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Flip 2011: chega ao Brasil o húngaro Péter Esterházy

 
Por Julia Laks
 
Os brasileiros têm definitivamente a chance de conhecer um dos principais autores europeus contemporâneos: o húngaro Péter Esterházy. Com mais de 30 livros publicados, em 35 anos de carreira, e cerca de 20 prêmios literários, ele desembarca pela primeira vez no país como destaque da Festa Literária de Paraty (Flip), onde lança o romance Verbos Auxiliares do Coração, o segundo traduzido para o português. O livro Uma Mulher foi publicado aqui no ano passado e a editora Cosac Naify já planeja trazer também Harmonias Celestes, sua obra-prima. Na Flip – que acontece de 6 a 10 de julho -, Esterházy aborda ainda a importância das vivências familiares para a sua narrativa em uma conversa com o francês Emmanuel Carrère, mediada pelo tradutor Paulo Schiller.
 
“A esperança é sempre a mesma: que um livro encontre o seu leitor”, diz Esterházy sobre suas expectativas. Dono de uma escrita extremamente emocional, ele não raras vezes parte da autobiografia para a criação, apropriando-se de textos alheios, evocando sentimentos, costumes húngaros e seu
próprio passado, que se mistura com a trajetória do país.
 
Nascido em Budapeste, em 1950, Esterházy é herdeiro de um sobrenome bastante conhecido da aristocracia húngara, cuja história remonta ao século XII. O pai tinha também o título de conde e o avô, igualmente conde, chegou a ser primeiro ministro do império em 1917. Durante o regime comunista, no entanto, a família perdeu os privilégios e, em 1974, Esterházy formou-se em matemática. Dois anos depois, publicou seu primeiro romance: Francsikó e Pinta, determinante para o abandono das ciências exatas.
 
Com o humor e a sensibilidade característicos de sua obra, o autor aborda na entrevista a seguir (feita por e-mail, com a ajuda da tradutora Lorena Vicini) realidade e ficção. Fala de seu pai retratado em Harmonias Celestes e em Edição Revista, das diversas mulheres presentes em Uma Mulher e, claro, de Verbos Auxiliares do Coração, iniciado logo após a morte de sua mãe, elucidando sua visão do mundo. Sobre a rotina de escritor, não hesita em dizer: “é sentar na escrivaninha, às vezes com as frases, às vezes sem elas”. A nós, só resta torcer para que cheguem sempre e cruzem o oceano.
Harmonias Celestes é considerada sua grande obra e se baseia na história de sua família, em relatos sobre o seu pai. Agora o senhor lança no Brasil Os Verbos Auxiliares do Coração, que traz anotações sobre a sua mãe. Há uma linha tênue entre biografia e ficção? É possível conter as lembranças com a palavra?
                                                                                      
Péter Esterházy.
Uso a autobiografia como ficção. É um pensamento muito bonito, mas às vezes a realidade é mais forte. O ato de se recordar é também um processo, que em si influencia o que conseguimos nos lembrar. Nesse processo, as palavras desempenham um grande papel.

Em Uma Mulher, seu primeiro livro traduzido para o português, o senhor trabalha os significados de amor e ódio, distanciando o leitor do sentido usual de cada palavra. Já lhe questionaram uma vez (em entrevista para a New York Public Library) se não desejava diluir as conotações ilustres de seu próprio sobrenome. O que tal passado representa?                            

                                                                                            
Péter Esterházy.
Tenho duas histórias de família, uma que é concreta – com quatro filhos etc. – e que significa um campo onde eu me conheço bem e me sinto bem nesse campo, espaço ou estrutura que se chama Família. E o outro que eu pertenço a uma família famosa e aristocrática. Essa é uma relação direta  e sensível com a história e acima de tudo com o tempo.
 
Matemático de formação, o senhor apresenta uma escrita bastante emocional. Como a exatidão dos números e o subjetivismo das palavras se misturam em sua obra?
 
