Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.03.2014 18.03.2014

Gail Carriger faz o gênero Steampunk dar risada

Por Maria Fernanda Moraes
 
Se alguém dissesse hoje a uma menina de 25 anos que ela é uma “jovem senhora” ou ainda “uma solteirona”, ela soltaria uma gargalhada. Coisa que provavelmente seria impossível para a mesma jovem se vivesse na Era Vitoriana (meados do século 19, de 1837 a 1901). Primeiro, porque as mulheres sofriam uma grande opressão e uma gargalhada não seria considerada de bom grado para meninas de bons modos. E, segundo, porque a roupa e o espartilho apertados não permitiriam tal ousadia física.
 
Mas esse não é exatamente o tipo de comportamento de Alexia Tarabotti, protagonista do livro Alma? (Ed. Valentina), da escritora norte-americana Gail Carriger. A personagem também protagoniza os outros livros da série O Protetorado da Sombrinha (o segundo, Metamorfose?, também já foi lançado no Brasil). Alexia vive no século 19, é filha de um italiano, tem 25 anos (já sendo classificada como uma senhora para os padrões da época) e tem inteligência e erudição comuns somente aos homens da época. Ela é considerada uma preternatural, ou seja, um ser que não tem alma, e isso lhe dá poderes especiais.
 
O que salta aos olhos logo no primeiro capítulo de Alma? é o bom humor com que a personagem lida com as situações. Durante um baile da sociedade – eventos que ela não vê graça alguma –, foi atacada por um vampiro. A narrativa leve funciona como uma máquina do tempo e imediatamente o leitor se vê como testemunha ocular do século 19, tomando o cuidado para não atrapalhar as cenas com os risos que cada episódio pode arrancar:
 
“Então, apesar de abominar a violência, a Srta. Tarabotti se viu obrigada a agarrar as narinas do degenerado – uma parte delicada e sensível do corpo – e a empurrá-lo. Ele tropeçou no carrinho de chá derrubado, perdeu o equilíbrio de um jeito surpreendentemente deselegante para um vampiro e despencou no chão. Caiu estatelado em cima da bandeja com torta de melado.
A jovem sentiu grande desânimo. Adorava torta e viera ansiando comer justamente aquela, inteirinha.”
 
A série, que está entre as mais cultuadas do gênero Steampunk, mistura os hábitos sociais e personagens históricos da Era Vitoriana a seres sobrenaturais como vampiros e lobisomens, que convivem com humanos num enredo divertido.
 
Para quem se pergunta de onde veio o senso de humor apurado de Alexia, basta dar uma espiada no site de Gail para descobrir a resposta. Até a temida seção “Sobre mim” já denuncia a proposta da autora: fazer rir. É lá que ela conta que começou a escrever para suportar as agruras de ser criada na obscuridade por uma britânica expatriada e um rabugento incorrigível. Confira o bate-papo que tivemos com ela:
 
Você é uma arqueóloga e, de certa forma, a Arqueologia e a escrita têm várias coisas em comum. Você concorda com essa comparação? De alguma forma, isso facilitou seu caminho na escrita?
 
Gail Carriger. Eu concordo sim. Acho que a Arqueologia me deu muitas habilidades que eu ainda uso como escritora. Em geral, a Arqueologia é muito meticulosa e exige que você seja organizada. Essas coisas me ajudaram muito em relação ao lado empresarial da carreira de escritora, como ser diligente com os prazos de entrega.
 
Considerando a popularidade que os seres sobrenaturais têm na literatura hoje em dia, como foi escrever sobre isso de um ângulo diferente?
 
Gail Carriger. Para mim não é nada difícil, em parte porque eu tenho um cérebro meio científico, sabe? Eu penso em como esses seres seriam biológica e cientificamente. E apenas pelo fato de pensar nessas mágicas e puras criaturas desse jeito, parece que fui contemplada com um certo privilégio de imaginar como eles funcionam de uma forma diferente. Além de eu olhar para eles com a mentalidade de uma pesquisadora da Era Vitoriana, mas trazendo-os para uma fantasia mais moderna. Isso me ajuda a unir essas coisas.
 
No primeiro livro da série O Protetorado da Sombrinha, os leitores conhecem a protagonista Alexia
No segundo volume, Alexia já é casada com o Conde de Woolsey, que desaparece e dá início à trama   
 
A Arqueologia surgiu na Era Vitoriana. Isso influenciou sua escolha dessa era como pano de fundo dos seus livros?
 
Gail Carriger. Sim, com certeza. A Arqueologia, como disciplina, é relativamente nova. Eu li muito sobre ciências sociais e outras ciências que já existiam nesse período antes de começar a escrever. Então, posso dizer que fui “preparada” para escrever Steampunk, já que eu estudava muito sobre isso na minha graduação.
 
