Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.03.2010 30.03.2010

Freud direto do alemão

Publicado originalmente por Mariana Rodrigues no Almanaque Saraiva
Foto de Divulgação

 

O nome do soteropolitano Paulo César de Souza não é o de maior destaque nos livros com os quais está envolvido. Tradutor profissional, Souza construiu uma carreira sólida passando textos alemães para o português. Foi premiado duas vezes com o Jabuti, pela tradução de Friedrich Nietzsche e Bertolt Brecht. 

Agora, vê outro projeto finalmente lançado: a tradução das obras de Sigmund Freud pela Companhia das Letras, pela primeira vez, diretamente do alemão e organizada na ordem cronológica em que apareceram originalmente os textos. Em março, foram publicados os três primeiros volumes; ao todo serão 20. São eles: Freud 10 – Observações psicanalíticas sobre caso de paranoia relatado em autobiografia, Artigos sobre técnica e outros textos (1911-13); Freud 12 – Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e outros textos (1914-1916); e Freud 14 – História de uma neurose infantil ("O homem dos lobos"), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920)

A Companhia das Letras, porém, não é a única a publicar os livros do pai da psicanálise. Outras três editoras se preparam para relançar boa parte da obra. O motivo é a entrada em domínio público dos textos do judeu-austríaco e médico neurologista que ajudou a enxergar o mundo e o homem através de novos filtros. A Imago, até então detentora dos direitos sobre a obra de Freud, prepara nova tradução e vai organizar sua coleção em eixos temáticos, como artes plásticas e literatura; vida sexual; compulsão, paranóia e perversão; histeria e medo; e neuroses infantis, entre outros. A publicação está prevista para o segundo semestre, e a coordenação geral da tradução fica a cargo de Luiz Alberto Hanns. 

A editora gaúcha L&PM vai lançar os livros de Freud em edições de bolso. Já estão disponíveis O futuro de uma ilusão O mal-estar na cultura, ambos traduzidos por Renato Zwick Em abril, sai Totem e tabu, com tradução de Kristina Michahelles, e em novembro, a obra fundadora da psicanálise, A interpretação dos sonhos. A quarta editora a se aventurar em traduzi-lo direto do alemão é a Cosac Naify, que publica nos próximos meses Luto e melancolia e Conferências introdutórias à psicanálise, ambos nas versões inéditas da tradutora e psicanalista Marilene Carone. As 28 conferências, proferidas por Freud em 1915 e 1916 na Universidade de Viena, formariam o primeiro volume deste projeto interrompido pela morte da tradutora em 1987. 

A seguir, conheça um pouco mais sobre a carreira de tradutor e projeto de traduzir Freud nesta entrevista com Paulo César de Souza (foto a direita)
 

Como foi seu contato com o trabalho de tradutor? 

Paulo César de Souza. Quando eu tinha 20 anos traduzi, só para mim mesmo e os amigos, sem pensar em publicar, um pequeno romance francês chamado Le Diable au Corps, de Raymond Radiguet. Somente nove anos depois é que o enviei para a editora Brasiliense e foi publicado.  

Quando percebeu que seria uma profissão?

Souza. Não foi logo. No iní­cio fui professor de inglês no Yázigi, depois ensinei alemão no Instituto Goethe de Salvador, entre 1981 e 85. Descobri que seria tradutor quando traduzi Ecce Homo, a autobiografia de Nietzsche, em 1985.

E o alemão, como surgiu na sua vida?

Souza. Eu já tinha bons conhecimentos de francês e inglês quando me inscrevi no curso do Goethe de Salvador, em 1972, com 17 anos. E alguns autores alemães me interessavam muito, principalmente Freud. Não foi coincidência o fato de eu comprar a famosa biografia de Freud escrita por Ernest Jones no mesmo mês em que teve início meu curso de alemão, em agosto de 1972. 

Como é o seu método de trabalho?

Souza. Costumo acordar cedo e trabalhar só pela manhã. Tenho o original alemão à  frente, vários dicionários de alemão, português e outras lí­nguas (no computador e impressos) e várias traduções do texto em outras lí­nguas. Depois de ruminar bastante e achar as palavras e o ritmo da frase é que escrevo, mas geralmente não mudo depois de escrever. Meu ritmo é lento, a média é de apenas uma página por dia. Acho que não sou um tradutor tí­pico; geralmente eles traduzem várias páginas por dia.

Você já teve outras atividades ligadas ao jornalismo e à literatura. Ainda se dedica a elas? 

Souza. Há um bom tempo não escrevo mais para jornais, pois decidi me concentrar apenas nas traduções de Nietzsche e Freud, trabalhos mais duradouros e necessários.

Houve momentos em que precisou quebrar essa rotina? 

Souza. Como desde que voltei a viver em Salvador, em 1995, eu só faço traduzir Nietzsche e Freud, descanso de um traduzindo o outro. 

Como lida com a intensidade do trabalho?

Souza. Há dias em que a cabeça não colabora, então é melhor parar um tempinho, aproveitar para ler um livro ou ouvir música.

Gostaria de traduzir também obras em outras lí­nguas?

Souza. Comecei a aprender russo, mas não penso em traduzir nenhum autor especí­fico, embora goste muito de Tolstói e Soljenítsin. Fico impressionado com os horrores que os russos fizeram a si mesmo e a outros povos, no século XX, e com as maravilhas que escreveram desde o século XVIII.

Como se iniciou o projeto de tradução das obras de Freud para a Companhia das Letras?

Souza. Foi um projeto pessoal. Assim como havia feito antes com a coleção de Nietzsche, propus à Companhia das Letras lançar as obras de Freud, que comecei a traduzir já em 1993, quando redigia minha tese As palavras de Freud: o vocabulário freudiano e suas versões, que também sai agora pela editora.

 


 

> Leia os trechos iniciais dos livros já lançados pela Companhia das Letras e L&PM

 # Freud 10 – Observações psicanalíticas sobre caso de paranoia relatado em autobiografiaArtigos sobre técnica e outros textos (1911-13) 

Freud 12 – Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e outros textos (1914-1916) 

Freud 14 – História de uma neurose infantil ("O homem dos lobos"), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920) 

# O mal-estar na cultura

O futuro de uma ilusão  

 

> Conheça o Museu Freud, em Londres

 > Visite o Freud Archives

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