Péter Esterházy. De fato estudei matemática, mas não sou de fato um matemático. Talvez eu consiga entender melhor, porque não consigo entender matemática tão bem. Desejaria que, como sugere a pergunta, eu conseguisse misturar a exatidão dos números com a subjetividade das palavras de maneira ainda mais intensa. Escrever é alegria, arrebatamento e esperança. E o trabalho é pesado, oneroso, sem esperança e belo.
 
Gostaria que o senhor falasse sobre o significado do título Os Verbos Auxiliares do Coração. A narrativa do livro se alterna entre o ponto de vista do filho e da mãe. Diante da morte, só a emoção, o coração, pode dar voz a um ente querido?
 
Péter Esterházy. Achei bonito esse título, também um pouco kitsch. Além disso, contribuiu que o magiar (idioma húngaro) não tem verbos auxiliares. Isso eu também acho bonito. Sim, tenta-se de tudo, deixa o filho falar, depois a mãe, tenta-se entender o que não é possível ser compreendido. Mas a literatura, na maioria das vezes, tem a ver com o impossível, não é?
 
Os Verbos Auxiliares do Coração e Uma Mulher, seus dois livros lançados no Brasil, trazem a imagem de uma (ou de várias) figuras femininas extremamente fortes. Quais as semelhanças entre elas? Como vê as mulheres?     
 
Péter Esterházy. Isso é difícil de responder, a fraqueza e a força estão quase sempre juntas. Agimos com força, porque temos medo de nossas próprias fraquezas. E somos fracos, por termos que nos sustentar fortes. Mas eu sou péssimo em psicologia.
 
O senhor traz diversas referências em seus livros: desde autores a fatos históricos. Acredita que uma mesma obra pode abrir diferentes mundos para cada leitor, que também a absorção de um texto depende das experiências de cada um?
 
Péter Esterházy. Quando eu escrevo um livro, construo um mundo próprio para ele, onde o leitor possa se sentir bem até mesmo quando existem tantas referências externas. Todo leitor tem uma imagem de um livro, especialmente quando está distante desse mundo, como do Rio de Janeiro a Budapeste. O livro dos verbos auxiliares despertou muitas emoções, eu poderia contar várias histórias bonitas sobre ele, sobre cartas de agradecimento etc. Mas isso seria autoelogio, ou seja, insípido. (O autor ri baixinho) Alguns dizem que na época da publicação, finalmente vinha um livro meu que era sério. Isso eu não queria. Os meus outros livros também eram sérios, ou esse também não é sério. (O autor para de rir).
 
Especificamente em Os Verbos Auxiliares do Coração, o que os fragmentos de outros autores representaram para o senhor, após a morte de sua mãe, e para a feitura do livro?                      
 
Péter Esterházy. A estranheza de uma citação causa uma pequena fissura no texto, um tipo de incerteza ou tropeço no texto – e isso eu acho importante. Também é uma concepção romântica, que na verdade todos os meus livros têm em comum, que os livros, pode-se assim dizer, leem um ao outro e ajudam um ao outro.
 
Como vê o humor e o erotismo em sua obra?
 
Péter Esterházy. Como uma coluna importante da minha arte. Humor, muito provavelmente, tem a ver com a dramaticidade, não apenas com o jocoso. E o erotismo é sensibilidade e sem sensibilidade não há arte.
 
Em Edição Revista, o senhor repensa o retrato que havia feito do seu pai em Harmonias Celestes, depois de descobrir que ele foi informante do regime húngaro. Como a história pode moldar uma pessoa e de que forma enxerga hoje o Leste Europeu?
 
Péter Esterházy. A história pessoal do meu pai mostra que a chamada Grande História pode ser muito brutal, e essa é uma experiência tipicamente da Europa Oriental. A História é como uma torrente, um fenômeno da natureza, surge como um animal selvagem e te destrói. Se você se render, não tem nenhuma chance. A responsabilidade permanece, não dá para atribuir a chamada brutalidade à história.
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