Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.08.2012 20.08.2012

Flávio Moreira da Costa e a arte de organizar antologias

Por André Bernardo
 
O escritor Flávio Moreira da Costa, 70 anos, gosta de comparar o ofício de ficcionista ao de trapezista de circo. Daqueles que se arriscam em pleno ar, sem cama elástica para proteger da queda. “Em alguns dos meus livros, eu acertei. Em outros, nem tanto. Mas isso faz parte do risco”, avalia, modesto, o escritor gaúcho que já conquistou dois Jabutis: um na categoria romance, por O Equilibrista do Arame Farpado, de 1998, e outro na categoria conto, por Nem Todo Canário é Belga, de 1999. “Isso eu aprendi com o Miles Davis (trompetista americano). Na hora do show, ele se virava para os músicos de sua banda e dizia: ‘Bem, pessoal, vocês sabem tocar tudo. Agora, vamos tocar o que vocês não sabem, ok?’”.
 
Apesar de todo o prestígio como ficcionista, é como antologista que Flávio Moreira da Costa ganhou fama e reconhecimento. Desde 1970, quando publicou a primeira delas, Antologia do Conto Gaúcho, organizou mais de 20. E sobre os mais variados assuntos: de futebol a loucura, de vampiro a MPB, de medo a erotismo. Os Melhores Contos de Cães & Gatos, por exemplo, reuniu grandes nomes da literatura universal, como Thomas Mann, Honoré de Balzac e Edgar Allan Poe. “Apesar do tema improvável, é uma excelente antologia”, garante Flávio, que aponta Os Melhores Contos Fantásticos, Os Melhores Contos que a História Escreveu e Os Melhores Contos Brasileiros de Todos os Tempos como as suas favoritas.
 
Mas, se o ofício de ficcionista é comparável ao do trapezista, o de antologista, na opinião de Flávio, é semelhante ao do corredor de obstáculos. São muitas as barreiras a serem superadas até cruzar a linha de chegada. “Às vezes, negociar direitos autorais é complicado porque não se chega a um acordo. Já tive que retirar autor de antologia porque as negociações não foram bem-sucedidas”, admite. Se depender de Flávio, sua carreira de antologista está próxima do fim. Ele pretende lançar mais quatro livros do gênero e, depois, se dedicar em tempo integral à carreira de ficcionista.  “Profissionalmente falando, sou um eterno insatisfeito. O meu grande romance, por exemplo, ainda está por vir”, afirma.
 
Sua primeira antologia, sobre o conto gaúcho, foi lançada em 1970. Naquela época, você já imaginava que, um dia, se transformaria no maior antologista brasileiro?
Flávio. Que nada! Publiquei aquela antologia porque eu tinha saído do Rio Grande do Sul e era uma forma, sei lá, de agradecer a infância e juventude que passei lá. Tentei como um louco publicar aquela antologia. Demorei muito tempo… O meu projeto era só escrever livros, romances. Muito mais tarde é que eu fui retomar isso.
 
Todas as antologias foram ideias suas? Ou já recebeu algumas encomendas?
Flávio. Sim, todas foram ideias minhas. Encomendas surgem a toda hora, mas estou fugindo delas. São as mais estapafúrdias possíveis… (risos) Elas têm que ser escolha minha porque faço antologia com um aspecto de criação também. Todas foram ideias minhas. Isso sem falar nas que estão na gaveta…
 
E o que você pode adiantar sobre as que estão na gaveta?
Flávio. Estou tentando parar com as antologias. Mas ainda tem pelo menos duas para sair. Uma delas é Intimidades Célebres – O Livro dos Diários. Diferentemente das outras antologias, é sobre diários literários. Já a outra, Os Melhores Contos Mitológicos, trata-se da ampliação de uma que fiz há muito tempo, 13 dos Melhores Contos de Mitologia da Literatura Universal.
 
Qual é a maior dificuldade de se organizar uma antologia?
Flávio. Não tenho dificuldades. Tenho desafios. Escolher um bom texto de um bom autor é um deles. Escolher um texto que tenha ligação com o tema da antologia é outro. Mas, isso aí, acredite, eu faço com o maior prazer! Quem enfrenta as maiores dificuldades são os editores. São eles que têm que negociar os direitos autorais. Às vezes, é complicado porque não se chega a um acordo. Já tive que retirar autor de antologia porque as negociações não foram bem-sucedidas.
 
Você poderia citar um exemplo?
Flávio. Já quis incluir um conto do Herberto Helder, um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, na antologia Os Melhores Contos Sobre Cães & Gatos, mas ele se recusou. Teve também um agente que não autorizou a inclusão de um escritor brasileiro na antologia sobre contos eróticos. Senti preconceito por parte dela, por ser uma antologia erótica…

Como o senhor faz para administrar as carreiras de escritor e de antologista?

