Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Games 26.08.2014 26.08.2014

Games e literatura: interatividade em ação

Por Carolina Xavier O. Longatti
Games e literatura são universos que dialogam constantemente. Durante a 23ª Bienal, nesta segunda, 25/08, no Espaço Imaginário, aconteceu um bate-papo entre dois especialistas sobre a relação game-literatura: o escritor, editor, tradutor e colunista de games da Folha de S.Paulo, Daniel Pellizzari, e a jornalista e doutoranda (com pesquisa em que um dos temas são os games) Flávia Gasi.
A conversa contou com a mediação de Magno Rodrigues Faria, educador, pedagogo e colaborador da revista Emília. Veja o que esteve em pauta.
TEXTO EM REDE
Muitas pessoas relacionam jogos com combates e pouco enredo, porém eles têm muito mais a oferecer. Como explica Flávia, o elemento textual sempre esteve presente: “Os primeiros jogos [do gênero] Adventure, cujo foco não é o combate, começaram com a narrativa textual, com uma linguagem literária. Na década de 70, antes do surgimento do MMO (Massive Multiplayer Online), um jogo em que milhares de pessoas participam ao mesmo tempo, tinha um game que se chamava MOD, e era todo textual. Os participantes escreviam e era como se tirassem fotos dos textos escritos. Esse jogo era todo baseado no RPG, que por sua vez está diretamente ligado à literatura”.
A NARRATIVA
A narrativa, além da literatura, faz parte de obras produzidas em diversas mídias. Um bom exemplo é o game God of War, cujo assunto principal é a mitologia grega, mas que, contudo, não segue de perto a narrativa original: “Ele utiliza personagens e alguns fatos principais contados pela mitologia, mas não segue de perto essas narrativas. Existe uma adaptação das histórias”, completa a jornalista.
A obra literária trabalha com elementos que estão presentes nos games: “A literatura é um aprofundamento dos games, mostra o mundo dos games de forma maior. A maioria dos game designers explora livros que os inspiram para montar o jogo. Também há o caminho contrário, em que os games são utilizados como inspiração para a narrativa de um livro, porém isso ainda é pouco explorado”, enfatiza Flávia.
                                                                                                       Divulgação Bienal
O escritor, editor, tradutor e colunista de games da Folha de S.Paulo, Daniel Pellizzari
AS CRIANÇAS E OS GAMES
Outro aspecto importante sobre os games é a relação que a criança tem com eles e a contribuição que podem ter para o desenvolvimento da leitura e do aprendizado.
No que diz respeito ao desenvolvimento do interesse pela leitura em crianças, Daniel aponta aspectos positivos: “Os games possibilitam esse interesse, pois desenvolvem uma relação de empatia, ou seja, a pessoa se coloca no lugar do personagem, e a criança acaba criando um envolvimento que pode ser canalizado para a leitura de um livro que trate daquele assunto do jogo, da sua ambientação, etc.”.
Aliás, o próprio Daniel revela que começou a aprender inglês para conseguir traduzir manuais de jogos: “E até hoje existem poucos games em português”, observa.
JOGOS E DIVERSÃO
Diversão e violência são temas recorrentes quando o assunto são os games. Para Daniel, os jogos não têm que necessariamente divertir: “O jogo não tem que ser divertido, essa não é apenas a função dele, apesar de estar implícita na palavra ‘jogo’ o sentido de diversão. The Cat Lady, por exemplo, é um jogo sobre depressão e suicídio, e é importante que os games também lidem com temas desagradáveis”.
Segundo Flávia, os jogos bons são aqueles que conseguem provocar algo em alguém.  No entanto, o julgamento da qualidade de um game varia de pessoa para pessoa: “O jogo fica a serviço do jogador, criando uma experiência diferente para cada um”, ressalta.
CARREIRA PROMISSORA
Para quem quer trabalhar nessa área, o mercado de jogos eletrônicos tem se mostrado promissor, porém carente de profissionais. “Hoje no Brasil faltam bastante profissionais disponíveis para criar roteiros e também designers de cenários (aqueles responsáveis pelas ambientações dos games). A maioria das pessoas criativas dessas áreas vai para o desenvolvimento de aplicativos para celulares, e não para os games”, destaca Flavia.
Daniel já se aventurou por esses caminhos, pois, além de ser colunista especializado na área de games, também já escreveu alguns jogos:  “Eu já escrevi adventures, mas o que mais gosto é jogar e fazer comentários sobre esse mundo”, ressalta.
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