Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 28.09.2011 28.09.2011

Gabriel Bá e Fábio Moon contam sobre a vida e a morte em ‘Daytripper’

Por Sarah Corrêa
Na foto, Fábio Moon e Gabriel Bá
 
Ainda bem que um dos gêmeos resolveu fazer a barba. Assim, ficou mais fácil de acertar quem era o Fábio Moon e quem era o Gabriel Bá. Aos 35 anos, os dois passam o dia trabalhando. “Aos finais de semana, também estamos aqui. Mas ficamos um pouco menos, não é como as 14 horas diárias durante os dias normais”, comenta Fábio.
A cachorra Tróya, uma simpática vira lata de 10 anos, acompanha em silêncio o trabalho dos “pais”, que ficam quietinhos, concentrados apoiados em suas pranchetas.
Fábio prefere o pincel e o naquim. Gabriel gosta de rabiscar com caneta. O silêncio é interrompido quando o vento faz tilintar o móbile de sininhos pendurado próximo à enorme parede de vidro com uma porta entre aberta, ao fundo do estúdio, ou quando os gêmeos mostram um para o outro a produção que está saindo de suas cabeças.
Sobre uma das pranchetas, o rascunho da tirinha que será publicada neste próximo sábado (1), no caderno Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo. “’Vai para perto ou para longe?’. ‘ Vou até o limite da paixão’. ‘Longe’”, conta os primeiros diálogos da tirinha. E é neste tom que os gêmeos levam seus dias, distantes, mergulhados em seu mundo, correndo atrás dos limites da paixão pelos quadrinhos.
E foi deste modo, em uma casa cercada por árvores e com um clima bucólico, no bairro da Vila Madalena, que eles desenvolveram sua história mais recente, o Daytripper – vencedor do Oscar dos quadrinhos, o Eisner, e primeiro lugar dos mais vendidos no The New York Times.
 
Uma das ilustrações para Daytripper
Levou dois anos e meio de dedicação e disciplina. A seguir, em entrevista exclusiva para o SaraivaConteúdo, os quadrinistas dissecam todos os passos de criação e concepção de Daytripper, e mostram porque são tão respeitados internacionalmente.
 
Primeiro, o nome do livro, Daytripper, é uma homenagem à canção homônima dos Beatles?
Gabriel Bá. Alguma coisa tem. Tem umas palavras que ganham um significado a mais, depende de onde são usadas. Daytripper é uma delas. Quase todas as pessoas, com um mínimo de conhecimento de cultura pop, vão fazer essa associação. Quisemos usar isso a nosso favor. Tem muito tipo de música que conta uma história, fala de pessoas normais, claro, de uma maneira mais poética, com uma harmonia que envolve, e que sempre influenciou nossas histórias. O visual dos personagens também tem influência do rock e de cultura urbana. O Daytripper, além de ter esta conotação mais leve, mais inocente de um passeio bucólico, tem uma relação do início dos Beatles fazendo experimentações com drogas. Essa coisa de ter mais de uma leitura era algo que a gente queria pra essa história. Foi um título que veio bem a calhar.  
 
Vocês acham que os prêmios recebidos por Daytripper colocaram os quadrinhos nacionais em um lugar privilegiado fora do Brasil?
 
Gabriel Bá. Olha, esta é uma das perguntas mais difíceis de responder. O mercado americano, durante anos, foi muito autosuficiente. Só pensava em si mesmo, só olhava pra si mesmo. Esta coisa de super-heróis lá é muito forte. De vez em quando, eles publicavam algo vindo da Europa, porque o mercado franco-belga é muito forte. Começaram a publicar mangá, porque também fazia parte de outro grande mercado. Mas eles nunca ousaram muito. Porém, a gente foi buscar aquele mercado. Se você fizer um paralelo, é como se um talentoso quadrinista saísse de João Pessoa (Paraíba) e viesse buscar o mercado em São Paulo, porque é aqui que estão as maiores editoras.
 
Então depende muito mais do artista chegar lá do que eles prestarem atenção?
 
Gabriel Bá. Para os Estados Unidos, eles estão lá, preocupados em fazer a coisa acontecer, em vender gibis e ganhar mais dinheiro. Se tem algo que chama muita atenção, que é o caso do mercado francês e japonês, eles vão atrás e podem querer publicar. Senão, o esforço tem que vir de você, que é ir até lá e mostrar o trabalho. E isso a gente fez durante mais de dez anos. Íamos, mostrávamos uma revista independente e livros que publicamos com outros autores. Isso pode facilitar pra um artista que vá até lá e também mostre trabalho. Se for legal, pode ajudar, porque a gente já abriu esta porta. Mas não é porque temos um certo reconhecimento agora que os americanos vão vir até aqui buscar novos nomes.
 
