Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.11.2014 16.11.2014

George Orwell, um escritor combativo e atemporal

por Maria Fernanda Moraes

Ian McEwan, um dos escritores de maior prestígio atualmente, é também um fã declarado de George Orwell (1903-1950). Em sua visita recente ao Brasil, ele contou que um dos personagens de Serena, seu novo romance, é inspirado em Orwell.

Tom Healey, o personagem de McEwan, é um escritor aliciado por uma agente secreta para que ele inclua em suas obras determinadas visões de mundo. Na vida real, muito antes do sucesso do Grande Irmão, no seu mais famoso livro 1984, George Orwell também foi um colaborador do serviço secreto inglês, denunciando intelectuais ligados ao regime soviético. É admirado não somente por McEwan, mas por toda essa geração de escritores que vieram depois dele.

1984

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Antes de cair nas graças do público e vender milhares de exemplares com o clássico 1984, publicado em 1949, Orwell passou por experiências cruciais que influenciariam sua obra e seu modo de escrever. O autor nasceu na Índia em 1903 e mudou-se para a Inglaterra ainda criança. Ainda com o nome de batismo, Eric Arthur Blair, se alistou na Polícia Imperial indiana, passou por treinamento na Birmânia e voltou à Inglaterra em 1928.

Esse retorno protagoniza o primeiro choque na vida de Orwell, que o faz decidir-se pela carreira de escritor. Na Pior em Paris e Londres, que saiu em 1933, é a sua primeira obra publicada já com o pseudônimo de George Orwell, e relata essa experiência epifânica do retorno à Inglaterra.

Na Pior Em Paris e Londres

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Ao comparar a vida social inglesa da época com o que passou na Índia, ele percebe a posição distante que tinha ocupado até então e decide entrar em contato de verdade com a classe trabalhadora. Uma de suas frases que se eternizariam posteriormente é que “nada substitui a experiência direta da vida”.

E é exatamente isso que ele faz: vai até Notting Hill, um distrito de Londres, para realmente conhecer de perto e vivenciar a realidade da classe baixa. Passa também 18 meses em Paris, sem dinheiro, onde penhora as próprias roupas e trabalha em restaurantes como lavador de pratos.

“A escolha do pseudônimo se fez necessária e oportuna, pois sua intenção era contar uma experiência comum a qualquer um, coincidindo com a ruptura de sua própria identidade, agora próxima da realidade, mais experiente, concretizado”, explica Débora Tavares, mestranda da USP e pesquisadora da obra do escritor.

Na Pior em Paris e Londres é dividido em duas partes e traz esses relatos vividos por ele nas duas cidades. “É uma mistura de fatos e ficção, dizem alguns críticos, já que Orwell teria exagerado em algumas passagens para criar mais tensão. Mas o próprio autor chegou a afirmar que todo o conteúdo do livro foi vivido por ele na época em que esteve nas duas cidades fazendo ‘bicos’”, contou Débora ao SaraivaConteúdo. Mas há também recepções positivas da crítica quanto à obra. O escritor J. B. Prestley comentou àquela época que os relatos de Orwell eram “uma leitura excelente e muito rara, um documento social válido, o melhor livro que eu li neste gênero em muito tempo”.

A pesquisadora também contou que Na Pior em Paris e Londres está sendo adaptado para o cinema pelo mesmo roteirista de Billy Elliot, outro grande clássico da literatura inglesa de Charles Dickens, e deve estrear nós próximos anos.

O romance seguinte é Dias na Birmânia, de 1934, em que Orwell narra sua experiência na colônia indiana, com forte crítica ao imperialismo. Nos dois anos posteriores, ele escreve mais dois romances.

Dias na Birmânia

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A Filha do Reverendo é o livro mais experimental de Orwell, que nem mesmo chegou a ser revisado pelo autor, publicado em 1935. Já A Flor da Inglaterra, de 1936, é um romance de teor crítico ao capitalismo que recebeu uma adaptação para o cinema, intitulado Keep the Arpidistra Flying (sem tradução para o português), em 1997, e estrelado por Richard E. Grant e Helena Bonham Carter.

A flor da Inglaterra

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Além de livros, Orwell escreveu centenas de artigos, ensaios, resenhas e críticas literárias para jornais e revistas inglesas e americanas. Na época, ficou mais conhecido pelos escritos ensaísticos do que pelos romances, caracterizados pela aguda observação do mundo e, ao mesmo tempo, um combate incansável contra a hipocrisia política e a covardia intelectual.

Segundo o crítico literário americano Irving Howe, Orwell era “o melhor ensaísta inglês desde William Hazlit, e até mesmo desde Samuel Johnson” (na Revista Newsweek – George Orwell – as the bones know, 1969), ambos escritores ingleses do século XIX.

