Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 27.05.2010 27.05.2010

Futebol nas telonas de cinema

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomas Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Félix ao SaraivaConteúdo

Enfim, o futebol ganha no Brasil um festival de cinemadedicado exclusivamente para ele. O Cinefoot – Festival de Cinema de Futebol ocupa a sala 1 do Unibanco Arteplex, no Rio de Janeiro, a partir desta quinta,27 de maio, até a próxima terça, 1. de junho. E entre 4 e 6 de junho, oCinefoot chega à São Paulo, no Museu do Futebol, Pacaembu, mas sem competição. 

“Acompanhamos os festivais de cinema Brasil afora eobservamos como eles têm sido importantes, pois o país tem pouquíssimas salasde cinema. Temos hoje festivais dedicados à animação, aos filmes ambientais,etnográficos, mas exclusivamente sobre futebol, não tinha”, diz Antonio Leal, diretordo festival. A cinematografia brasileira sobre futebol, além de não muitoextensa, é pouco vista, não chega ao circuito comercial. O festival surge comoespaço para estes filmes serem exibidos, e pretende, ao reunir realizadores einteressados no tema, se tornar um aglutinador, concentrando a produçãobrasileira que se inspira ou usa o futebol como tema. “É importante abrir estajanela para os filmes. E quebrar com o paradigma, assistir ao futebol na telagrande”, acrescenta Leal. 

Ao total, 60 filmes foram inscritos, entre longas-metragense curtas, ficção, documentários, animações e filmes experimentais. Os critériospara a seleção final – com oito longas e 14 curtas – foram a diversidade daprodução acima mencionada, além da busca por um mosaico do que há hoje quandose fala de futebol e cinema, em todo o país. Além destes 22 filmes, o Cinefootabre com o documentário João, sobre aindecifrável figura do jogador, técnico e jornalista João Saldanha. Dirigido por Andre IkiSiqueira e Beto Macedo, o longa revisita a curta carreira como jogador doBotafogo, time que assumiu como técnico sem experiência e conquistou oCampeonato Carioca de 1957. Polêmico, comunista e um dos mais sinceroscomentaristas esportivos que já tivemos, chegou à seleção brasileira e foi ogrande responsável por montar o time que conquistaria o Tri no México, em 1970. 

NaMostra Competitiva, entre os oito concorrentes estão Esperando Telê, de Rubens Rewald e Tales Ab’Sáber, Telê Santana – Meio século de futebol arte,de Ana Carla Portella e Danielle Rosa, ambos sobre o técnico bicampeão do mundocom o São Paulo, Inacreditável – Abatalha dos Aflitos, de Beto Souza, sobre o incrível jogo entre Náutico eGrêmio, que determinou a volta à Série A do time gaúcho, 23 anos em 7 segundos – O fim do jejum corintiano, de Di Moretti eJulio Xavier, e Zico na rede, dePaulo Roscio. Já entre os 14 curtas, o premiado Mauro Shampoo – Jogador, cabeleireiro e homem, de Leonardo CunhaLima e Paulo Henrique Fontenelle, Deus daraça, de Pedro Asbeg e Felipe Nepomuceno, sobre Rondinelli, ex-jogador doFlamengo nos anos 1970, Loucos de futebol,de Halder Gomes, O fundo do mar, deAndre Amparo, e O primeiro João, deAndré Castelão. Todos os 22 filmes concorrem – como Melhor Longa e Melhor Curta– à Taça Cinefoot, confeccionada especialmente para o festival, em votopopular. “É a arquibancada que decide”, completa Leal.

Além dos filmes, o festival homenageia dois grandes nomes, um do esporte eoutro do cinema, e conta com uma mesa de debate. Para a primeira edição, oshomenageados são o goleiro tricampeão em 1970, Félix, e o cineasta MaurícioCapovilla. Aos amantes do futebol, goleiro do Fluminense e da seleção dispensaapresentação, mas não custa resumir as conquistas pelo tricolor e pela seleção canarinho:cinco campeonatos cariocas (1969, 71, 73, 75 e 76), a Taça dePrata pelo Fluminense em 1970, o bicampeonato da Copa Rio Branco (1967/68) pelaSeleção Brasileira, além do inesquecível tricampeonato mundial no México em1970. A homenagem a Félix acontece na sessão de sábado, dia 29 de maio, masnesta sexta, 28, ele participa de um bate-papo às 10h, nas Laranjeiras, sede dotricolor carioca, com jogadores e torcida. Em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, o goleiro recorda: “Contraa Inglaterra, consegui matar tudo aquilo que falavam de mim que eu não sabiafazer. Primeiro, fui cortado pelo Saldanha, que dizia que eu era magro, nãosabia sair do gol, não aceitava o choque dos gringos. Essa foi a desculpa paraele ter me cortado das Eliminatórias para a Copa do Mundo. Voltei ao time e,contra a Inglaterra, provei o contrário. Tive que mostrar e mostrei”. Já Capovillaé homenageado pela cinematografia vigorosa, que inclui o documentário demédia-metragem Os subterrâneos do futebol(1965), filme que encerra o Cinefoot no Rio, dia 1. de junho. 

Ocinema brasileiro está preparado para a Copa de 2014?

Nunca é demais lembrar que a cinematografia brasileira sobre futebol não temregularidade nem assiduidade quando se fala em longas-metragens, que sãosobretudo documentários. “É preciso discutir, chamar a atenção sobre isso desdejá, apontar as dificuldades que os produtores enfrentam e o que é preciso paraque ela floresça. Inventamos um tipo de futebol que não tem igual no mundo. Ocinema deveria refletir isso”, afirma Leal. O temaserá debatido no dia 31 de maio, às 15 horas, na única mesa-redonda no BaukursCultural (Rua Goethe, 15, Botafogo, Rio), com a participação dos cineastas e dodiretor do festival alemão 11MM, Birger Schmidt. “Essa vinda do Birger é umaimportante oportunidade que pode abrir as portas para os produtores levaremseus filmes para a Europa”, completa o diretor do Cinefoot. 

Antonio Leal toca em um dosassuntos mais sensíveis em relação à produção cinematográfica brasileira:a distribuição. “Deve ser dramático para quem tem um filme excepcional, como João, não conseguir viabilizar adistribuição”, opina Leal sobre o documentário que abre o Cinefoot, já foiexibido no É Tudo Verdade em 2009, mas ainda não estreou nas salas de cinema.“Espero que o festival contribua para dar destaque a estes filmes e viabilizara sua circulação”, finaliza. O futebol e seus fãs agradecem.

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