Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 25.06.2012 25.06.2012

Gregg Araki fala de ‘Kaboom’, seu novo filme

Por Bruno Ghetti

É muito difícil (talvez impossível) apontar o gênero em que melhor se encaixe o longa-metragem Kaboom, novo filme de Gregg Araki. Seria mais apropriado chamá-lo de comédia adolescente? De melodrama gay? De suspense paranormal? Ou de ficção científica surreal?
Pois a produção é um pouco de tudo isso, em doses semelhantes e bem misturadas. Estreando nos cinemas brasileiros na mesma época em que entrou para a grade de programação do canal HBO, Kaboom é uma fantasia homo/bissexual sobre um mundo em crise, em que aparentemente as coisas vão muito bem – tudo é muito colorido; as pessoas, roupas e comidas são fotogênicas ao extremo –, quando, no fundo, o planeta está à beira do caos (e muito perto do seu fim).
Esse cenário é revelado a partir da história de Smith (Thomas Dekker), um rapaz de 18 anos que cursa faculdade de cinema. Ele divide quarto no campus com Thor (Chris Zylka), um bonitão que se diz heterossexual, mas que tem um comportamento por vezes bastante suspeito (ao menos na ótica do sonhador Smith).
Ainda descobrindo o mundo adulto, o protagonista se envolve sexualmente com a liberada London (Juno Temple), que ele conhece em uma festa, mas não abre mão de também ir para a cama com diversos garotos. Em meio à troca de confidências com Stella (Haley Bennett), sua melhor amiga lésbica, e estranhos sonhos envolvendo uma garota que ele não conhece, Smith aos poucos descobre fatos sobre a história de sua vida, que envolvem um estranho culto e forças sobrenaturais agindo sobre todo o planeta.
 
O longa é dirigido pelo norte-americano Gregg Araki, um dos principais representantes do chamado “new queer cinema” dos anos 1990 (o “novo cinema gay”, influenciado por nomes como Pedro Almodóvar e John Waters). Araki ficou mais conhecido no Brasil pelo ousado Mistérios da Carne (2004), que abordava homossexualidade e pedofilia. Ele falou com exclusividade ao SaraivaConteúdo sobre seu novo filme.
Cena do filme 'Kaboom'
 
 
Visualmente, Kaboom é exuberante, muito colorido e atraente. Mas, às vezes, pode-se entrever nesse mundo alguns aspectos pouco fotogênicos (pessoas que vomitam, um donut cheio de vermes, etc). Esses elementos estão no filme como denúncia de que as coisas não são tão belas como geralmente parecem ser na superfície?
 
Eu queria que Kaboom se passasse em um universo onírico e bonito, onde virtualmente qualquer coisa pudesse acontecer. É realidade, mas uma realidade sexy, engraçada e hiperestilizada, onde as pessoas são todas ridiculamente bonitas e fotogênicas, e as cores são todas reluzentes e belas. Mas há também uma escuridão, uma corrente de natureza horripilante e assustadora que está sempre à espreita, por baixo dessa superfície. É bem assim que eu vejo o mundo, como algo belo, divertido e tranquilo, mas subitamente há também perigo e caos, coisas que podem fazer tudo mudar repentinamente.

Em filmes como Mistérios da Carne, você incluiu elementos de ficção científica que agora reaparecem em Kaboom. Você realmente acredita, por exemplo, em vida inteligente fora da terra? Ou usa isso em seus filmes de maneira simbólica?

Não gosto de interpretar meus filmes ou dizer o que os elementos simbolizam, prefiro deixar em aberto para que as pessoas tenham suas próprias interpretações. Sou, no entanto, obviamente muito interessado no desconhecido, no imprevisível e nas coisas que estão além e fora do domínio da realidade mundana.

Assim como Mistérios da Carne, Kaboom é um filme de autodescoberta, sobre a entrada no mundo dos adultos. Você se baseou em suas próprias experiências nessa fase da vida para criar as situações pelas quais passa o protagonista do filme?

