Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.01.2012 13.01.2012

Ghost Writers: os segredos da escrita a “quatro mãos”

Por Luma Pereira
Cena do filme O Escritor Fantasma
 
O nome nos créditos de um livro muitas vezes não é de quem de fato o escreveu. Por trás de toda pesquisa, apuração e redação, pode haver um ghost writer – tipo de escritor que não assina suas obras, permanecendo anônimo e “sem rosto” aos olhos do público.
 
Existem muitos boatos sobre a existência desses escritores ao longo da História. Dizem que Autran Dourado era o escritor fantasma de Juscelino Kubitschek, e que Theodore Sorensen era o ghost writer de John Kennedy.
 
Há quem diga que Truman Capote era o ghost writer de O Sol é para Todos, livro de Harper Lee. O Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha, foi escrito por Jorge Tarquini, mas ele não se declara ghost, já que todos sabem que ele é o autor.
 
 
A profissão já foi retratada também na literatura e no cinema. Em Budapeste, de Chico Buarque, o protagonista José Costa é um ghost writer. O Escritor Fantasma (Polanski, 2010), adaptação do livro O Fantasma, de Robert Harris, é outro exemplo.
 
A fama e o anonimato
 
“Ter o reconhecimento é muito bom, mas não me dói quando o autor quer ficar com todos os louros”, afirma Débora Chaves, jornalista, tradutora e ghost writer. O jornalista e escritor Ryoki Inouê concorda: não tem a necessidade de ver o nome na capa do livro.
 
“Quando vejo uma crítica favorável a um livro que sei que fui eu que escrevi, sinto-me orgulhoso de mim mesmo”, afirma. E conclui: “levo crédito, sim. Na minha conta bancária. É o quanto basta. Não preciso da vaidade”.
 
O primeiro livro de Débora como “escritora fantasma” foi Quebra de Script: Uma Incrível História de Reinvenção Pessoal (Agir, 2009), de Thomaz Magalhães. Quem a convidou para fazer o trabalho foi Jorge Carneiro, dono da Ediouro.
 
“Foram horas de conversas, lembranças, leituras e adaptações por meio das quais, ao longo do tempo, tive a oportunidade de reviver momentos da minha vida”, comenta Magalhães, contratante da ghost.
 
Sobre a repercussão do livro, Thomaz conta: “até hoje, muitas pessoas me param nas ruas para dar os seus respectivos testemunhos de como suas vidas mudaram após a leitura do meu livro”.
“A coragem de Thomaz em contar seus dramas e alegrias sem censuras foi o grande motor do livro”, relata Débora. “A maior recompensa foi ouvir os elogios de Jorge Carneiro no dia do lançamento sobre o quanto se emocionou ao ler a história”, completa.
 
Nesse caso, foi a editora que optou por omitir o nome de Débora dos créditos, pois o próprio Thomaz não esconde que não foi ele quem escreveu o livro, e ele sempre a cita em entrevistas, agradecendo pelo trabalho e dando a ela o reconhecimento.
 
 
Ryoki Inouê começou nessa profissão quando passou a escrever novelas de espionagem, policiais e bangue-bangue para as editoras de pocket books brasileiras. “Os editores não queriam que eu assinasse meu nome, exigiam que eu colocasse pseudônimos americanizados”, revela.
 
Logo percebeu também que vários escritores assinavam contratos com as editoras e não conseguiam cumpri-los. Então, tornou-se ghost writer desses autores. “A coisa funcionou tão bem que até hoje vários deles ainda fazem uso de meus serviços”, diz.
 
Inouê já lidou com todo tipo de encomenda. Como o caso de um político que queria que ele escrevesse uma biografia que o pintasse como inocente, quando todos sabiam que ele era desonesto. E outra vez que um criminoso pediu a mesma coisa. Ele recusou ambas.
 
Segredo de escritor
 
A dinâmica de trabalho é simples. “Há projetos em que a relação de confiança é total e se estabelece num primeiro momento. E, às vezes, é preciso lidar com expectativas distorcidas por parte dos autores”, comenta Débora.
 
Para Inouê, os ghost writers são contratados quando o autor não tem tempo ou capacidade para escrever o livro. “Então, ele se livra da pesquisa e de todo o trabalho, por fim”, afirma.
 
“Ele contrata meus serviços, diz quando o livro precisa estar pronto, dá as ideias que teve e eu faço tudo o mais. Alguns desses autores eu jamais encontrei pessoalmente, e toda a negociação é por Internet e/ou telefone”, descreve o “escritor fantasma”.
 
“São as mesmas regras básicas que qualquer trabalho. Comprometimento, compromisso com a verdade e respeito às regras acordadas entre as partes”, diz a ghost. “A recompensa é colocar no papel o que os autores imaginam e como imaginam”, conclui.
 
Um dos desafios nesta profissão é acertar seu estilo com o do contratante. “O que importa é conseguir a ‘voz’ do cliente no seu texto, entrar na sua pele e escrever como ele gostaria de ter escrito”, afirma Débora.
 
“A preocupação com o estilo de escrita do contratante só ocorre quando este é um escritor conhecido, com obras publicadas e que possui um estilo próprio”, garante Inouê.
 
E completa: “então, tenho de ‘entrar na cabeça e na alma’ dele para não deixar transparecer que foi outra pessoa que escreveu. Só se consegue isso com treino. E bastante treino”.
 
Em 2011, ele escreveu autobiografias para dois políticos e três empresários, além de três romances para autores renomados que não estavam com tempo de escrever de próprio punho. E Inouê afirma: “não revelo nem sob tortura, e o contratante idem”.
 
Para Débora, as biografias são o grande filão do trabalho do ghost writer, mas nada o impede de trabalhar com ferramentas da ficção, escrevendo romances, por exemplo.
 
E, por trás do nome na capa, pode haver outro escritor ou escritora, escondido, em silêncio, invisível, secreto. Como um fantasma de sua própria escrita.
 
 
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