Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.08.2014 22.08.2014

“Gosto de falar das coisas tirando a gravidade delas”, diz Clarice Freire

Por Maria Fernanda Moraes
 
A voz mansa que se demora em cada cadência do sotaque pernambucano combina muito bem com a primeira impressão que se tem ao ler algum verso da escritora e ilustradora Clarice Freire, de 26 anos. “Gosto de falar das coisas tirando a gravidade delas” é uma das frases que ela repete bastante durante a entrevista.
 
“Ler” talvez não seja a palavra ideal para se traduzir literalmente a experiência dos leitores diante de seu trabalho. Ela chama de poesia virtual ou visual writing, ou seja: é uma mistura de ilustrações feitas à mão e versos. No início, em 2011, a escritora começou postando seu trabalho num blog. Em 2012, surgiu a fanpage no Facebook (que hoje ultrapassa 1 milhão e 200 mil seguidores) e, agora, acaba de ser lançado o livro, trazendo o mesmo nome do blog, Pó de Lua (Intrínseca).
 
Ela revela que mais da metade dos versos da obra é inédita e a outra parte são poesias já conhecidas. Mas todos, sem exceção, foram refeitos num formato novo. “O livro foi bem além do formato que a internet permite. Porque, como eu faço as fotos pelo Instagram, tem aquele formato mais predefinido, em que eu tinha que condensar a poesia. No livro, eu tenho páginas duplas. Então, pude viajar para lugares maravilhosos”.
 
Publicitária de formação, Clarice conta que tudo começou quando uma amiga sugeriu que ela criasse um blog para não perder os “rabiscos” feitos nos bloquinhos de anotação que ganhava na agência. “Comecei também a fazer fotos do que eu desenhava e funcionou ainda mais, porque a nova geração é muito imagética, gosta de ver a poesia, e não só de ler”. 
 
A influência veio de casa. O pai, Wilson Freire, além de médico, é compositor, escritor, roteirista, diretor de cinema e tem vários livros publicados. O primo é o também escritor Marcelino Freire. E a mãe é assistente social e ilustradora, responsável pelas ilustrações dos livros de Wilson.
 
“Tem algumas cenas bem fortes gravadas na minha cabeça: eu chegando da escola e vendo meu pai compondo em casa com o Antônio Nóbrega [músico]. Isso para mim sempre foi uma delícia de poder conviver, porque estava o Nóbrega com a sua rabeca, seu violino; meu pai com um monte de papel ao seu redor; e ele dizia: ‘Completa esse poema, como é que tu acha que podia terminar?’. Eu completava e eles riam. Eu lembro de meu pai me dizer: ‘Tudo o que eu disser, você vai responder ‘Olodumaré’’. ‘Vou-me embora dessa terra: Olodumaré. Para outra terra eu vou: Olodumaré’. E quando eu vi, virou a música, estava no carnaval. Eu ficava fascinada, parecia mágica para mim”, lembra.
 
Acompanhe o bate-papo com a escritora:
 
Como você começou a escrever?
 
Clarice Freire. Eu costumo dizer que cada um tem a sua maneira de escapar desse mundo ou então de colocar o mundo de dentro para fora. Alguns correm, alguns pintam, alguns atuam… e eu precisava escrever desde muito pequenininha. Uma parte por necessidade, outra parte por influência do meio onde eu cresci. Acho que acabei desde muito cedo juntando a influência do meu pai e da minha mãe, o desenho e a escrita, de um jeito bem rudimentar. Eu sempre desenhei e escrevi como se fosse uma coisa só.
 
O livro é como um moleskine, diz a autora, e traz versos e ilustrações inéditos
 
Quais são as suas outras influências na literatura e na ilustração?
 
Clarice Freire. Sempre gostei de ler. Lia Monteiro Lobato [quando] pequenininha loucamente, gostava de fantasia, dos irmãos Grimm, dos clássicos. Como dizia Ariano Suassuna, “tudo o que é maravilhoso eu gostava”. Sempre tive um carinho muito grande pelas mulheres: amo Clarice Lispector, acho que também por uma curiosidade natural dos nomes. Sempre fui apaixonada por Cecília Meirelles, Cora Coralina, Fernando Pessoa, Drummond. Tenho lido muito Manoel Barros e estou apaixonada. Carlos Pena Filho, alguns autores daqui da minha terra…
Visualmente, eu sempre me encantei muito pelo trabalho de Tim Burton. Eu gosto daquelas espirais, daquela coisa meio sombria, mas que não perde a delicadeza. Acho que acabou até influenciando um pouco a capa do livro. 
 
