação ao pensamento. Daí a idéia de fazer essa transformação, que o foco seja a transmissão de saber e aprender, mais do que um palco pop. Possivelmente a escrita vai ganhar o valor necessário. Pensamento sem escrita é possível, mas é mais complicado. Depende do que a juventude queira. Acho que falta pensamento.

Você é formado em economia, com mestrado em ciências sociais. Como surgiu a relação com a poesia?

Zarvos. Em 1990 eu ia fazer doutorado na Alemanha. Tinha saído de uma participação política mais ativa, trabalhando com Darcy Ribeiro. Eu morava na Alemanha, ainda havia o Muro [de Berlim, derrubado há 20 anos, em 1989]. Você recebia um flyer na rua e havia um evento com música e poesia. Lá saiu a idéia do CEP. Eu ia começar o doutorado, mas o Brizola perdeu, o Muro caiu… Achei que não era mais a hora de estudar ciências sociais na Alemanha. Eu achava que a minha voz seria no Baixo Gávea. Para ter as liberdades que eu não tinha, liberdades sexuais – onde eu pudesse ter uma possibilidade de conversar com gente bonita.

Vários seguidores…

Zarvos. Ora fosse… [risos] Roberto Correia dos Santos fala que você vai envelhecendo e passa a ver as coisas com um pouco mais de distância, a condição do ancião. [risos]

Você se considera um ancião?

Zarvos. Sim. [risos]

Como você avalia sua trajetória?

Zarvos. Eu sou obsessivo, tem muito trabalho. Espero que dê pra fazer mais alguns livros. Mais ou menos, sei os caminhos que vou seguir na escrita.

Qual a diferença do Guilherme Zarvos que estreou com Beijo na poeira para o Guilherme Zarvos que acaba de lançar Branco sobre branco?

Zarvos. Essa procura pelo ético permaneceu. E o estético evoluiu muito, o CEP 20.000 foi fundamental na minha vida. E a experiência com artes plásticas nos últimos anos também me trouxe a possibilidade de pensar metáforas. Os pensadores argentinos: Laura Crespe pensando [Jacques] Derrida; a Cecília Palmeira pensando o movimento Queer… Nós, extravagantes com uma rosa nos lábios. [risos]

Há diferença no seu processo de escrita de prosa e poesia?

Zarvos. São dois gêneros e propostas diferentes. Nacos de carne era uma resposta a Beijo na poeira, meu primeiro livro com mais liberdade dentro do pós-moderno, com três linguagens diferentes dentro da prosa. O segundo texto, que levei para o teatro, já era teatro. E poesia também, o murmúrio do traído. Em 1995 entrou a questão do ensaio, como fazer uma grande oratória. A prosa me chama sempre, com a prosa você pode falar mais e dar uma situação mais completa da realidade.

Mas você é mais conhecido como poeta…

Zarvos. Deve ser porque as pessoas não devem ler muito. [risos] Elas devem ir aos sebos comprar meus livros. Isso está ligado ao CEP 20.000. Sou escritor.

Como é o processo de criação dos textos?

Zarvos. Quando vou escrever sei, mais ou menos, quantas páginas vão sair num texto de prosa ou numa seqüência de poesias. Na poesia se tem muito mais liberdade.

Você teve acesso à leitura na infância?

Zarvos. Meu pai era a opressão e lia mal. Minha mãe era mais libertária e lia muito. Tinha muito livro em casa, no meu mundo fechado dos cinco anos.

Que referências ficaram da infância?

Zarvos. A importância da leitura.

Quais autores?

Zarvos – Na época, como todo mundo: Monteiro Lobato [risos]. Fiquei perplexo com A chave do tamanho, que tinha o pó de pirlimpimpim… [risos] Acho que até hoje estou procurando. [risos] Muda o tamanho da relação com as pessoas, o que é realidade… Também está no Peter Pan, mas não achei tanta graça. Essa idéia de que existe um pó que faça transportar, viajar… [risos] Os livros: Cem anos de solidão… O Camus com O estrangeiro. Posteriormente, John Fante. E no Brasil, os modernistas em geral, [Carlos] Drummond [de Andrade], [Manuel] Bandeira, Graciliano [Ramos], José Lins do Rego. Depois,  Gerardo [Mello Mourão], João Cabral [de Mello Neto], Ferreira Gullar…

Você estreou na antologia Esses poetas – Anos 90, de Heloisa Buarque de Hollanda, junto com Arnaldo Antunes, Eucanaã Ferraz, Claudia Roquete-Pinto… Como você avalia a geração de novos poetas?

 Zarvos. Há cada vez menos ingenuidade nos escritores, eles dominam as técnicas. Vamos produzir grandes escritores, mas o que Brasil precisa agora, que não teve até hoje, é um Henry Miller – alguém que participe das ações sociais, que passa perrengue e produza. John Fante é outro exemplo disso, a beat generation… Gente que trabalhava como podia e escrevia.

Não há alguém assim?

Zarvos. Não. A nova geração está cada vez mais técnica e afastada da realidade. Tem gente que chama de falso moderno. No fundo são inovadores, mais de linguagem do que de propostas de mudanças de pensamento. O contemporâneo é isso? Se fosse só isso o contemporâneo… Isso já é muito bom, mas não dá conta. "Ah você pode escrever sobre as famílias ricas." E as famílias pobres não têm histórias? Essa voz ainda não existe. Mas podemos pegar, sei lá, o MV Bill…

Ferréz?

Zarvos. Ferréz ainda reverencia muito com a escrita canônica e em São Paulo a barra é pesada. Ele ainda não reflete o universo que ele pretende. O Paulo Lins podia ter continuado, mas não continuou… Talvez nos roteiros eles façam muita coisa boa, mas na escrita precisa avançar mais.

Quais jovens autores você destaca?

Zarvos. Rod Britto tem uma escrita extremamente inteligente, com mistura de palavras do final do século XIX com palavras da rua. Botika vai lançar o segundo livro, já li uma parte. É excelente. Se pudermos considerar, o Michel Melamed é um escritor de enorme potencialidade. O Ericson Pires na parte teórica. O Paulo Fichtner sendo de uma tradição de mais anos, acho um poeta fantástico. O Marcelino Freire é um escritor fantástico.

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