Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.12.2012 14.12.2012

Garranchos revela os outros lados de Graciliano Ramos

Por Andréia Silva
 
Em meio às reedições em homenagem aos 120 anos de Graciliano Ramos, celebrados em 27 de outubro, um livro em especial traz ao leitor um novo lado do escritor e autor de Vidas Secas. Garranchos, livro organizado por Thiago Mio Salla, recupera textos da época do Graciliano cronista e apresenta outras facetas do escritor, como autor de teatro, escritor para o público infantojuvenil e militante.
Ao longo de sete anos, Salla fez um trabalho de garimpeiro em busca de textos inéditos do autor. Pesquisou em arquivos, bibliotecas, colheu pistas nas bibliografias das extensas obras já produzidas por e sobre Graciliano, e revirou manuscritos e periódicos até chegar aos 81 que compõem o livro.
“Os textos recolhidos em Garranchos revelam um Graciliano mais atuante e participativo que, ao se defrontar com as principais questões literárias e sociais de seu tempo, toma partido. Como os escritos reunidos na obra foram produzidos em épocas e lugares distintos, observamos que o escopo de sua ação vai se ampliando, seja colocando-se a favor do romance nordestino de 1930, seja militando no Partido Comunista do Brasil, posiciona-se abertamente frente aos grandes debates artísticos e políticos em torno da construção do país”, diz Salla.
A incursão teatral de Graciliano é mostrada no texto do primeiro ato da peça Ideias Novas, de 1942, uma comédia de costumes tendo uma cidade do interior nordestino como pano de fundo. Não se sabe por que o autor não deu continuidade à empreitada teatral. Já o lado militante é visto em 30 textos produzidos na época em que ele se filiou ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 1945, entre artigos, discursos, manifestos.
O nome Garranchos é uma referência a uma das colunas que Graciliano assinava no jornal O Índio, no interior de Alagoas. Sempre propondo uma conversa com o leitor e assinando com o pseudônimo “X”, nessas colunas Graciliano costumava falar dos problemas locais – levanta o tema do analfabetismo, que muito o preocupava – e mostrava certa humildade para com seu talento literário, como quando diz que para o leitor que sofre de insônia, seu texto serviria como “melhor narcótico” ou, ainda, quando diz “Essa seção ainda não trouxe aos seus olhos futilidades e coisas inúteis”.
“Estive no meio de uma gente, que, para dormir, não era preciso mais que a minha presença! Ora, se a presença de uma criatura é bom narcótico, claro está que o que ela escreve o será ainda melhor” (Graciliano Ramos, Garranchos, p. 56)
O título ainda traz outras justificativas. “O termo ‘garranchos’ traduz bem a rispidez do artista, bem como o recorrente tom autocrítico que ele dirigia contra seus próprios textos (sobretudo contra aqueles publicados na imprensa). Em termos mais conceituais, além de letra mal traçada, ‘garranchos’ também significa ramos de uma árvore. Se levarmos adiante a metáfora botânica sugerida pela etimologia do vocábulo, abre-se a possibilidade de considerarmos os textos reunidos nesta nova obra como galhos tortos da obra ficcional e memorialística de Graciliano”, diz Salla.
 
Com um contexto variado devido aos diferentes períodos que os textos abraçam, de 1910 a 1950, o livro vem repleto de notas, o que facilita a compreensão do leitor destoado do tempo. Leitores mais fervorosos dizem que ler Graciliano sem referências contextuais é praticamente uma missão impossível. Por isso, Salla justifica as centenas de notas como uma forma de aproximar o leitor do escritor.
 
Somam-se a essa heterogeneidade na obra do autor outras peculiaridades, como suas diferentes assinaturas (desde nomes como Ramos Oliveira ou Ramos de Oliveira, ou ainda RO, até pseudônimos como Lúcio Guedes, X, J.C.). Só depois de 1931, ao anunciar a publicação de seu primeiro romance, Caetés, na revista Novidade, é que Graciliano passou a assinar com o nome pelo qual seria mais conhecido.
 
“O que mais aprecio na literatura de Graciliano é a dimensão humana e a mestria de sua obra, na qual se mesclam o rigor formal e o tratamento de temas de caráter social que, ainda hoje, marcam o caráter conflitante da realidade brasileira. Dessa mistura entre contenção (formal) e revolta (temática), o escritor encontra sua força”, comenta Sallas, que diz que com Garranchos, praticamente encerra a publicação de textos inéditos de Graciliano.
A capa do livro Garranchos
 
“Praticamente” porque ainda restam inéditos, em livros, cerca de 60 poesias e sonetos (encobertos pelos mais diferentes pseudônimos: Almeida Cunha, S. de Almeida Cunha, Soeiro Lobato, Feliciano de Olivença e Feliciano Olivença) publicados entre 1907 e 1913, e produzidos quando o autor era mais jovem, entre 1904 e 1906. Sem contar as poesias proibidas pelo próprio de serem publicadas. Essa faceta de poeta talvez seja a única que permaneça mais bem guardada, mas que não deixa a compreensão de sua obra incompleta.
E como em 2013 completam-se 50 anos da morte do autor (20 de março), com uma obra tão vasta, difícil é imaginar que nada novo será trazido ao público.
 
REEDIÇÕES DOS 120 ANOS DE GRACILIANO
A editora Globo reeditou Graciliano – Retrato Fragmentado, escrito pelo filho do autor, Ricardo Ramos. Originalmente lançado em 1992, na celebração do centenário de Graciliano, o livro traz uma biografia feita por memórias e observações pessoais do filho. “Graciliano não é uma personagem inteiriça, compacta, quase olímpica, sem a menor sombra de conflito ou dúvida. Não é criatura rude, sertanejo primitivo e pitoresco, o autodidata que certo dia simplesmente resolveu escrever. Não é um partidário, cego seguidor da regra política. Não é tampouco o intelectual cooptado, que teve de se adaptar às regras ditatoriais do Estado Novo”, escreve Ricardo. A nova edição vem com manuscritos inéditos e prefácio de Silviano Santiago.
 
Já a Boitempo lança uma edição ampliada e atualizada de O Velho Graça, biografia assinada por Dênis de Moraes. Além de preservar o prefácio original de Carlos Nelson Coutinho, a nova edição conta ainda com um texto inédito de Alfredo Bosi para a orelha, cinco entrevistas até então inéditas de Graciliano e uma carta que o escritor redigiu em 1938, endereçada a Getúlio Vargas, mas que nunca enviou. Graciliano foi preso pelo regime do Estado Novo de Vargas, e, na carta, de uma lauda, chega a chamar o ex-presidente de “meu colega de profissão”, já que Vargas tinha entrado na Academia Brasileira de Letras com um livro de discursos.

 

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