Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Livros / Outros 05.05.2021 05.05.2021

Força Expedicionária Brasileira – A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial

A FEBForça Expedicionária Brasileira, foi uma força militar de 25 834 homens e mulheres, enviada para a Itália para lutar ao lado dos aliados na Segunda Guerra Mundial. A FEB era formada pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária  – 1ª DIE, acompanhada da primeira Esquadrilha de Observação e Ligação -1ª ELO e um esquadrão de caças, o Primeiro Grupo de Aviação de Caça – 1º GAvCa, que fazia parte da FAB – Força Aérea Brasileira.

A Participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, embora tenha se dado com um contingente relativamente pequeno, frente à enormidade do conflito na Europa, que envolvia milhões de combatentes em ambos os lados, teve grande valor militar e importância política e histórica, inclusive para a história do Brasil a partir dali, o único país latino americano até hoje a intervir militarmente em um conflito no continente europeu.

A história da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial ainda é lembrada, e reverenciada, com cerimônias e monumentos, nas cidades que os pracinhas libertaram dos nazistas e onde ela travou suas batalhas mais importantes. Mas o mesmo não ocorre com a mesma frequência, e intensidade, no Brasil. Muitos brasileiros têm pouco, ou nenhum conhecimento sobre os feitos da FEB.

Para preservar essa história para as futuras gerações, o Blog da Saraiva resgatou depoimentos realizados em 2011 pelos ex-combatentes Coronel Jairo Junqueira da SilvaMajor Samuel Silva, já falecidos, e entrevistou Jairo Junqueira da Silva Filho, filho do Coronel Jairo, atual presidente da Associação dos Ex-Combatentes, responsável pelo Museu da FEB, em São Paulo, e a Cristina de Lourdes Pellegrino Feres, pesquisadora do LEER /USP especialista na história da FEB.

Getúlio Vargas e a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial

Desde que tomou o poder, em 1930, Getúlio Vargas foi concentrando mais e mais poderes, chegando à 1937, quando estabeleceu o Estado Novo, um governo ditatorial com forte inspiração nos regimes totalitários de Benito Mussolini na Itália e Adolf Hitler na Alemanha.

Entretanto, apesar da forte afinidade ideológica que tinha com os governos dos países do Eixo, Getúlio Vargas sempre realizou um hábil jogo político, em que tentava arrancar de alemães e americanos o máximo de vantagens que pudesse, mas sem pender definitivamente para um dos lados.

O impasse se resolveu a partir de 1942, quando Franklin Roosevelt, com um misto de pressão diplomática, concessões comerciais, aproximação cultural, fez com que, em Janeiro de 1942, o Brasil rompesse relações diplomáticas com os países do Eixo.

Ataques de submarinos alemães nas costa brasileira

A Alemanha nazista não deixou barato o rompimento das relações diplomáticas por parte do Brasil e a opção de Getúlio Vergas pelo alinhamento com os norte-americanos, e enviou  submarinos, os temidos U-Boats, para atacar os navios brasileiros nas nossas costas, para, além de retaliar o Brasil pelo rompimento, impedir o fornecimento de matérias primas brasileiras para o esforço de guerra aliado.

Os ataques dos submarinos alemães provocaram o afundamento de vários navios brasileiros, causando aproximadamente 2000 mortes, e a revolta na população brasileira, que foi às ruas exigindo uma declaração de guerra contra a Alemanha e a Itália.

Se a entrada na guerra do lado aliado, para Getúlio Vargas, era uma questão de perdas e ganhos de  política externa, se tornou uma questão de prestígio político interno, apesar dos riscos que ele sabia que isso traria à sua permanência no poder. E em agosto de 1942, o Brasil declarava guerra às potências do Eixo.

A cobra vai fumar

Entre declarar guerra à Alemanha e as tropas brasileiras atravessarem o Atlântico para chegar à Itália, ia uma grande distância. Tanto no sentido literal, como no figurado. O descrédito de que o Brasil seria capaz de enviar soldados para lutar na Europa era tão grande que circulava uma piada que dizia que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na Guerra. A resposta a essa provocação está no símbolo da FEB, uma cobra fumando um cachimbo.

Mas antes disso, havia a questão prática de treinar e equipar os soldados brasileiros para o conflito, que não tinham armamentos adequados, experiência em combate e desconheciam as táticas e estratégias modernas. Além disso, havia a questão política. Não era difícil perceber as afinidades políticas entre a ditadura Vargas, que governava o Brasil, e os regimes fascista e nazista que a FEB estava indo combater.

