Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 30.11.-0001 30.11.-0001

“”Guerra ao terror””: menos ação, mais reflexão

A “”briga”” de ex-marido (James Cameron) e ex-mulher (Kathryn Bigelow) está ganhando divertidos ares de “”Crepúsculo”” nestas semanas que antecedem a entrega do Oscar. Como na saga dos vampiros, em que os fãs se dividiram entre “”time Edward”” e “”time Jacob””, temos agora um “”time Cameron”” e um “”time Bigelow””, cujos filmes “”Avatar”” e “”Guerra ao terror”” concorrem a nove estatuetas, entre elas a de melhor direção.

Apesar dos revolucionários efeitos especiais e das aparentes boas intenções do pano de fundo ecológico de “”Avatar””, acho que vou de “”time Bigelow””. Seu “”Guerra ao terror””, que foi lançado ainda em 2008 no Festival de Veneza, é desses raros filmes de guerra mais concentrados no desenvolvimento dos personagens, seus impulsos, motivações, conflitos, contradições etc., do que na ação. Não vemos aí tantas cenas de batalhas, muito sangue jorrando ou heroísmo caricatural. Mas os “bastidores”.

Isso tudo sem abrir mão, vale ressaltar, de uma representação precisa da paisagem árida da guerra, tanto em aspectos mais técnicos (locações, cenários etc.) como “”climáticos””. “”Guerra ao terror”” atira o espectador no “”hurt locker”” do título original do filme, expressão usada por soldados americanos para designar um ambiente, situação ou período de tempo de grande dor física e/ou emocional.

Este “”clima”” se deve não só à “”câmera na mão”” de Bigelow, ou à tensão criada pelo inimigo que muitas vezes não se vê, mas muito ao roteiro original, indicado ao Oscar, de Mark Boal. Jornalista com colaborações para as revistas “”Playboy”” e “”Rolling Stone””, entre outras, ele esteve no Iraque após a ocupação, entre 2003 e 2004, teve um artigo (!) adaptado para o cinema (“”No vale das sombras“”, 2007, de Paul Haggis) e acompanhou um esquadrão antibombas americano no país.

É dessa experiência que nasceu a história de William James (Jeremy Renner, concorrente ao Oscar de melhor ator, na foto acima), um soldado literalmente viciado na adrenalina que libera ao tentar desarmar bombas. Pouco importando, muitas vezes, a segurança de seus colegas.

A “”fissura”” de James, e a dificuldade de alguém como ele de se readaptar à sociedade, são dois dos temas principais do filme, que abre com uma citação do livro “”War is a force that give us meaning””, de Chris Hedges, ex-correspondente de guerra do “”New York Times””: “”The rush of battle is a potent and often lethal addiction, for war is a drug”” (algo como “”o barato da batalha é um vício potente e freqüentemente letal, porque a guerra é uma droga””). A propósito, todo esse aspecto “jornalístico” tem uma razão de ser: Bigelow se interessou pelo filme por achar que há uma carência na imprensa de notícias e imagens do que está acontecendo com as tropas no Iraque.

O “”character study””, o estudo psicológico de personagens feito por Boal e Bigelow não se limita ao soldado “”viciado””, mas mostra também outras formas de reação ao horror da guerra. Como o sargento Sanborn (Anthony Mackie), o sujeito cuja cautela extrema na verdade é um espelho de seu crescente desespero frente à pressão. E o soldado Owen (Brian Geraghty), o garoto bem treinado, mas inexperiente, cuja “ficha” vai caindo à medida que enfrenta a guerra.

O fim, que por razões óbvias não se adianta aqui, é fantástico. Há uma cena emblemática de James já de volta aos EUA, num supermercado, ao som uma irritantemente tranqüila “música de elevador”, tentando escolher uma simples caixa de cereal em meio a centenas. O contraste dessa simplicidade com a complexidade há pouco experimentada por ele traduz o que a guerra pode representar para um indivíduo. Sobretudo para alguém como o soldado James, que já não consegue escapar – fisica ou emocionalmente – do “”hurt locker””.

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Veja abaixo o trailer legendado do filme:

 

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