Uma das principais características da Alexia é o senso de humor. Porém, na literatura Steampunk, isso não tem sido muito comum nos últimos anos. Você considera isso um diferencial?
 
Gail Carriger. A minha intenção nunca foi distinguir meu trabalho do Steampunk porque, na verdade, quando comecei a escrever, eu nem sabia que a minha literatura se encaixaria nesse gênero. Então, não foi algo muito consciente. Mas a questão do humor é sim feita conscientemente, assim como muitas escritoras na ficção em geral já fazem. E minha intenção, nesse sentido, é justamente escrever algo que faça as pessoas sorrirem e as façam felizes. Eu quero colocar as pessoas do mundo todo em contato com o humor.
 
Há alguma figura histórica que você já tenha imaginado como sobrenatural mas ainda não incluiu em seus livros?
 
Gail Carriger. Oh, sim, há muitas! Eu costumo escolher personagens históricos não muito conhecidos, simplesmente porque é mais engraçado trabalhar com eles. Eu gosto também, particularmente, de figuras que eram poderosas na sua época, mas perderam terreno em nossos ensinamentos educacionais atuais. Há muitas figuras do reinado da rainha Elizabeth que me atraem e também tenho histórias sobre seres humanos manipulados na Grécia, por exemplo, ou no Egito. Eu amo História e o fato de se poder brincar com todas essas riquezas do mundo histórico.
 
A linguagem dos seus livros soa mais contemporânea do que os romances vitorianos. Esse paradoxo é proposital, considerando seus leitores jovens?
 
Gail Carriger. Eu não sei se quando você lê os livros a partir de uma tradução isso é perceptível ou não, mas, quando eu escrevo, tento ser moderna, sem excessos, aliando um pouco da gramática, da estrutura das sentenças e do vocabulário à moda antiga. Eu tento escrever de uma maneira que seja fácil de se ler, como, por exemplo, criando parágrafos curtos, descrições na medida, e tento evitar a purple prose (texto mais extravagante), que era muito comum naquela época. A ideia não é imitar o tipo de literatura que se tinha, mas sim fazer uma espécie de paródia. Recebo muitos e-mails de leitores contando que aprenderam uma nova palavra e, na verdade, seria uma “palavra muito antiga”. Mas eu não quero dificultar as coisas para os meus leitores, quero fazer as pessoas se divertirem, não quero que pareça trabalhoso ler meus livros.
 
Sobre o gênero nos seus livros: o feminismo é um traço presente na sua protagonista, acompanhado sempre do seu senso de humor peculiar. Apesar de o livro se passar na Era Vitoriana, algumas dessas situações sexistas ainda acontecem hoje em dia. Você considera importante tratar desse tema com o público jovem?
 
Gail Carriger. O prazer da minha escrita está em usar o humor e fazer as pessoas riem. Então, eu posso escrever sobre uma protagonista muito forte, especialmente numa sociedade que oprime as mulheres, mas, ao usar o humor, eu desmistifico isso, torno-a mais engraçada, como se assim as pessoas me permitissem ir mais longe, sabe? Eu considero muito importante tratar de temas como esse com meu público, mas faço isso de modo natural, já que estou rodeada de mulheres fortes assim: minha mãe, minha avó e eu somos assim. E acho que isso foi moldando meu trabalho. Gosto de escrever sobre o que me interessa. Assim como os personagens homossexuais das minhas obras são um reflexo de eu ter crescido numa cidade liberal como São Francisco… São coisas naturais do meu universo. Eu sinto uma responsabilidade de apresentar bons modelos para os meus leitores, mas a minha responsabilidade primária é entreter as pessoas. Então, se eu conseguir unir as duas coisas, melhor ainda!
 
A moda é um dos elementos importantes nas suas histórias, e há, inclusive, uma seção no seu site dedicada a ela. É um interesse pessoal na sua vida?
Gail Carriger. A moda é uma das minhas paixões, principalmente a moda retrô. Acho que uma das coisas que me chamaram a atenção no Steampunk é a força das roupas, as pessoas sempre bem vestidas. É muito legal ver alguém vestido como antigamente – as meninas são a maioria, mas é legal também um menino com o traje completo da época. As pessoas sempre me perguntam se eu me visto assim em casa, onde encontro essas roupas, se vou criar outro blog de moda… Mas eu já uso meu blog para falar sobre a moda que aparece nos meus livros. Sou fascinada pelo fato de que uma roupa pode influenciar a nossa percepção sobre uma cultura.
 
 
 
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