Segundo o veterano Coronel Jairo Junqueira da Silva, que serviu na Força Expedicionária Brasileira como segundo tenente, isso era comentado pela tropa, mas ficava em segundo plano, frente à vontade que todos tinham de vingar os milhares de mortos brasileiros no torpedeamento dos nossos navios pelos submarinos alemães.

Mas, apesar de a tropa estar motivada, sua partida para a Europa ainda demoraria. Havia as questões de treinamento e equipamento que precisavam ser resolvidas, sem dúvida. Mas, na opinião do Coronel Jairo, a chegada da FEB na Itália poderia ter acontecido antes, tendo sido retardada por oficiais da alta cúpula que, apesar da declaração formal de guerra, ainda seriam germanófilos.

Superados os contratempos, o primeiro grupo da FEB chegou à Itália em julho de 1944, chefiado pelo General Zenóbio da Costa, seguido por outros grupos chefiados pelos generais Osvaldo Cordeiro de Farias e Olímpio Falconière da Cunha, além de enfermeiras, capelães militares e um contingente da Força Aérea Brasileira,  sob o comando do major-aviador Nero Moura, famoso pelo grito de guerra “Senta a Pua!”

Em fevereiro de 1945,  a Força Expedicionária Brasileira –  FEB estava completa em solo italiano.

A Guerra na Europa antes da chegada da FEB.

Depois do êxito inicial de Hitler em conquistar a Europa Ocidental, com exceção da Grã-Bretanha, que resistia liderada por Winston Churchill, o Norte da África, e invadir a União Soviética, a maré da guerra começava a mudar e a Alemanha Nazista estava na defensiva.

Depois de bater o África Korps de Rommel, britânicos e norte-americanos haviam expulsado alemães e italianos do Norte da África e invadido a Sicília e a Itália na operação Husky.  E, a milhares de quilômetros dali, os soviéticos comandados pelo Marechal Jukov haviam vencido a Batalha de Stalingrado e virado o jogo na Frente Oriental da guerra na Europa, e avançavam para invadir a Alemanha.

E finalmente, em 6 de Junho de 1944, no célebre Dia D, tropas norte-americanas, britânicas, e canadenses desembarcavam nas praias da Normandia para libertar a Europa Ocidental e também iniciar seu avanço em direção ao território alemão.

O front italiano na chegada da Força Expedicionária Brasileira

A importância do front italiano para os alemães era de manter  a República de Saló, o Estado fantoche criado por Hitler no Norte da Itália e governado por seu aliado e inspirador ideológico, Benito Mussolini, e as tropas fascistas leais a ele, além de impedir que, a partir da Península Italiana, fossem organizados desembarques aliados nos Balcãs, região de onde vinham vários suprimentos importantes para a Alemanha, como petróleo.

Para defender esse território, as tropas alemãs comandadas pelo Marechal de Campo Albert Kesselring montaram  várias linhas de defesa, como a Linha Gustav e a Linha Gótica que incluía mais de 2000 pontos de fortificação; ninhos de metralhadoras, casamatas, bunkers, postos de observação e artilharia, localizadas no Montes Apeninos.

Embora a Itália não fosse o front que iria decidir a guerra, os aliados precisavam enviar tropas que estavam lá para a invadir a Alemanha sem correr o risco de, por falta de contingente, não conseguir manter a pressão sobre os alemães e permitir que eles retirassem tropas de lá e as enviassem para defender a Alemanha, prolongando a guerra.

As tropas alemãs na Itália, mesmo estando na defensiva, recuando desde que os aliados invadiram a península, não vendiam barato suas derrotas. Eram formadas por soldados bem treinados, com muita experiência em combate, lideradas por oficiais competentes e tinham o terreno montanhoso dos Apeninos, e no inverno, o clima rigoroso, a seu favor.

É importante saber essas informações para entender, e dar o devido valor, às façanhas militares da FEB.

 Quem era quem na Guerra na Itália

Aliados

5º Exército dos Estados Unidos – Principal força dos aliados na Itália, era comandado pelo General Mark W. Clarck. A FEB era subordinada e ao quinto corpo de Exército americano, que, incluindo os brasileiros, contava com 25 divisões.

8.º Exército Britânico – Sob o comando do Marechal de Campo Harold Alexander, eram soldados experientes, que vinham combatendo desde as campanhas do Norte da África.

