Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 06.02.2013 06.02.2013

Fotografia portuguesa contemporânea em debate

Por Priscila Roque
 
“Penso que o meu trabalho não reflete diretamente o lugar onde nasci, mas creio que a emotividade de alguns projetos surge de acontecimentos que se passaram lá”. É o que explica a fotógrafa portuguesa Francisca Veiga, justificando que os símbolos e as tradições de Portugal não são tão notórios na fotografia produzida naquele país.
A discussão entre os artistas da área envolve temas mais globais e sofre influências de outros segmentos culturais, como o cinema, a literatura e as artes plásticas. Paralelamente a isso, a forte crise que tomou Portugal nos últimos tempos também pode mudar a história que está sendo traçada neste instante.
É por isso que Francisca e outros nomes lusos importantes e emergentes dessa área estarão presentes no Ciclo da Fotografia Portuguesa no Brasil, que começa em fevereiro, promovendo debates e encontros, e segue até o fim do primeiro semestre com diversas exposições.
 
O objetivo é discutir a fotografia contemporânea portuguesa e descobrir artifícios que podem ser usados para aproximar o Brasil desse segmento. “Precisamos conhecer a fundo a produção artística brasileira e portuguesa, pois, apesar de existir um oceano a separar os dois países, nós temos uma proximidade histórica e social muito grande e que pode ser mais aprofundada”, comenta Francisca.
“Nós vemos pouca fotografia brasileira em Portugal. Por vezes, há galeristas que trazem autores consagrados, como o Mário Cravo Neto ou o Miguel Rio Branco, mas gostaria de ver muito mais arte e fotografia brasileira contemporânea. Acho que exposições coletivas, com portugueses e brasileiros, deveriam ocorrer muito mais vezes, mesmo que de forma um pouco menos institucional”, afirma Margarida Medeiros, crítica de fotografia e professora da Universidade Nova de Lisboa e da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
 
                                           Crédito/ Francisca Veiga
Obra de Francisca Veiga estará em mostra curitibana
 
CENÁRIO PORTUGUÊS
 
Os cursos e centros de estudos dedicados à fotografia em Portugal estão concentrados nas duas maiores cidades do país, Lisboa e Porto. Entretanto, o olhar ultrapassa fronteiras. “Acho que a tradição de concepção, sobretudo a alemã, tem tido muita influência nos estudos fotográficos portugueses. O aumento de cursos de fotografia também tem dado os seus frutos numa nova geração que revela uma consciência crítica, bem como do seu potencial criativo”, exemplifica Margarida.
 
O país passa por sua pior crise econômica das últimas décadas, e os cortes na cultura e na educação foram visíveis e radicais. O reflexo é sentido por todos, sem exceção. “Sinceramente, a questão dos cortes de apoio à cultura, apesar de grave, pouco me assusta. O que me parece humilhante é rebaixar a cultura. O que nos trouxe? Estou convicta de uma luta maior, na vontade de criar mais, com mais qualidade e com maior capacidade de intervenção. Creio que essa fase vai deixar marcas na arte portuguesa, porque se alteram conteúdos, conceitos e até mesmo pontos de vista dentro das várias práticas artísticas. A partir do momento em que há menos verba para a produção, os projetos acabam por ter uma ‘cara’ diferente, o que não quer dizer – de forma alguma – que sejam de qualidade inferior”, reflete Francisca.
 
                                                                                                  Crédito/Helena Peralta
Foto de Helena Peralta é um dos destaques do MuMA
 
COLETIVOS
 
Um dos fenômenos contemporâneos da fotografia em todo o mundo é a união de profissionais que têm como objetivo reformular a apresentação de trabalhos e criar novas ofertas ao mercado. Os coletivos atuam como uma plataforma de criação, promovendo discussões e debates. Em Portugal, a propagação desses grupos está em ascensão.
 
“Unir a arte a espaços de intervenção social é, sem dúvidas, uma realidade muito produtiva. Os coletivos surgem em um momento difícil, em uma altura em que só nomes conceituados sobrevivem aos cortes de verbas estatais para a cultura. Eles, além de visarem à união de artistas das mais diversas áreas, pretendem também tornar mais fácil a realização de projetos, criando condições para angariar fundos. Esses coletivos marcam mais uma fase em Portugal, não só artística, como também política”, completa Francisca, que faz parte do Colectivo Negativo, trabalhando essencialmente na área da performance e instalação artística.
 
SERVIÇO
Ciclo da Fotografia Portuguesa no Brasil – Curitiba/Paraná
Conferências e bate-papos com artistas: de 4 a 7 de fevereiro
Mostra oficial: até 28 de fevereiro no MuMA
Mostra paralela, com workshops e saídas fotográficas: de fevereiro a junho
Verifique a programação, os horários e os endereços na página oficial do evento: http://ciclodafotografia.com
 
 
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