Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 14.06.2013 14.06.2013

Garfield chega aos 35 anos esbanjando bom-humor e vitalidade

Por André Bernardo
 
O cartunista Jim Davis pode ser considerado um herói da resistência. Da geração de ouro das tirinhas de jornal, o “pai” do Garfield é o único que, aos 68 anos, se mantém em atividade.
Para se ter uma ideia, veja o caso de dois de seus contemporâneos mais famosos. Bill Watterson, o criador de Calvin & Haroldo, se aposentou em 1995, aos 37 anos, e Charles Schulz, de Charlie Brown & Snoopy, passou dessa para melhor em 2000, aos 78. “Prefiro pensar que continuarei sendo engraçado aos 90 anos, mas a gente nunca sabe, não é verdade?”, indaga Davis, de Marion, Indiana (EUA), onde nasceu e vive até hoje. “Se depender de mim, eles terão que tirar o lápis da minha mão fria e morta”, graceja.
Mais do que nunca, Davis tem motivos de sobra para comemorar. O gato mais preguiçoso, comilão e egoísta das HQs chega aos 35 anos de idade – comemorados no próximo dia 19 de junho, data de publicação da primeira tirinha – esbanjando sarcasmo e vitalidade.
Naquele ano, as tirinhas de Garfield eram publicadas em “apenas” 40 jornais. Atualmente, esse número subiu para 2.100 periódicos. “Garfield é do tipo que não dá satisfação para ninguém do que faz ou do que deixa de fazer. Enquanto as pessoas vivem repetindo ‘Faça exercícios’, ‘Perca peso’ ou ‘Reduza o colesterol’, Garfield limita-se a dizer: ‘Vamos lá! Coma mais essa rosquinha! ’”, diverte-se.
Brincalhão, Davis diz que, se não tivesse sofrido de asma na infância, hoje em dia seria fazendeiro. Quando garoto, passou boa parte do tempo em casa, na cama. Para o filho não se sentir isolado, Betty comprava lápis de cor e o encorajava a desenhar. “Mantenha-se ocupado!”, dizia ela. Já adulto, ganhou fama e fortuna ao criar um gato para lá de roliço, inspirado nos 25 felinos que viviam no rancho de seus pais. Na hora de batizar o bichano, homenageou o avô, James Garfield Davis, um sujeito de “aparência rude e coração mole”. “Eu e Garfield somos um tanto parecidos. Nós dois amamos as coisas boas da vida, como ver TV, tirar soneca e comer lasanha”, admite.
Garfield é um autêntico anti-herói: comilão, preguiçoso e egoísta. Como você explica o sucesso dele?
 
Davis. Acho que o fato de o Garfield ser um gato ajuda bastante. Pelo mundo afora, existem milhões de pessoas que são apaixonadas por gatos. Além disso, Garfield é do tipo que não dá satisfação para ninguém do que faz ou deixa de fazer. No fundo, no fundo, as pessoas sentem um pouquinho de inveja dele…
Segundo estimativa do Guinness, as tirinhas do Garfield são lidas, todos os dias, por um público estimado de 220 milhões de pessoas. Que cuidados você toma na hora de produzi-las?
 
Davis. Quando escrevo uma piada, tento imaginar como ela será traduzida para outras línguas. Se eu acho graça dela, é provável que outras pessoas também achem. Por isso, gosto de tratar de temas universais, como comer e dormir. E evito ultrapassar a fronteira do bom gosto. Fazer comédia pastelão costuma funcionar bem, porque é um gênero de fácil entendimento. 
 
Só no Brasil, os personagens de Jim Davis já deram origem a mais de 200 produtos, como roupa, comida e brinquedo

Hoje em dia, você já dispõe de uma equipe para ajudá-lo a produzir as tirinhas, certo? Mesmo assim, ainda gosta de dar ideias ou desenhar os personagens?

 
Davis. Sim, com certeza! Não há um dia sequer que eu passe sem desenhar o Garfield. Ainda hoje, escrevo as tirinhas e faço um rascunho do desenho. Às vezes, as piadas fluem facilmente. Outras vezes, não. Quando tenho um bloqueio criativo, procuro brincar com meus netos. Qualquer coisa que me faça sentir criança novamente vale a pena nessas horas.
Certa vez, você e Charles Schulz trabalharam juntos em um estúdio de gravação em Los Angeles, não é mesmo? Como foi essa experiência? Alguma lembrança em especial?
Davis. Aprendi muito vendo o “Sparky” [apelido de Schulz] trabalhando… Os desenhos dele eram simples, limpos. Além disso, ele usava o mínimo possível de palavras nas tirinhas. Nesse dia em especial, “Sparky” me deu uma dica valiosa. Disse a ele que estava com dificuldade para fazer o Garfield dançar. Ele sugeriu que eu desenhasse pés maiores e os tirasse de sintonia. Deu certo! Tenho vários ídolos, mas Charles Schulz é certamente o maior deles.
Só no Brasil, Garfield já deu origem a mais de 200 produtos, de bichos de pelúcia a álbuns de figurinha, de fraldas descartáveis a mochilas escolares. Quais os critérios de aprovação de um produto?
 
Davis. Antes de qualquer coisa, espero que o produto seja divertido. Embora eu seja exigente no que diz respeito a manter o estilo do Garfield, admito que, nos últimos anos, tenho permitido um design mais arrojado. Quero que Garfield seja reconhecido pelo público, mas não vejo problemas em brincar com o design dele.
De vez em quando, Marvel e DC promovem “crossovers”, misturando personagens como Superman e Homem-Aranha. Você nunca pensou em fazer algo parecido com Charles Schulz ou Mort Walker?
 
Davis. Sim, claro! Em 1997, fizemos algo do gênero. Mike Peters trocou de lugar com Lynn Johnson, Scott Adams com Bill Keane, e assim por diante. Na ocasião, eu desenhei Blondie, e Dean Young, o Garfield. Anos depois, fiz uma tirinha onde o Garfield contracenava com as Tartarugas Ninjas. Esses “crossovers” são divertidos de fazer. Infelizmente, não é algo que se faça com frequência, porque cada tirinha tem seu próprio público.
Você é avô de quatro netos. Algum deles já demonstrou interesse em seguir a carreira de cartunista?
 
Davis. Toda sexta-feira, meus netos têm aula de desenho comigo. Ainda não sei se algum deles vai querer ser cartunista, porque são todos muito jovens. O conselho que dou a eles é: na hora de escolher uma profissão, escolha algo que você ame fazer. Se você ama o que faz, as chances de ser bem-sucedido serão maiores. E, mesmo que você não seja bem-sucedido, pelo menos será feliz.
 
Jim Davis trabalhando no estúdio
 
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