Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 22.12.2014 22.12.2014

“Foi também um resgate da minha história”, diz Adriana Falcão sobre ‘Queria Ver Você Feliz’

Por Marina Fidalgo
“É uma história que morava muito dentro de mim, e eu falava pouco disso… eu não tinha muito com quem dividir. Mas é de uma maneira muito legal que ela está se tornando pública”.
A escritora e roteirista Adriana Falcão se refere à repercussão que está tendo sobre o livro Queria Ver Você Feliz (Intrínseca), no qual, por meio de cartas, memórias familiares e um ilustre narrador, o Amor, conta a história bonita e trágica de seus pais.
Caio e Maria Augusta se conheceram na adolescência, casaram e tiveram 3 filhas juntos, sendo Adriana a mais nova. A distância de Caio em função do trabalho e a ansiedade de Maria Augusta geraram alguns altos e baixos, que terminaram com o suicídio do pai em 1978 e a morte da mãe, por uma overdose acidental de medicamentos, mais de uma década depois.
Para escrever seu mais recente trabalho literário, Adriana literalmente abriu seu baú de memórias… Era no móvel de família que estavam as cartas e outras recordações que os pais trocaram ao longo da trajetória juntos. Nos relatos, apesar de tudo, há muito bom humor.
A escritora diz que transformou a “doideira” em algo positivo em sua vida com muito esforço. “A gente passa por coisas muito difíceis, como a morte dos meus pais; depois, aos 31 anos, quando eu tive minha filha mais nova, descobri uma doença que todos achavam que era um câncer, e depois descobri que era doença celíaca, que na época ninguém sabia muito… A minha separação também foi um momento muito difícil. Mas é um processo. Mas graças a Deus eu, minhas irmãs, minhas filhas e meus sobrinhos temos uma vocação para o humor”.
Em uma entrevista sua de 2009 você já falava muito sobre seus pais, do que viveu e até de algumas histórias que estão no livro. Por que abrir, só agora, em um livro, o baú de memórias deles?
Adriana Falcão. A vida inteira esse assunto foi muito presente na minha vida. Às vezes alguém falava para mim “escreve o livro, é uma história tão densa e profunda”, mas eu não tinha muito isso na cabeça. Exatamente em 2009 eu me separei de um casamento muito longo e importante, um amor muito grande, foi uma coisa que mexeu muito comigo. Eu me separei já tarde, com 49 anos, de uma história de mais de 30. Eu me casei pela primeira vez com 17 anos, ou seja, fui casada a vida inteira. Por mais que eu tivesse uma vida profissional bacana, eu vivia em função de casamento, filhas… Nessa separação eu fiquei muito perdida. Eu me perguntava: para quê eu? Era um desafio muito grande para mim reinventar uma Adriana separada, com quase 50 anos de idade. Não estava na hora de eu ficar “velhinha”, eu tinha que reinventar uma pessoa para viver o resto da minha vida. Daí eu acho que, inconscientemente, na busca por essa Adriana, eu fui lá atrás dessa história. Foi também um resgate da minha história. A ideia do livro veio em uma noite em que eu estava com as minhas irmãs, por volta de 2011 e 2012. A gente leu as cartas e nos emocionamos para caramba, e elas disseram para eu escrever o livro; foi nesse momento que eu decidi.  Fui escrevendo o livro em paralelo com meus trabalhos como roteirista.
Capa do livro Queria Ver Você Feliz
Com quem conversou e que elementos buscou para contar a história de seus pais, principalmente no período de adolescência?
Adriana Falcão. Quando a mamãe morreu eu não quis nada. Estava tão agoniada, foi tão difícil pra mim a morte dela. Mas quando a gente encontrou o baú com as cartas, eu o quis. Então as cartas já estavam comigo, e elas próprias contam bastante da história. Como eles eram pessoas muito especiais para a nossa família, mesmo depois que eles morreram, ainda se contava muitas histórias sobre eles. As duas irmãs do meu pai e uma madrinha sabiam muita coisa, tudo o que eu queria saber elas lembravam.
O que projetou no narrador “amor” que você, como filha, não conseguiria contar?
Adriana Falcão. Quando inicialmente eu tive essa ideia, achei bonita, porque o amor tem várias histórias para contar, e agora ele vai contar essa. Eu queria me distanciar como filha para não cair em clichês e julgamentos.
Maria Augusta e Caio, no dia do casamento
A partir de que momento conseguiu ver seus pais com tanta ternura, apesar da triste história que você e suas irmãs passaram? Em especial a relação que você e sua mãe tinham – que foi muito intensa.
Adriana Falcão. Acho que sempre. Mesmo quando eu era criança e minha mãe era muito invasiva, era praticamente como se eu fosse a mãe dela emocionalmente. Era muito difícil para mim, mas eu via aquela situação com amor. Eu via que as dificuldades dela eram geradas pelo amor que ela sentia. É claro que eu tinha meus momentos de raiva e a gente brigava, mas o tempo todo eu tive esse olhar por eles de muito respeito e admiração, porque o caminho deles também não era fácil, por causa da natureza dos dois. Quando as pessoas morrem a gente tem uma tendência a canonizá-las, mas eu e minhas irmãs não fizemos isso; falamos dos defeitos da mamãe com a mesma leveza que falamos das qualidades, que são inúmeras. Acho que consegui ter esse lado positivo muito pelas minhas irmãs, que são mais velhas e me ajudaram muito.
Qual o impacto que o resgate da história de seus pais teve em sua família – de quem os conheceu e de quem não?
Adriana Falcão.  O retorno foi o melhor possível, todo mundo amou. Tanto os familiares mais próximos quanto os mais distantes. Eu fico até assustada de ver a imagem dos meus pais se tornar pública. Outro dia, chegou aqui um e-mail de um produtor que quer transformar o livro em filme, que coisa doida! É uma história que morava muito dentro de mim, e eu falava pouco disso… eu não tinha muito com quem dividir. Mas é de uma maneira muito legal que ela está se tornando pública. As pessoas que falam comigo do livro falam com muito carinho, está sendo um processo bacana.
Adriana (centro) e as irmãs
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