Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Livros 21.01.2021 21.01.2021

George Orwell escreveu para defender a liberdade

George Orwell foi o pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido na Índia, quando esta era uma colônia britânica em 25 de junho de 1903 e falecido em Londres, no Reino Unido, em 21 de janeiro em 1950.

Escritor da liberdade é uma boa maneira de tentar resumir quem foi George Orwell, porque ele lutou contra o totalitarismo de todas as formas que pode: tanto como um combatente, nos campos de batalha da Guerra Civil Espanhola, como através de seus livros, críticas implacáveis ao totalitarismo.

Quem foi George Orwell

Eric Arthur Blair, seu verdadeiro nome, nasceu em Motinari, na região de Bengala, na Índia, quando esta fazia parte do Império Britânico, em 1903, descendente de uma família de aristocratas empobrecidos, que o próprio Eric, já demonstrando o sarcasmo e a extrema ironia que viriam a fazer parte de sua obra, dizia fazerem parte classe média alta inferior do Império Britânico.

Como muitos em situação parecida, o pai de Eric Arthur Blair/George Orwell era um funcionário da coroa britânica, que fazia do trabalho nas colônias e países parte do Império seu modo de vida. Tanto que em 1904, a família Blair se mudou para a Inglaterra para que Eric e suas irmãs pudessem ter uma educação melhor. Por isso ele raramente via o pai, que trabalhava na Irlanda, durante a infância.

A mãe de Eric, Ida Blair, queria que ele tivesse a melhor educação possível, mas não tinha como pagar uma escola particular. Mas através de contatos, conseguiu uma bolsa de estudos na prestigiada Escola São Cipriano, que Orwell odiou, tanto que dizem que seu primeiro ensaio, Such, Such Were the Joys, publicado postumamente, foi baseado nas suas experiências lá.

Mas apesar de não gostar da escola, o Eric Blair que viria a se chamar George Orwell se destacou escrevendo poemas que foram publicados em um jornal local, e em um concurso de história, tendo conseguido se tornar bolsista no Wellington College e finalmente no Eton College, um dos Colégios do Rei, frequentado pelos filhos da alta aristocracia britânica.

Em Eton teve aulas de francês com Aldous Houxley, autor de Admirável Mundo Novo, e também participou da produção de uma revista acadêmica, mas não teve notas boas o suficiente para cursar como bolsista uma universidade, que seus pais não poderiam pagar. E foi por isso que Blair/ Orwell foi para o serviço público, se esforçando para passar em um concurso para fazer parte da Polícia Imperial Indiana.

Fazendo parte dessa força militar, foi para Birmânia, atual Myanmar, onde conheceu a realidade dos países e povos que viviam como domínio imperial britânico, se tornando ainda mais crítico de sistemas de governo opressores, escrevendo seus primeiros ensaios sobre isso, A Hanging (1931), Shooting an Elephant (1936) e seu primeiro romance Burmese Days,

Na Birmânia contraiu dengue, o que antecipou seu retorno para a Inglaterra, onde decidiu se tornar escritor, já decido que seu tema seria a situação dos desfavorecidos em um sistema que considerava injusto.

Mas decidiu que não poderia escrever sobre a pobreza e as injustiças de uma forma idealizada ou romantizada, sem conhecer como realmente era a vida de quem estava nessa situação. Em Londres e Paris, viveu nos lugares onde viviam as pessoas realmente pobres. Na capital francesa, depois de ter seu dinheiro e pertences roubados, chegou a trabalhar como lavador de pratos para sobreviver.

Essa experiência rendeu outro livro que Eric Blair publicaria sob o pseudônimo de George Orwell, Down and Out in Paris and London., Na Pior em Paris e Londres, na tradução em português.

George Orwell na Guerra Civil Espanhola

Como muitos de sua geração, Eric Blair / George Orwell se alistou nas Brigadas Internacionais para lutar pelos republicanos na Guerra Civil Espanhola, contra a ditadura fascista de Francisco Franco.

Esse conflito foi uma espécie de ensaio para a Segunda Guerra Mundial, já que se confrontaram, além das milícias republicanas e o exército franquista, forças alemãs e italianas, enviadas por Adolf Hitler e Benito Mussolini, e soviéticas, enviadas por Josef Stalin.

Orwell se juntou ao Partido Operário de Unificação Marxista, um grupo de orientação Trotskista, que juntamente com anarquistas e comunistas combatia os franquistas. E talvez tenha sido nessa época, tão romantizada nas narrativas que seriam feitas dela no futuro, que Orwell tenha percebido que na luta pela liberdade, as coisas não eram tão simples e claras assim.

Os membros do PCE, Partido Comunista Espanhol, ligados a Stalin, da mesma maneira que combatiam os franquistas, combatiam anarquistas e trotskistas, pois consideravam que aqueles que divergissem deles, mesmo sendo de tendências políticas de esquerda, eram tão inimigos quanto os fascistas.

E esse combate não era apenas retórico. O conflito de 7 de maio de 1937 em Barcelona,  entre comunistas, anarquistas e trotskistas deixou 2 mil mortos.

A participação de Orwell na Guerra Civil Espanhola terminaria com o tiro que ele recebeu na garganta.  E além de uma profunda compreensão sobre a natureza dos regimes e ideologias políticas do século XX,  rendeu o livro Homage to Catalonia, que foi publicado no Brasil com o título Lutando na Espanha.