FEB – Força Expedicionária Brasileira –  Comandada pelo General Mascarenhas de Morais, era formada por 25 834 homens e mulheres, incluindo praças, oficiais, enfermeiras e capelães, entre outros. Embora motivados, não tinham ainda a experiência da guerra, e teriam que enfrentar soldados inimigos experientes, bem treinados e armados. E conquistar o respeito de combatentes aliados, já endurecidos pela guerra.

Segundo o Coronel Jairo Junqueira Filho, os brasileiros eram bons soldados, mas ainda não tinham a experiência do combate, ao contrário de seus aliados e inimigos. Essa experiência foi ganha da maneira mais dura possível, com a experiência prática, em condições duríssimas, combatendo em ambiente montanhoso, com temperaturas abaixo de zero.

Partisans – Ou Partigiani, eram grupos armados que combatiam os nazistas com táticas de guerrilha. Estima-se que mais de 300 000 pessoas, incluindo 35 000 mulheres, tenham participado da Resistência Italiana. Eram pessoas das mais variadas tendências políticas, e quando capturavam soldados ou oficiais alemães, os tratavam com crueldade ou os executavam, como uma vingança pelas atrocidades praticadas pelos nazistas contra o povo italiano.

Foram os Partisans, inclusive, que em 28 de abril de 1945 capturaram o Duce, como era chamado Mussolini, e sua amante Clara Petacci, os fuzilaram e expuseram seus corpos em praça pública, pendurados em postes,

Eixo

Wehrmacht  – O Exército alemão era inicialmente comandado pelo Marechal Albrecht Kesselring. Quando ele foi convocado por Hitler para organizar a defesa da Alemanha, já no final da guerra, foi substituído pelo  General Heinrich von Vietinghoff. Experientes e bem-treinados, os soldados alemães eram considerados na época os melhores do mundo.

Em um depoimento pessoal o Major Samuel Silva, que serviu na FEB como terceiro sargento conta que várias vezes a FEB realizava fortes bombardeios de algumas áreas ocupadas pelos alemães, e imaginava que depois deles, bastaria simplesmente avançar. Mas não era o que acontecia, encontrando uma resistência feroz dos alemães.

Enfatizando seu repudio à odiosa ideologia nazista, o Major Samuel afirmava que a Alemanha tinha o melhor exército do mundo naquela época. Não tinha, na visão dele, como vencer uma guerra contra uma colisão de tantos países, mas era preciso reconhecer que eram soldados de valor.

Esercito Nazionale Repubblicano – O Exército Italiano naquele momento já havia mudado de lado e se juntado aos aliados sob a liderança de Pietro Badoglio. O Exército Nacional Republicano nada mais era do que os oficiais e soldados que haviam permanecido leais a Mussolini, lutando pelo Estado fantoche da República Social Italiana (República de Saló).

Batalhas da FEB na Itália

Batalha de Monte Castelo

Monte Castelo já havia se tornado quase um trauma para os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, devido à grande dificuldade de se tomar essa elevação, com as tentativas anteriores levando a um grande número de baixas na FEB.

Na subida da encosta, os soldados brasileiros, que carregavam 25 quilos de equipamentos, se defrontavam com campos minados e tiros de metralhadoras, morteiros e canhões, formando o que já havia sido batizado de corredor da morte. As baixas das várias tentativas já somavam centenas de mortos e feridos.

O feito só foi finalmente conseguido quando o General Mascarenhas de Morais, indo contra as ordens do comando norte-americano, colocou todas as suas forças no ataque ao Monte Castelo em 21 de fevereiro de 1945. Em pouco mais de 12 horas, havia conseguido um objetivo que por três meses parecia impossível.

Batalha de Montese

A batalha mais sangrenta da história da Força Expedicionário Brasileira começou em 14 de abril de 1945 e durou dois dias. Montese era importante porque os aliados precisavam tomá-la para ter uma passagem para as regiões da Bologna e Pó. Para tomar essa cidade, os pracinhas tiveram de enfrentar intenso fogo de artilharia vindo de trincheiras e casamatas.

Após dois dias de batalha, houve 450 baixas e quase 1200 casas destruídas, mas derrotaram os alemães, cujas forças remanescente se retiraram para Collechio.

Batalha de Collecchio

Depois de serem derrotados em Montese, os alemães se retiraram dos Apeninos, mas havia ainda algumas tropas da Wehrmacht ocupando as cidades de Collechio e Fornovo di Taro, cabendo à FEB libertá-las.

