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Força da obra autoral de Marcelo Camelo é nítida em show de voz, violão e rabeca

 
Por Mauro Ferreira, do Blog Notas Musicais
 
Em turnê pelas principais capitais do Brasil, o show Voz & Violão reforça a assinatura da obra autoral de Marcelo Camelo. Sem o peso dos arranjos roqueiros das apresentações do grupo Los Hermanos, o cancioneiro de Camelo – desde sempre o mais inspirado compositor do quarteto carioca – se sustenta bem no desnudado formato voz & violão.
 
No caso, a voz e o violão do próprio Camelo, aos quais é adicionada – em nove dos 21 números do show – a rabeca pilotada por Thomas Rohrer. Por mais que o roteiro tenha caráter retrospectivo, rebobinando músicas cedidas por Camelo a outras vozes (caso do samba "Cara Valente", lançado por Maria Rita em 2003) entre sucessos dos Hermanos e temas da discografia solo do artista, a presença da inédita "Luzes da Cidade" – uma das músicas mais lindas da lavra do compositor – sinaliza a manutenção da inspiração e um futuro luminoso para o compositor.
 
Quase tão bonita quanto "Luzes da Cidade", "Dois Em Um" não é inédita – tendo sido lançada em disco sem repercussão pela cantora Milena Monteiro – mas surge em cena como boa surpresa do repertório do show, já gravado ao vivo em sua passagem por Porto Alegre (RS) para edição em CD e DVD. Sem o aparato instrumental dos espetáculos dos Los Hermanos e das apresentações da própria carreira solo de Camelo, o repertório do artista faz com que o equilíbrio entre rock e MPB – uma das marcas do som do grupo – penda para o universo da música brasileira.
 
"Pra te Acalmar" – música do segundo disco solo de Camelo, Toque Dela (2011) – explicita a influência do samba de cepa bossa-novista. "Fez-se Mar", mais adiante, confirma que Camelo bebeu muito da fonte dessas águas plácidas A arquitetura melódica de "Casa Pré-Fabricada" é tão sólida que a música ainda se impõe nos shows."Samba a Dois" (com o coro do público) e "Doce Solidão" (ideal para ser ambientada no clima íntimo do show) reiteram a fina sintonia entre público e artista.
 
"Pois É" marca a entrada em cena de Thomas Rohner, cuja rabeca faz "Dois Barcos" emergir no toque vibrante do instrumento que, nesse número, evoca a sonoridade de um bandolim. Já "Tudo Que Você Quiser" aparece banhada em estranhezas oriundas dessa mesma rabeca – dissonâncias originalmente criadas a partir do manuseio de uma batedeira (esquecida pelo músico na estreia carioca do show). Única estranha no ninho autoral do roteiro, "Porta de Cinema" é da lavra bem antiga do avô do artista, Luís Souza. O uso na letra de termos como "quindim" e "formosa" indica que o samba sincopado – já gravado em disco por Camelo em dueto com Bebeto Castilho – vem de outro tempo e lugar. Em contrapartida, a buarquiana "A Outra" é a prova de que a obra de Camelo já encontrou seu próprio tempo e lugar.
 
No bis, "Saudade" é expressada através de registro vocal grave, quase soturno. Não, nada do que foi será do que jeito que já foi um dia – como diz a letra do bolero havaiano. Ao ser encerrado com a reprise da bela "Luzes da Cidade", o show Voz & Violão dribla seu caráter revisionista com sua leitura viva – e nada óbvia, ao contrário do que sugere seu formato acústico (já um tanto desgastado por artistas menos criteriosos…) – do cancioneiro autoral de Marcelo Camelo.
 
Resenha de show
Título: Voz e Violão
Artista: Marcelo Camelo
Local: Teatro Oi Casa Grande (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 12 de setembro de 2012
Cotação: * * * * 1/2
 
Agenda da turnê nacional do show Voz e Violão:
14 de setembro de 2012 – Teatro Riachuelo – Natal (RN)
15 de setembro de 2012 – Teatro da UFPE – Recife (PE)
 
 
 
 
 
 
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