Como esse personagem, o Brás de Oliva Domingos, surgiu para vocês? Como foi o processo de criação deste escritor de obituários?
 
Gabriel Bá. Na verdade, se você pensar bem, pra um cara que escreve obituários, a parte triste é que a pessoa morreu. Mas quando você vai escrever o obituário de alguém, tem que focar na vida, no que a pessoa fez, no que ela deixou, nos filhos. Na verdade, você tenta contar o que ela produziu de bom, o que deixou pra trás, o que marcou na vida dela, ao invés de um simples ‘morreu’.
 
Fábio Moon. Sabe, acho que estamos tentando contar uma história que tenta criar o retrato de alguém. E que é o Brás, pincelando momentos da vida dele. Esta é a relação que temos com o Daytripper, que é como se fizéssemos viagens a momentos da vida dele. E nestes momentos, tentamos mostrar fatos cotidianos que vão criar esse quebra-cabeça que é uma vida de alguém. É mais ou menos isso que um cara que escreve obituários faz.
 
A morte tem um papel importante na história. Mas ela pode ser encarada como um recomeço para o Brás ou um renascimento?

Gabriel Bá. A morte, geralmente, nos faz pensar na vida. Ela mostra a fragilidade da vida e a gente começa a prestar mais atenção. Paramos de viver tão no piloto automático e tão inconsciente. A gente toma consciência desta fragilidade, do que as coisas representam e seu valor. Então, quisemos usar este significado no Daytripper, de pegar a morte e mostrar o valor das coisas mesmo.

 
O convite da Vertigo [selo da DC Comics que lança, entre outros, os títulos adultos e de super-heróis] para lançar o livro foi uma total surpresa?
 
Fábio Moon. Isso foi um processo de anos. Foram anos mostrando as outras histórias que a gente estava escrevendo, mostrando as coisas que a gente tava desenhando. Porque tem estes dois lados na história em quadrinhos: você tem que mostrar o que tem para dizer e ao mesmo tempo que consegue traduzir isso em imagens.
 
E como foi essa “campanha” de vocês no selo?
 

Fábio Moon. Pra ter uma ideia, conhecemos o editor do Daytripper, o Bob Schreck, em 2001. Então, aconteceu uma relação de amadurecimento, confiança e oportunidade. Nesta época, o Bob tinha acabado de sair de uma editora que ele montou, que só editava histórias autorais. Ele foi pra Vertigo, que não combinava com nosso trabalho. No momento que o Bob começou a editar histórias da Vertigo, nosso trabalho também já estava chamando mais atenção. Isso demorou uns cinco, seis anos. Em 2006, o Bob pediu ideias. Mandamos várias. Destas, Daytripper foi a que mais chamou atenção. Depois disso, passamos dois anos e meio fazendo o livro.

Vocês já lançaram outros trabalhos premiados pelo Eisner, inclusive. Mas qual é a característica de Daytripper que, na opinião de vocês, despertou esse interesse e reconhecimento internacional?
 
Gabriel Bá. Quando enviamos a ideia para Vertigo, ela era somente uma semente do que acabou virando a história. Ela poderia ir pra vários lugares. São vários fatores. Conseguimos fazer um trabalho bem feito onde se tem uma boa visibilidade. Isso ajuda a ter uma repercussão boa. A editora fez um bom trabalho quando lançou a série e quando lançou o encadernado. Então, ela acabou criando duas vidas diferentes pra história. Quando o Daytripper saía em série, um monte de gente lia todo mês. Quando saiu o encadernado, foi para muitas livrarias, o que diversificou o público e aí ficamos em primeiro lugar na lista de quadrinhos mais vendidos do The New York Times. Todos estes fatores trabalharam juntos. Os prêmios foram consequência.
 
E o trabalho com o colorista Dave Stewart, como foi?
 

Fábio Moon. Paralelo ao nosso trabalho de desenvolvimento do Daytripper, a gente estava em constante diálogo com o Dave. Mandávamos cartas enormes pra ele explicando qual era a emoção que queríamos em cada cena. Mandamos várias fotos de referência dos lugares que estávamos desenhando para ele ter a noção real de como era. Mandamos paletas de cores com fotos e desenhos para ele ter a exata noção do que a gente esperava que cada cena passasse de emoção. Foi um trabalho bem envolvido e o Dave estava disposto a criar um mundo que contasse a história de Daytripper.

 
Lançamento de Daytripper
28/09/11
Sessão de autógrafos com Fábio Moon e Gabriel Bá
Saraiva MegaStore Shopping Ibirapuera Horário: 19h30
 
 
 
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