A FEB atacou Collechio e derrotou a 148ª Divisão alemã, na única batalha entre blindados de que participou. Cabe destacar que nessa batalha, os soldados brasileiros não tiveram nenhum auxílio dos norte-americanos.

O Coronel Jairo Junqueira, na época segundo tenente, narrou suas memórias dessa batalha. Ele conta que os alemães estavam alojados em um cemitério, e que os tiros da artilharia brasileira atingiam as sepulturas, causando a chocante visão de ossos voando para todos os lados.

Como os pracinhas não tinham a visão de onde atirar, o então tenente Jairo subiu no campanário da torre de uma igreja muito antiga, de onde pôde orientar a artilharia contra os alemães. Mas, quando estava no alto da torre, vários tiros de metralhadora atingiam o sino da igreja, causando uma perda auditiva que ele carregou para o resto da vida.

Batalha de Fornovo di Taro

A trajetória de combates da FEB na Itália terminou em Fornovo di Taro. A 148ª divisão alemã estava cercada pelo 1º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria da FEB na sua vanguarda e pelo  11º RI na retaguarda. O comando da FEB ordenou o ataque de artilharia, com os alemães revidando com seus canhões. Em 27 de abril, o comandante do 6º Regimento, Coronel Nelson de Mello, aceitou a oferta de mediação do padre italiano Dom Alessandro Cavalli.

A carta, escrita em italiano aos alemães, que já não tinham munição e meios de reação, apelava ao bom senso de seus comandantes. A única exigência dos alemães que foi aceita é que eles pudessem entregar primeiro os seus feridos. Assim, entre 29 e 30 de abril de 1945, 20 mil soldados alemães da 148ª Divisão de Infantaria, da 90ª Divisão Panzer Granadier e italianos da Divisão Bersaglieri se renderam à Força Expedicionária Brasileira.

O Então terceiro sargento Samuel Silva recordou esse momento: Quando vi os nazistas, a raça que se queria superior, tendo de se render incondicionalmente ao soldado brasileiro…Era uma emoção de ver um deixar um fuzil, outro deixar uma metralhadora…e uma alegria de saber que tudo aquilo tinha acabado….tinha até vontade de falar com eles, mas não sabia uma palavra sequer de alemão. Como não sei até hoje.

Oito dias , em 8 de maio de 1945, após a rendição das forças do Eixo para a Força Expedicionária Brasileira na Itália, o General Alfred Jodl assinaria a rendição da Alemanha, e a Guerra na Europa estaria oficialmente encerrada.

Curiosidades sobre a Força Expedicionária Brasileira

Integração racial – A FEB era a única tropa multiétnica dos aliados.  A tropa brasileira chamava a atenção por ter, combatendo lado a lado, brancos e negros. Isso chamou a atenção dos aliados, que não tinham o mesmo costume. Os norte-americanos tinham tropas separadas de brancos, negros e japoneses, enquanto os britânicos segregavam os soldados indianos e os franceses segregavam os argelinos.

Democracia – Mas o fato de os brasileiros serem racialmente integrados não queria dizer que a FEB não tivesse o que aprender com os americanos. Na hora das refeições, os brasileiros eram mais elitistas, com oficiais comendo separados dos praças. Já no exército americano, embora a disciplina e hierarquia fossem muito rígidas, na hora do rancho oficiais e recrutas entravam na mesma fila, sem privilégios.

Segundo o filho do então segundo tenente Jairo, Jairo Junqueira da Silva Filho, que atualmente preside a Associação dos ex-combatentes em São Paulo, esse era um exemplo de democracia que a Força Expedicionária Brasileira traria consigo de volta para casa. E que teria grande influência no futuro do Brasil.

Soldados humanos e solidários – Os soldados brasileiros tinham a fama de serem solidários e respeitosos com os inimigos capturados. Tanto que os alemães, mesmo sabendo que não tinham mais saída, lutariam até o fim contra soldados russos ou os partisans italianos, mas se sentiam seguros ao se render para os brasileiros, porque sabiam que seriam bem tratados.

O veterano major Samuel Silva conta que uma vez, acompanhado de outros soldados, viu um soldado alemão descendo uma colina gritando Kameraden! Non Kaput!, algo como, sou amigo, não atire! O prisioneiro contou que havia estado em muitas batalhas, inclusive na frente russa, e não aguentava mais a guerra. Para ele, bastava. Não importava o que acontecesse.