Alguns desses artigos e ensaios estão reunidos nas coletâneas Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios e Dentro da Baleia e Outros Ensaios. Na primeira coletânea, estão relatos e reflexões de Orwell sobre sua vivência como sem-teto, colhedor boia-fria de lúpulo, presidiário e paciente de um hospital público. Mostrando os múltiplos interesses do autor, os artigos falam sobre o uso da linguagem verbal no romance, na poesia, na propaganda política e no jornalismo.

Débora lembra, porém, que as traduções para o português ainda não abrangeram toda a obra de Orwell, que soma – entre romances e ensaios – o total de 11 livros publicados na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Como morrem os pobres e outros ensaios

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Imprimindo seu estilo literário

Tanto nos romances quanto em suas publicações em jornais, o que se depreende da obra de Orwell é sempre um relato de suas experiências, um retrato da pobreza, com alto teor crítico social. Isso lhe conferiu uma visão nova e diferente do mundo na época, criando para ele uma identidade e um espaço no mundo literário. É nesse período que começa a tomar forma o estilo literário que vai predominar por todos os seus trabalhos: a escrita política.

O romance O Caminho para Wigan Pier é o primeiro exemplo mais explícito desse estilo. Na primeira parte, ele relata as condições precárias de vida dos trabalhadores das minas de carvão de Lancanshire e Yorkshire, no norte da Inglaterra, antes da Segunda Guerra Mundial. O autor reflete sobre a liberdade no socialismo e, ao mesmo tempo, ataca as formas organizadas desse sistema na classe média inglesa. Na segunda parte, aparece um ensaio mais teórico sobre a relevância do socialismo na melhoria da condição de vida de trabalhadores e sobre as relações entre a metrópole imperial britânica e suas colônias na Ásia.

O Caminho para Wigan Pier

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Dando sinais de que já estava preparado para os clássicos que estavam por vir, Orwell expõe de maneira amarga – e algumas vezes sarcástica – o preconceito de classe, principalmente da classe média com relação à classe trabalhadora; as fragilidades e inconsistências da esquerda intelectual bem-nascida; o culto à máquina; o ressentimento; a arrogância linguística e incapacidade de foco em questões básicas.

Rumo a Revolução dos Bichos e 1984

Um novo evento histórico marca a vida de Orwell em 1937 e influencia seus rumos literários. Estoura a Guerra Civil Espanhola e ele se afilia ao POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista), em Barcelona. O escritor, porém, leva um tiro na garganta (que compromete sua voz pelo resto da vida) e tem que retornar à Inglaterra. É nessa época,  em 1938, que ele publica o célebre Lutando na Espanha, sobre sua experiência de batalha. Segundo Débora Antunes, é com esse livro que Orwell completa sua ruptura com a esquerda ortodoxa – antes iniciada em O Caminho para Wigan Pier – ao criticar as posições socialistas ortodoxas britânicas.

Para se recuperar do ferimento, Orwell vai para o Marrocos e escreve um romance e cartas sobre a possível formação de uma esquerda underground antiguerra como a única alternativa ao fascismo na Inglaterra. É nesse mesmo período, porém, que se inicia a Segunda Guerra Mundial. Orwell interrompe seus projetos de formação política e passa a ser correspondente de transmissões de rádio para a BBC entre 1941 e 1943.

Depois da morte da mãe, em 1943, o escritor abandona a Home Guard (Organização de Defesa do Exército Britânico durante a Segunda Guerra) e começa a escrever o famoso A Revolução dos Bichos, que foi rejeitado por várias editoras até ser publicado em 1945, com o final da guerra.

A Revolução Dos Bichos

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Em 1947, com a saúde fragilizada por causa de uma tuberculose, escreve o primeiro rascunho de 1984 num retiro na costa da Escócia, que foi publicado dois anos depois. Winston, o personagem central da obra, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada um vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão. Winston é membro do partido externo e funcionário do Ministério da Verdade. Sua função é reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido.

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O título do seu livro mais famoso ainda é um mistério. Segundo reportagem publicada pelo jornal inglês Observer, alguns críticos dizem que ele estava fazendo alusão ao centenário da Sociedade Fabiana, fundada em 1884. Há ainda outras hipóteses, como uma aproximação com o romance The Iron Heel, de Jack London (no qual o movimento político veio ao poder em 1984), mas também pode ser uma alusão a uma das histórias de seu escritor favorito, GK Chesterton, The Napoleon of Notting Hill, que se passava em 1984.

O jornal ainda ressalta que na edição Coleções de Trabalho (20 volumes), Peter Davison nota que a publicação americana de Orwell sugere que o título surgiu por meio da inversão da data (1948), embora não haja provas ou evidências. O livro também chegou a ter um título provisório – O Último Homem da Europa –, mas o editor de Orwell, Fred Warburg, foi quem sugeriu que 1984 teria mais apelo comercial.

A obra tornou-se um sucesso de vendas e rendeu bons lucros ao escritor. Em janeiro de 1950, ele faleceu por causa da tuberculose.

Qualquer semelhança com o personagem de Ian McEwan é mera homenagem.

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