Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.07.2013 10.07.2013

Geoff Dyer: da vivência ao ensaio pessoal

 
 
 
 
 
Por Maria Fernanda Moraes
 
Em 2009, alguns visitantes mais desatentos chegaram a se espantar com um senhor elegante que circulava pelas ruas de pedra de Paraty durante a edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) daquele ano. E quando digo elegante, refiro-me ao traje completo, com direito a colete, paletó e chapéu, sempre em cores claras, numa tentativa de se ambientar ao clima de cidade à beira-mar. Era ninguém mais, ninguém menos do que Gay Talese, um dos maiores expoentes do new journalism, ou jornalismo literário, que participara de uma mesa na festa daquele ano.
 
Quatro anos depois, uma cena semelhante ocorreria. Um dia antes de me encontrar com o escritor inglês Geoff Dyer para a entrevista, esbarrei com ele em lugares dos mais triviais que se possa imaginar pela cidade, desde uma famosa sorveteria na Praça da Matriz, até passeios descompromissados pelas ruas de pedra irregulares e mesas de seus colegas convidados na Tenda do Telão.
 
A verdade é que essa não é exatamente apenas uma coincidência. Geoff é considerado hoje um dos maiores representantes do que se convencionou chamar de ensaio pessoal, um desdobramento do gênero tradicional que fugiu um pouco dos padrões acadêmicos e tem ganhado ares confessionais e experiências pessoais dos escritores, assemelhando-se ao new journalism em alguns pontos, mas com acréscimo de detalhes ficcionais.
 
Essas incursões pelos locais que visita fazem parte do processo criativo do escritor. Foi assim no livro Ioga Para Quem Não Está Nem Ai, que traz narrativas inusitadas de viagem, durante o tempo em que fazia matérias como correspondente para importantes jornais do mundo. Ou ainda na obra Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, narrativas que escreveu enquanto acompanhava sua esposa em eventos de arte pelo mundo.
 
Em Todo Aquele Jazz, publicado recentemente no Brasil, ele escolhe oito músicos jazzistas (Duke Ellington, Lester Young, Thelonious Monk, Bud Powell, Ben Wesbter, Charles Mingus, Chet Baker e Art Pepper) e narra a vida de cada um a partir de fotografias antigas e de vivências nos lugares onde essas histórias aconteceram. Geoff passou, por exemplo, alguns meses em Nova Iorque para se "contaminar" por aquela atmosfera onde seus retratados viveram as grandes histórias que ele narra no livro. Entretanto, o escritor toma certas liberdades em alguns pontos, não se prendendo à realidade estrita dos fatos.
 
O autor costuma dizer que, em Todo Aquele Jazz, ele iniciou o que chama de “vida de penetra literário", ou seja, alguém que se mete num assunto que não conhece muito bem. “Eu não tenho afinidade com nenhum instrumento, nunca toquei. Pra mim, é como aprender línguas, nunca tive essa aptidão. Mas gosto de escrever sobre coisas que não conheço justamente por isso, por esse desafio. Essa minha ignorância musical faz com que eu consiga sentir a música e os instrumentos de outro jeito. Acho que isso está associado ao ensaio também, que traz uma ideia para mim de não especialização”.
 
Perguntei a ele se a escolha daqueles personagens do jazz em detrimento de outros que poderiam ser uma escolha mais óbvia (e mais conhecidos do grande público, como Charlie Parker ou Miles Davis) tem alguma relação com as possíveis liberdades ficcionais que ele poderia ter durante a narrativa. Geoff contou que sempre gostou de música e que, na época em que escreveu o livro, seu músico favorito era John Coltrane. “Ele era como um deus para mim, uma religião. E isso, estranhamente, me impedia de escrever sobre ele. Já o Miles, por exemplo, ainda estava vivo, então ficava mais difícil mesmo. Além do mais, ele é o tipo de cara que merecia um livro só dele. Mas as pessoas que aparecem na narrativa são músicos dos quais eu realmente gostava. São pessoas que levaram suas vidas de um jeito que pediam para serem contadas, sabe?”.
 
O livro foi lançado no exterior em 1991, quando o escritor tinha 30 anos; por isso ele o define como uma obra jovem,  um “livro confiante”. “É uma coisa meio estranha de se dizer, mas quando você é jovem, tem muito mais confiança. Acho que eu não conseguiria escrevê-lo hoje. Aquela narrativa tem um  lirismo que acho que se esgotou na minha escrita".
 
Ele também observou que a internet mudou a maneira como as pessoas pesquisam e aprendem sobre um determinado tema, diferentemente do método usado por ele na pesquisa da obra. "Acho que hoje eu não conseguiria escrever o livro dessa mesma maneira. Eu poderia matar minha curiosidade sobre aqueles músicos com apenas uma navegada no YouTube, por exemplo. Hoje em dia estão disponíveis entrevistas e gravações antigas incríveis com esses músicos".
 
As epígrafes dos seus trabalhos são uma parte curiosa do seu processo de escrita. Em Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, há uma citação de Jorge Luís Borges, que era um tipo de escritor que não usava muito suas experiências práticas para escrever, enquanto Geoff tem esse método mais sensorial. “Apesar de o meu processo de escrita ser o oposto do de Borges, acredito que todo ensaio envolve algum tipo de viagem, de jornada. Não necessariamente física, mas um mergulho, uma imersão, uma espécie de viagem epistemológica”.  
 
Já a epígrafe de Todo Aquele Jazz traz uma citação de Theodor Adorno, que já criticou ferozmente o jazz. “Eu acho o Adorno fantástico, mas sobre jazz… ele não sabe nada [risos]”, disse Geoff.
 
Quando a entrevista já estava se encaminhando para o fim, a assessora veio interromper e avisá-lo sobre o tempo. Ela apontava para o relógio e dizia: "The boat, the boat", o que arrancou um riso faceiro, como o de quem iria fazer algo pela primeira vez: um passeio de barco pelas praias de Paraty.
 
Quem sabe não vem daí alguma inspiração para uma história em terras brasileiras?
 
 
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