O Coronel Jairo conta que os soldados brasileiros davam um tratamento tão bom aos alemães capturados que um dia o comando teve de chamar a atenção deles, dizendo: Os prisioneiros de guerra devem ser tratados com respeito, mas eles são prisioneiros, não visitas.

Outro exemplo de humanidade e solidariedade foi quando, após uma batalha, o Coronel Jairo estava com um grupo de soldados brasileiros e encontrou um grupo de partisans italianos conduzindo dois oficiais alemães, um deles já descalço, com os pés sangrando. Ao perguntar o que iriam fazer com eles, os partisans disseram que iriam fuzilá-los.

O então tenente Jairo se opôs, dizendo que não haveria fuzilamento e que iria levar os prisioneiros. Houve um início de confusão, que poderia terminar mal, já que os Partisans estavam em maior número que os brasileiros, mas acabaram entregando os prisioneiros, que foram salvos do fuzilamento sumário.

Senso de improvisação – O Coronel Jairo contou que após a batalha de Collechio, havia cerca de 400 soldados alemães capturados, que foram alojados em uma igreja muito antiga, que não tinha banheiros. Quando os prisioneiros reclamavam que precisavam urinar, ele se viu em um dilema, pois não podia deixa-los sair, tanto pelo receio de que fugissem como que fossem pegos e sumariamente executados por partisans italianos.

A solução foi conseguir uma espécie de tonel, muito grande, onde os prisioneiros alemães puderam aliviar suas necessidades fisiológicas. Quando o padre chegou e viu aquela cena, levou as mãos à cabeça e gritou enfurecido: Quem fez isso? Quem deu a ordem? O coronel Jairo se apresentou, e frente aos protestos coléricos do contrariado religioso, perguntou: o que o senhor faria no meu lugar?

O padre não respondeu, mas pediu o nome do oficial brasileiro , dizendo que voltaria para excomungá-lo. Mas depois o pároco aparentemente se acalmou, e entendeu a situação do militar brasileiro. E não voltou para cumprir a ameaça de excomunhão.

O Fim da Guerra e a volta para o Brasil

Segundo a professora  Cristina de Lourdes Pellegrino Feres mestre em  História pela USP, Getúlio Vargas mandou dissolver a FEB ainda na Itália. Autoridades s civis e militares brasileiras recusaram que os soldados atuassem como tropas de ocupação nos países vencidos e apressaram a desmobilização dos expedicionários tão logo eles chegaram ao Brasil.  Era evidente o desejo de fazer com que os ex-combatentes retornassem logo à vida civil.

Do ponto de vista político,  Vargas temias que as forças pudessem representar uma ameaça armada ao seu  regime autoritário. Já para o Exército, estes homens que antes eram civis, voltavam do campo de batalha e traziam consigo o prestígio da vitória sobre o nazi fascismo, o que poderia representar uma ameaça à ordem militar e à sua tradicional hierarquia.

Tanto em um caso como no outro, a intenção era calar os homens que foram à luta: no retorno, eles só puderam usar uniforme militar e distintivos da FEB por 8 dias e foram proibidos de publicar diários ou manifestarem-se publicamente sobre as ações da Força Expedicionária Brasileira na Itália, completa a Professora Cristina.

A queda de Getúlio Vargas

Apesar de todos esses esforços espúrios, a ditadura de Getúlio Vargas e o Estado Novo chegaram ao fim em 29 de outubro de 1945, em um movimento liderado não pelos ex-combatentes da FEB, mas pelos próprios generais que compunham o ministério de Vargas.

Mas é inegável a influência moral que a saga da FEB contra o Nazismo e o Fascismo na Itália teve para tornar sua ditadura politicamente insustentável.

Afinal, qual era o sentido de lutar, e morrer, para derrubar regimes autoritários na Itália e Alemanha, e conviver com um regime parecido no Brasil?

Assistência aos ex-combatentes.

A professora Cristina conta que não houve uma política de reintegração dos ex-combatentes à sociedade. Eles sequer foram submetidos a exames de saúde. Os que voltaram com ferimentos ou doenças tiveram de travar uma outra batalha no Brasil, para provar sua incapacidade para o trabalho. Isso sem falar daqueles que tinham sequelas invisíveis, como traumas psicológicos.