Todas essas experiências ajudaram George Orwell a escrever seus dois grandes clássicos, que o colocaram entre os maiores escritores do Século XX: A Revolução dos Bichos e 1984.

 

A revolução dos bichos

A crítica demolidora à União Soviética e a Josef Stalin viria em 17 de agosto de 1945, com a publicação de Animal Farm, que saiu no Brasil como A Revolução dos Bichos, título pelo qual o livro é mais conhecido, e mais recentemente, em uma tradução mais fiel ao original em inglês como Fazenda dos Animais.

No livro, uma fazenda no interior da Inglaterra é administrada pelo seu proprietário, Sr. Jones, como qualquer outra. Mas um velho porco chamado Major, sentindo que sua hora chegaria em breve, reúne os animais da fazenda para partilhar seu sonho de um mundo em que os animais não estariam submetidos à tirania dos seres humanos.

Major morre 3 dias depois, mas os jovens porcos Napoleão e Bola de Neve levam suas ideias à frente e lideram uma revolta dos animais para tomar a fazenda e expulsar o fazendeiro Jones. Assim, eles estabelecem uma sociedade baseada em sete mandamentos:

Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.

Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo.

Nenhum animal usará roupas.

Nenhum animal dormirá em cama.

Nenhum animal beberá álcool.

Nenhum animal matará outro animal.

Todos os animais são iguais.

Esses mandamentos eram resumidos em uma única frase, para que os animais menos inteligentes, como as ovelhas, pudessem compreender: quatro pernas bom, duas pernas ruim.

Quando os humanos tentam retomar a fazenda, os animais conseguem se defender, e estabelecer seu governo. Mas um dia Napoleão o acusa Bola de Neve de traição, o expulsa da fazenda e estabelece uma ditadura. E sempre que acontece qualquer coisa errada na fazenda, durante o governo de Napoleão, a culpa é da suposta sabotagem de Bola de Neve, que é apresentado como inimigo de todos os animais da fazenda.

Napoleão e os outros porcos, como Garganta, seu porta voz, começam a morar na casa do fazendeiro, andar em duas pernas, dormir em camas e a fazer tudo o que os humanos fazem. Inclusive viver com luxo enquanto os animais viviam com muito pouco.

O livro termina quando os animais olham pela janela e veem os porcos dentro da casa, jogando cartas com os fazendeiros vizinhos e comemorando os lucros da fazenda, e não conseguem diferenciar quem é porco de quem é humano.

Escrito em 1945, A Revolução dos Bichos permanece mais atual do que nunca.

1984

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro,  Nineteen Eighty-Four em inglês, foi lançado em 8 de junho de 1949, praticamente 6 meses antes da morte de Orwell, por tuberculose.

O livro narra a história de Winston Smith, um homem que trabalha no Ministério da Verdade em uma Inglaterra distópica, em que um governo totalitário, cujo líder máximo, que ninguém nunca vê o rosto é o Big Brother, o Grande Irmão.

O regime é tão totalitário que não controla somente o presente, mas também o passado. Por isso existe um Ministério da Verdade, onde o trabalho de Winston é reescrever notícias antigas de jornal de maneiras que estejam de acordo com a ideologia do IngSoc, o Socialismo Inglês, que é como é chamada a ideologia do Partido que governa o país.

1984 popularizou o termo orwelliano, como sinônimo de uma sociedade totalitária, além de uma série de outros termos que hoje fazem parte do vocabulário, especialmente quando se discute política e liberdades individuais, como:

Grande IrmãoBig Brother: Apesar de ter se tornado o nome do famoso reality show, Big Brother é o símbolo de um Estado totalitário, personificado em um líder que a tudo vê e que todos devem cultuar. Ou sofrer as consequências de sua desobediência.

Duplipensar: Aceitar como verdadeiras duas crenças mutuamente contraditórias, de acordo com a ocasião. Mas ao contrário da hipocrisia, quem pratica o duplipensar não consegue perceber que as verdades em que acredita são contraditórias.

Crime de Pensamento: O Estado Totalitário de 1984 não controla somente o que as pessoas fazem e falam, tenta controlar o que elas pensam. E para isso, tem uma Polícia do Pensamento, que usa a vigilância e a psicologia para descobrir quem tem pensamentos dissidentes.

Novilíngua: A nova língua é feita pela condensação ou remoção de palavras que tivessem um sentido indesejado pelo partido. E ao se remover essa palavra, ela sumiria dos pensamentos das pessoas e aquilo a que ela se refere deixa de existir.

O legado de George Orwell

Através da ficção, George Orwell descreveu de uma maneira perfeita, quase documental, as características das ditaduras de seu tempo, e daquelas que ainda viriam a ser instaladas. Assim como descreveu os discursos  e recursos que os ditadores utilizam para chegar ao poder e se manter nele.

Mas o legado de Orwell não se resume a um alerta sobre como as ditaduras surgem e agem. É também um exemplo de honestidade intelectual, sem fazer concessões de espécie alguma.

Em toda a sua obra, George Orwell foi absolutamente coerente e honesto, criticando com a mesma veemência o imperialismo britânico, as desigualdades sociais do capitalismo, o fascismo, e o comunismo soviético. Ele era totalmente intransigente na defesa da liberdade.

Para George Orwell, não existia totalitarismo do bem. Nenhuma tirania poderia ser tolerada ou justificada. Fosse ela em nome de um suposto bem comum, fosse em nome de combater uma outra tirania.

Recomendamos para você