Você brinca bastante com as palavras, algo que se assemelha bastante à poesia concreta. Você concorda?
 
Clarice Freire. Fui percebendo tudo aos poucos. Eu escrevo e depois percebo: essa palavra pode se quebrar em dez palavras, e aí vou lá e faço. Olho para um tapete e vejo que ninguém dá valor a ele. Aí faço uma exaltação ao tapete. O que fez o blog bombar, por exemplo, foi um poema sobre o fósforo. “Ah, coitado do fósforo”, eu falava. São duas vozes, a que tem pena do fósforo e a que se encanta pelo fósforo. Você coloca num objeto muito ordinário um tom extraordinário, você começa a dar vida e importância a coisas que ninguém dá. E o fósforo não é só uma ilustração da poesia, ele é a poesia. “Não sei como alguém suporta bater de porta em porta”. Por que eu tenho que escrever “porta”? Por que eu não posso botar o desenho de uma porta aí?
 
Como surgiu a ideia do nome do blog, Pó de Lua?
 
Clarice Freire. Quando eu era adolescente, o Silvio, meu professor de teatro, me disse: “Você sabe por que a Lua é tão bonita? É porque, mesmo sendo só pó, como eu e você, ela consegue, nessa simplicidade toda, se deixar refletir a luz de outro e, por conta disso, as nossas noites não são escuras”. E eu fiquei tão encantada com aquilo! E decidi que era assim que eu queria viver. E isso se reflete em tudo o que eu escrevo, tem a ver com o ordinário das coisas. Eu também assisti a um filme que se chama Casa de Areia, que foi outro ponto decisivo para o nome do blog. As personagens passam a vida todo no deserto, rodeadas de areia, e ficam imaginando o que é a Lua e o que tem lá. Eu lembro da última cena do filme, em que a filha vai para a cidade e volta contando para a mãe que o homem pisou na Lua. E a mãe pergunta: “O que tem lá?” E ela: “Areia”. Então, tudo o que a gente imagina de mais fantástico está ao nosso redor. Essa é bem a proposta do meu trabalho.
 
Ela batiza seu trabalho como poesia visual: uma mistura de ilustrações e versos
 
O seu grande impulso foi com a página do Facebook. Como foi essa experiência?
 
Clarice Freire. Isso é um pouco de mistério ainda para mim [risos]. O meu blog surgiu em 2010 e a página, em 2011. No final de setembro do ano passado ele completou 10 mil seguidores e teve alguns impulsos, como entrevistas nas rádios e tal. Eu conheci nessa época também o Pedro Gabriel, do livro Eu me Chamo Antônio, e começamos a trocar muitas ideias sobre poesia e nosso trabalho. E ele compartilhou o meu trabalho na página dele. Foi daí que passei de 7 mil a 10 mil seguidores. Depois, publiquei o poema “Fósforo” e as pessoas se sentiram muito tocadas, foi muito compartilhado. Em cinco meses eu passei de 10 mil a 1 milhão de seguidores [hoje a página tem 1 milhão e 200 mil seguidores]. Acho que o que encanta as pessoas é essa poesia visual, que hoje é chamada de ‘visual writing’. Algumas pessoas me agradecem porque dizem que eu falo o que elas não conseguem dizer. Quando as pessoas compartilham, principalmente quando é uma frase, um texto, é como se elas estivessem dizendo aquilo.
 
Se alguém te perguntasse sobre o que falam seus escritos e desenhos, como você resumiria em uma frase?
 
Clarice Freire. A frase que poderia resumir é o conceito do meu trabalho: “Para diminuir a gravidade das coisas”. Eu acho que isso permeia tudo que eu escrevo, mesmo que eu esteja falando de amor, de dor, de perda, de uma porta, seja lá o que for, gira em torno dessa ideia. Essa delicadeza faz parte do meu trabalho. É a força da delicadeza, ela pode ser forte sim e atingir muita gente.
 
A autora participará da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Ela realizará sessão de autógrafos no estande da Intrínseca no sábado, dia 30/08, a partir das 16h.
 
 
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