 
Pode soar idiota dizer isso de um dos meus filmes mais loucos, mas Kaboom é no fundo a minha obra mais autobiográfica – tirando as partes da trama sobre poderes sobrenaturais, dos cultos, etc. A estrutura da história – Smith se tornando adulto, suas experiências, amizades e encontros – é largamente inspirada em eventos reais, que eu vivenciei quando era estudante de cinema na faculdade. Quis fazer um filme sobre isso, essa época da vida em que você ainda não é completamente formado; quando a sua identidade, a sua sexualidade, quem você é e o que vai ser – quando tudo isso é ainda um enorme ponto de interrogação. Para um cineasta, esse é um terreno rico e fértil para trabalhar porque fala de um período em que você está em um estado de transição, de mudança e de evolução: nada é definitivo – o que, dramaticamente, pode ser muito interessante.

Kaboom mistura vários gêneros. Foi uma opção desde o início? Ou o tom do filme foi mudando à medida que você escrevia o roteiro?

 
Queria que Kaboom fosse um filme sem fronteiras, que fosse totalmente insano e livre em termos de criatividade, podendo se tornar mais desordenado, louco e sexy quando quisesse, sem nenhum tipo de restrição ou censura. Quando escrevi o roteiro, deixei minha imaginação livre e permiti que meus personagens fizessem e falassem o que quisessem, sem restringi-los. Em termos criativos, é um filme puro e honesto.

Seus filmes costumam ter elementos trash e kitsch, que se fazem notar sobretudo nas cores hiper-realistas, nas falas de alguns personagens e nas situações exageradas. Esse estilo tem um grande apelo diante do público gay e dos frequentadores do chamado “cinema de arte”. Você se preocupa com o fato de que seu público pode ficar sempre muito restrito a esses grupos?

 
Meus fãs de todo o mundo são pessoas muito diferentes. Vejo Kaboom – e todos os meus filmes – como uma obra sobre ser um “outsider”, e eu sei que tem um forte apelo para as pessoas que estão cansadas do mainstream e daquelas coisas velhas de sempre. Eu mesmo sou uma pessoa como elas, e é esse tipo de arte, de cinema e de música que tem um grande apelo sobre mim.

Esses elementos “camp” são incluídos nos filmes por serem importantes ao mundo que você está criando? Ou surgem sem você se dar conta?

 
É engraçado, mas eu não acho que meus filmes sejam exatamente “camp”. Pelo menos não é dessa maneira que os vejo – eu acredito que sejam mais surreais, estilizados, às vezes loucos, mas eu não diria “camp”. Na minha visão, meus filmes têm uma estilização e uma realidade aumentada, mas eles todos têm por base sentimentos da vida real, emoções e experiências.

Muitos críticos o incluem como um dos líderes do chamado “new queer cinema”. Você se sente confortável com esse rótulo?

 
Penso sempre nisso como algo que aconteceu no começo da década de 1990, quando meu filme Living End [1992] e outros, como Swoon [Tom Kalin, 1992] e Poison [Todd Haynes, 1991], surgiram de uma só vez. Acho que foi uma época importante e muito animadora, sinto-me honrado em ser considerado parte daquele grupo de grandes filmes e cineastas. Mas, desde aquela época, eu e os outros diretores envolvidos seguimos em frente e fizemos outros filmes, então penso nisso mais como parte do nosso legado.
 
Você acredita que o seu cinema contribuiu de alguma maneira para a maior aceitação dos gays pela sociedade que há hoje em dia?
Eu espero que os filmes que fiz, com seu espírito livre, sua fluidez sexual e sua atitude positiva a respeito de todos os tipos de sexualidade, tenham tido alguma contribuição, mesmo que pequena, para uma abertura de mente e mais aceitação na nossa sociedade. Mas tudo isso é resultado basicamente do progresso e da marcha do tempo rumo à liberdade e à igualdade. A intolerância e o ódio são produtos do medo e da ignorância; elas não têm lugar em um mundo iluminado. Acredito que as pessoas estão inevitavelmente percebendo isso cada vez mais.
 
Recomendamos para você