Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 17.04.2014 17.04.2014

Grandes estúdios de Hollywood voltam a investir no filão bíblico

Por André Bernardo
 
Ela é o maior “best-seller” de todos os tempos. Traduzida para mais de 2.300 idiomas e dialetos, vendeu, só nos últimos 50 anos, quase 4 bilhões de exemplares, segundo estimativa do Guinness Book. Não por acaso, a Bíblia, o livro sagrado do Cristianismo, é também o mais adaptado da história do cinema.
O mais recente exemplar do gênero, O Filho de Deus, de Christopher Spencer, chega às telas na Quinta-feira Santa, dia 17. Até o fim do ano, será a vez de Êxodo, de Ridley Scott, que narra a história de Moisés, e Maria, Mãe de Cristo, de Alister Grierson. Para 2015, já estão previstos, entre outros, Deuses e Reis, de Ang Lee; Golias, de Scott Derrickson; e A Redenção de Caim, de Will Smith.
Para o historiador Luiz Vadico, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não é difícil explicar o sucesso dos filmes bíblicos. “A mensagem religiosa dá sentido à vida. Além disso, personagens bíblicos não são poderosos, como os super-heróis. Pelo contrário. São pessoas comuns, que encontraram na fé e na sua relação com Deus os seus superpoderes”, afirma.
Entre as produções do gênero, Vadico elege Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli, como um de seus favoritos. Com mais de seis horas de duração, reúne um elenco primoroso, com Laurence Olivier, Anthony Quinn e Peter Ustinov. “Uma das melhores e mais completas adaptações dos Evangelhos. É irretocável”, enaltece.
Dos personagens bíblicos, Jesus de Nazaré é, certamente, o recordista em transposições para o cinema. Quem garante é o historiador André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Entre filmes mudos, independentes e blockbusters, o número de produções baseadas na vida de Jesus já ultrapassou a casa das 3 mil”, calcula o autor de Jesus no Cinema: Um Balanço Histórico e Cinematográfico entre 1905 e 1927, o primeiro volume de uma trilogia. Na opinião do historiador, as novas produções se caracterizam pelo viés conservador e fundamentalista. “São filmes que tendem a seguir, passo a passo, a Sagrada Escritura. Nenhum deles quer suscitar polêmica”, observa.
PECADO MORTAL
Segundo Chevitarese, o público tende a rejeitar quando a história mostrada na tela não corresponde àquela narrada na Bíblia. Boa parte dos filmes bíblicos, principalmente os que propõem releituras pouco ortodoxas dos textos sagrados, sequer chega ao circuito comercial.
Ele cita os exemplos de Colour of the Cross, de Jean-Claude La Marre, e de Hold Up Down, de Hiroyuki Tanaka, que ousaram mostrar o Filho de Deus como negro e asiático, respectivamente. O maior de todos os insucessos, porém, foi A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese. “Os produtores pularam fora e, sem grana, Scorsese quase não conseguiu terminar o filme”, recorda. Quando lançou, faturou apenas US$ 8 milhões.
Mel Gibson teve mais sorte. Falado em aramaico, A Paixão de Cristo custou US$ 30 milhões e arrecadou 20 vezes mais, US$ 600 milhões. “Passados dez anos, o que ficou do filme foi a violência. Para muitos adeptos do Cristianismo, só o sofrimento redime”, afirma o pesquisador César Augusto Sartorelli, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Fã de produções como O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini, ele reivindica a contratação de cientistas da Religião para prestar consultoria aos produtores, roteiristas e cineastas. “Se os novos filmes tivessem uma boa pesquisa histórica, Jesus Cristo teria pele morena, cabelo pixaim e baixa estatura”, exemplifica.
 
Cena dos bastidores de A Paixão de Cristo
 
FASE DE OURO
O primeiro filme bíblico de que se tem notícia é La Vie et La Passion de Jésus-Christ, dirigido pelos irmãos Louis e Auguste Lumière, no ano de 1897. De lá para cá, cineastas respeitados, como o americano John Huston, de A Bíblia, o espanhol Luis Buñuel, de Nazarin, e o italiano Roberto Rossellini, de O Messias, foram buscar inspiração no Antigo e Novo Testamento. Reza a lenda que, ao ser elogiado pela famosa cena de destruição do templo em Sansão e Dalila, Cecil B. DeMille teria retrucado: “O mérito não é meu; é da Bíblia”.
O gênero teve seu apogeu nos anos 50, com O Manto Sagrado, de Henry Koster; Os Dez Mandamentos, do próprio Cecil B. DeMille; e Ben-Hur, de William Wyler. 
Pela quantidade de longas em produção, o filão vive uma fase promissora. Produtores de A Bíblia, Mark Burnett e Roma Downey já anunciaram uma segunda temporada, A.D.: Beyond the Bible. A roteirista brasileira Vera Blasi, de Sabor da Paixão, colocou o ponto final em Pôncio Pilatos, que deverá ser estrelado por Brad Pitt. Já o diretor russo Timur Bekmambetov, de O Procurado, deseja refilmar Ben-Hur, um dos recordistas do Oscar.
 
“Se vivêssemos ainda numa visão moral grega, as tragédias não teriam redenção e os finais nunca seriam felizes. Por esse motivo, os mitos cristãos tendem a mobilizar um grande número de espectadores e a produzir sucessos de bilheteria”, explica Sartorelli.
 
A Maior Historia de Todos os Tempos
 
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