Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 07.07.2013 07.07.2013

Flip: poesia em movimento

Por Andréia Martins
Poderia ser música, com a vibração do hip hop e a força da palavra do rap. Mas a performance verbal que a brasileira Roberta Estrela D’Alva e a inglesa Malika Booker levaram à FlipMais nesta edição da Flip (Festa Literária de Paraty) foi além disso. A modalidade que se espalha cada vez mais no mundo, conhecida como “spoken word” ou “poetry slam”, estreou no evento e seduziu a plateia da Casa da Cultura mostrando as diversas possibilidades da palavra.
A paulistana Roberta, que também é MC e atriz, conduziu a performance, que ainda é desconhecida de muitos no Brasil. Ao abrir o leque de possibilidades, a brincadeira dá novo sentido à palavra cotidiana, que ganha acompanhamentos de efeitos sonoros, luzes, encenações – como o mergulho da palavra, com direito ao ‘glub glub’ e Roberta—e a participação da plateia, que faz coro e completa os versos, como no caso da leitura de My mother knows pain, de Malika, onde a cad verso lido pela inglesa, a plateia sussurrava “pain”.
“O spoken word é uma forma de arte. É um estilo no guarda-chuva da poesia”, disse Malika. Questionada sobre a diferença entre a palavra da página para a palavra declamada no palco, a inglesa disse que isso abre outra possibilidade de compreensão.
“Nas performances, se você leu o livro antes, o vê de outra forma. Você descobre que aquilo pode ser lido de outra maneira, ter outro sentido. Mas eu escrevo para a página e dou vida à palavra no palco”, diz Malika, que tem boa parte de sua produção dedicada a falar sobre mulheres, embora ela afirme que isso tenha sido algo acidental.
Para Roberta, que escreve apenas para falar, a palavra em movimento permite que as pessoas sejam transportadas para outro tempo e espaço. “Hoje do que eu tenho visto no slam, a poesia é esse rasgo, esse espaço que você pode ser qualquer coisa em outro tempo e espaço”.
Ela conta que entra no palco com tudo pronto. Palavras decoradas, gestos ensaiados para o momento em que são chamados a complementar o que está sendo dito. “Morro de medo de improvisar e de dar tudo errado”, diz ela que na Flip fez sua estreia com salto alto. Ela, que é do universo do hip hop, além de ser atriz, esta acostumada a se apresentar de tênis e boné. “Escrevo para falar. Já escrevo pensando na rítmica, na cor, é um trabalho de lidar com a palavra como se fosse um ferro que a gente vai entortar, apertar”, conta.
Criada em 1986 pelo americano Marc Smith, em Chicago, a “poetry slam” hoje acontece em lugares como Israel, Ilhas Mauricio, Inglaterra, Estados Unidos, Guiana, entre outros países. A competição –no mundial de 2011, na França, Roberta conquistou o terceiro lugar—tem três regras básicas: só vale apresentar poemas próprios, as performances têm no máximo três minutos de duração e não devem ter acompanhamento musical. Quem escolhe o vencedor é são os jurados escolhidos na plateia, que com plaquinhas dão notas para os participantes.
Sobre a cena, especialmente no Brasil, onde o “poetry slam” está sendo semeado em cidades como São Paulo (com o ZAP, Zona Autônoma da Palavra, desde 2008), Salvador (BA) e Natal (RN), Roberta se diz otimista.
“A perspectiva é crescer. Da forma como está indo, isso vai explodir em breve. Mas o que mais importa é a livre expressão. E o também o ouvir, é muito importante esse ouvir o outro, ouvir outra opinião que não a sua, um pensamento diferente do seu. [O poetry slam] É também um exercício democrático”.
 
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