Associação dos Ex-Combatentes

Para dar assistência aos pracinhas e familiares que o Estado Brasileiro esqueceu, surgiram associações de ex-combatentes por todo o país,  instituições apolíticas que, segundo a professora Cristina, acabaram por se transformar num bastião de luta pela preservação da memória da atuação da FEB, através de encontros, eventos comemorativos e construção de monumentos, entre outros.

Na opinião da professora Cristina , as próprias universidades brasileiras, durante muito tempo, não viram com bons olhos estudos voltados à FEB, herança de uma resistência ao período em que os militares estiveram no poder no Brasil. Mas aos poucos esta situação vem mudando e estudos acadêmicos vêm trazendo novas perspectivas sobre a temática.

Enquanto isso, são as associações, atualmente administradas pelos descendentes dos membros da Força Expedicionária Brasileira, que mantem vivo o slogan “A cobra fumou”, preservando o ideal febiano, a imagem de heróis de seus membros e os acervos familiares. Nessas associações as memórias da FEB são preservadas e  transmitidas, travando uma outra guerra, esta, silenciosa e inglória, contra a falta de valorização de um dos episódios mais dignos da história do Brasil.

Em São Paulo, A Associação dos Ex-Combatentes fica na Rua Santa Madalena, 46.  Lá existe um museu criado pelos próprios ex-combatentes, que vale muito a pena a visita. Foi lá, inclusive, que em 2011 foram realizadas as entrevistas com o Coronel Jairo Junqueira Filho, e o Major Samuel Silva, que, infelizmente, já faleceram.

A FEB na Cultura Pop.

Não há como comparar a maneira que outros países que participaram da Segunda Guerra Mundial retratam o período em sua indústria cultural com o que acontece no Brasil.

Os Estados Unidos, além de um feriado anual para homenagear seu veteranos de guerra, o Veterans Day, já produziram um número incalculável de filmes, livros, quadrinhos e vídeo games sobre o assunto.  A Rússia celebra a Grande Guerra Patriótica como a II Guerra Mundial é chamada lá e o Dia da Vitória Anualmente. A própria Alemanha, além de participar dessas comemorações, também acerta contas com o passado nazista em sua indústria cultural.

Mas, e o Brasil?

Há pouquíssimas produções de nossa indústria cultural a respeito da FEB. Mas, segundo a professora Cristina, aos poucos isso vai mudando. Já há cerca de uma centena de publicações com narrativas pessoais de ex-combatentes, como a primeira história em quadrinhos que conta o episódio vivido por um prisioneiro brasileiro de guerra; Eliseu: uma jornada ao inferno.

Há também documentários brasileiros de boa qualidade, que podem ser achados nos canais da TV a cabo como Navalha: Um Batalhão Brasileiro na Linha Gótica e 1942: O Brasil e sua Guerra quase Desconhecida, de João Barone. Ele mesmo, o baterista dos Paralamas do Sucesso.

Nas narrativas ficcionais, entretanto, a Força Expedicionária Brasileira ainda é praticamente ignorada. O único filme brasileiro de ficção que retrata a FEB é A Estrada 47, de 2015, dirigido por Vicente Ferraz.

Smoking Snakes

Se os brasileiros não fazem, outros acabam fazendo por nós. Talvez a mais conhecida homenagem à FEB na cultura pop tenha vindo da Suécia, feita pela banda de heavy metal Sabaton, no álbum de 2014 Heroes, que homenageia os soldados de todas as nações que lutaram contra o nazismo e o fascismo.

Smoking Snakes, cobras fumantes, trata da história real de três soldados do 11º Regimento de Infantaria da FEB, Geraldo Baêta da Cruz, 28 anos, Arlindo Lúcio da Silva, de 25, e Geraldo Rodrigues de Souza, de 26, que, contrariando as ordens de se render contra uma força alemã de aproximadamente 100 homens, lutaram até acabar sua munição, quando foram mortos.

O comandante alemão, admirado ao descobrir que apenas três soldados brasileiros tinham oferecido toda aquela resistência contra uma força tão numerosa, concedeu a eles honras militares e um enterro digno,  colocando sobre sua cova uma cruz com a inscrição Drei Brasilianische Helden ou Três Heróis Brasileiros.

Os próprios soldados inimigos, em 1945, e roqueiros suecos no século XXI, reconheceram o valor e heroísmo da FEB. Falta somente o Brasil e os brasileiros fazerem isso.

Agradecimentos: General Hedel Fayad/FUNCEB.

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