Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 25.04.2014 25.04.2014

‘Gibi’ completa 75 anos e deixa um legado nos quadrinhos

Por Marcelo Rafael
Em março, a revista do Cebolinha atingiu a impressionante marca de 500 edições. Mas o garotinho de cabelos espetados do bairro do Limoeiro não foi o único a estampar o invejável nº 500 na capa. E agora, em abril, comemoram-se 75 anos da revista que impulsionou ele e os outros quadrinhos no Brasil: Gibi.
O legado de Gibi é tão grande que ela não só virou sinônimo de quadrinhos por aqui como também deixou longevas revistinhas que bateram a marca dos 500 números. Ela própria ultrapassou a marca de 1700 edições. Mas essa história começou lá atrás, pouco antes de estourar a II Guerra Mundial.
UMA HISTÓRIA QUE NÃO ESTÁ NO GIBI
Desde os primeiros quadrinhos, com os artistas pioneiros, no Império de D. Pedro II e na República Velha, a 9ª Arte ganhou vida em revistas voltadas ao público infantil, como O Tico-Tico, que publicava histórias nacionais, ainda que baseadas no que se via lá fora.
Até que, em abril de 1939, Roberto Marinho adquiriu formalmente a exclusividade para publicação dos personagens da King Features Syndicate, o conglomerado dos EUA que publicava, entre outros, O Gato Félix, Betty Boop e Popeye.
“O Tico-Tico tinha alguma coisa que era copiada dos estrangeiros, mas o Gibi começou a importar diretamente quadrinhos americanos”, conta José Alberto Lovetro, o JAL, presidente da Associação de Cartunistas do Brasil e um do criadores do Troféu HQ Mix.
A estratégia de Marinho, proprietário do jornal O Globo, era competir com os suplementos Infantil e Juvenil, de seu concorrente Adolfo Aizen, dono do Jornal A Nação. O sucesso dos suplementos levou Aizen a lançar a revista (e não apenas um encarte de jornal) Mirim, já ensaiando publicar histórias norte-americanas no Brasil. Em 1940, o jornal Diário da Noite lançou O Gury.
O último número de Gibi Semanal mostrava o menino que batizava a revista indo embora com uma trouxa de tiras. Foi o fim de uma era
Segundo JAL, as “comic strips” (tirinhas) norte-americanas já vinham de uma indústria montada, com personagens já conhecidos, enquanto os brasileiros tinham que montar os seus próprios e angariar o carinho do público.
Pipocaram então Flash Gordon, Mandrake, Charlie Chan, Popeye, Brucutu, entre muitos outros. A briga entre o Gibi de Marinho e o Mirim de Aizen foi boa e rendeu até artigos acadêmicos e livros a respeito, como A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Júnior, e Gibi – A Revista Sinônimo de Quadrinhos, de Waldomiro Vergueiro.
Gibi acabou levando a melhor. Passou-se a pedir “gibi”, ao jornaleiro, para qualquer revistinha. Para Marcelo Naranjo, editor do site Universo HQ, “arqueólogo” de quadrinhos e dono de uma coleção completa de Gibi Semanal, o sucesso de Gibi se deu por dois motivos: os personagens famosos da King Features (Flash Gordon, Príncipe Valente, O Fantasma, o touro Ferdinando etc.) e o lançamento do Gibi Mensal.
Gibi já havia chegado aos 100 mil exemplares e passado a circular três vezes por semana quando, em 1941, Marinho lançou Gibi Mensal, consagrando grandes personagens estrangeiros.
OUTROS 500…
Apesar dos números altos, tanto em tiragem quanto em edições consecutivas, Gibi foi cancelado em 1950. Na década 1970, a RGE (atual Editora Globo) tentou relançar Gibi, mas a nova versão durou apenas 40 edições.
O mercado de quadrinhos já estava popularizado. Disney já estava presente no Brasil e Mauricio de Sousa lançava os primeiros “gibis” com os personagens de suas tiras de jornal.
Os personagens Disney começaram a ser produzidos no Brasil e, em maio de 1991, Mickey atingiu sua 500ª edição pela Abril, com capa especial. Tio Patinhas só viria a atingir o nº 500 nos anos 2000, em março de 2007.
Cebolinha não foi o único a chegar ao nº 500 nos quadrinhos
Um público fiel às histórias de faroeste garantiu a chegada do italiano Tex aos 500
Em junho de 2011, foi a vez de Mônica 500, somadas as 200 edições pela Abril, 246 pela Globo e mais 54 pela Panini. Em março deste ano, Cebolinha chegou com duas edições comemorativas: uma regular e outra com capa laminada e papel especial. Além disso, contou com uma trama exclusiva que ligava a primeira história do nº 500 com a primeira do nº1 e até com primeira tira da Mônica.
“O Mauricio é o Mauricio. O padrão que ele mantém com os gibis dele sempre foi bom. Ele acompanha o passar do tempo e consegue se adaptar”, diz Naranjo sobre os 500 de Mauricio.
JAL concorda e avalia que, apesar da longevidade de Gibi, a falta de inovação, conforme o tempo ia passando, foi um dos motivos para o fim abrupto da publicação nas décadas de 1950 e 1970.
Um cowboy produzido na Itália também atingiu a grande marca: Tex chegou a 500 edições em junho de 2011. Tanto para Naranjo quanto para JAL, esse é um caso à parte.
“Já faz muito tempo que a época de bangue-bangue passou, mas mantém-se um público que a gente não imagina. Eu acho que é aquele pessoal que está envelhecendo com o personagem”, avalia JAL.
“Ele mantém aquele padrão de ‘preto no branco’: o mocinho é o mocinho, o vilão é o vilão, você sabe como vai acabar. Mas ela é bem contada, então é muito divertido”, diz Naranjo. “E atinge o público masculino a partir dos seus 15 anos (em diante)”, finaliza.
Após números tão grandiosos, o quadrinho nacional espera pelos outros 500 que estão por vir. Isso, em grande parte, devido ao embalo de Gibi, lá atrás.
Para além de virar sinônimo de revista em quadrinhos e se tornar ditado popular (“Não está no gibi”), o grande legado de Gibi foi atingir crianças e adultos, tanto para JAL quanto para Naranjo.
“Com ele, criou-se uma legião de leitores, que vão passando [o hábito da leitura] de geração para geração, o que permitiu a continuidade da publicação de HQs”, analisa Naranjo, que, além da coleção completa de Gibi Semanal, tem em sua prateleira as edições 500 de Mickey, Tio Patinhas, Tex, Mônica e Cebolinha.
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