Flávio. E quem disse que administro? (risos) Tento levar uma e outra, mas nem sempre consigo. Tenho me dedicado mais às antologias. Por isso, fiquei muito conhecido como antologista e pouco como escritor. Os leitores não conhecem minha obra literária. Isso, para falar a verdade, incomoda um pouco. Nesse sentido, foi um prejuízo.
 
Das antologias que organizou, qual delas seria a sua favorita?
Flávio. Uma só? Não! Tenho várias. Os Melhores Contos de Loucura, por exemplo, é uma delas. Professores de Psiquiatria já chegaram a indicá-la a seus alunos. Os Melhores Contos de Cães & Gatos é outra. Apesar do tema aparentemente banal, é uma excelente antologia. 13 Dos Melhores Contos de Vampiros é uma antologia clássica. O tema virou moda. A antologia 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal é o meu carro-chefe. Vendeu mais de 100 mil exemplares. Sou muito grato a ela.
 
Em sua opinião, os temas estão se esgotando?
Flávio. Não, isso não existe! Cães & Gatos, convenhamos, é um tema improvável. Mas rendeu uma boa antologia. Outra coisa: quantas antologias de amor existem? Várias, certo? Por isso, resolvi fazer uma sobre Contos de Amor e Desamor. O importante é lançar um olhar diferente sobre aquele assunto. Já fiz antologia sobre horror, loucura, futebol. Um dia, posso fazer uma sobre drogas, quem sabe? Mas os temas têm que bater lá dentro. Algumas sugestões, honestamente, nem considerei. Já teve cineasta que perguntou por que eu não fazia uma antologia só de cineastas. Na hora, eu não respondi, mas pensei: “Puxa, essa antologia seria só para ele ler. Ele e os amigos dele”… (risos).
 
Você já foi premiado por alguns de seus livros. Teria um favorito?
Flávio. Sou um eterno insatisfeito… (risos) Pela marca que deixaram em alguns leitores, são os dois primeiros: O Desastronauta e As Armas e Os Barões. Pela marca que deixou em mim, O Equilibrista do Arame Farpado. Puxa, esse livro foi um trabalho insano! Levei mais de 15 anos para escrevê-lo. Fiz mais de 10 versões. Só o título, eu mudei várias vezes.
 
Geralmente, os escritores têm uma leve tendência de renegar os seus primeiros livros. Com você, isso não acontece?
Flávio. Não. O primeiro livro é um grande teste para todo e qualquer escritor. Se o autor renega o primeiro livro, é porque começou muito mal.
 
Durante 20 anos, você manteve uma oficina de criação literária. É possível ensinar alguém a escrever bem? Talento é algo que se aprende?
Flávio. Bem, são duas coisas diferentes. É possível ensinar alguém a ler e a escrever bem? Sim, é. É possível ensinar alguém a ter talento? Não. Talento não é algo que você compra no supermercado. Mas eu parei de ministrar essa oficina de criação literária. De vez em quando, recebo convites para retomá-la. Mas parei. No início, eu fazia uma pré-seleção dos candidatos. Com o tempo, deixei de fazer, e o nível caiu muitíssimo. Ou ensino o pessoal a escrever ou ensino o pessoal a ler. Tinha gente lá que queria ser Paulo Coelho. Daí, eu pensei: “Olha, não dá mais. Obrigado!”.
 
Que dicas você daria para quem pretende se tornar escritor?
Flávio. Olha, é como disse o Rubem Fonseca recentemente: o primeiro passo é ser alfabetizado. Ser alfabetizado é fundamental! (risos) O segundo é ser louco. E o terceiro é ter constância. Sem leitura, não dá para ser escritor. Muita leitura. Dos clássicos, sempre. Sem leitura, você vai conseguir ser, no máximo, um escrevinhador, mas jamais um escritor.
 
Qual é a finalidade primordial de uma antologia? Apresentar autores consagrados às novas gerações? Ou escritores pouco conhecidos ao grande público?
Flávio. A finalidade primordial, no meu caso, é agradecer à literatura tudo o que ela fez por mim. E devolver a ela um número maior de leitores. Esse é o objetivo de toda boa antologia.
 
Em sua bibliografia, consta uma rara biografia: a de Nelson Cavaquinho para a coleção Perfis do Rio, da Relume Dumará. Nunca pensou em escrever outra?
Flávio. Não. Um dia, pretendo refazer o livro do Nelson porque ele foi meu amigo. Ou seja, é uma paixão minha. Um dos meus projetos atuais chama-se O Romance das Biografias Impossíveis e fala sobre duas biografias que comecei e não consegui terminar. Uma delas é sobre a Pagu. Infelizmente, a ideia da biografia foi vetada pelo herdeiro. A história é longa, e pretendo contá-la no livro.
 
Você acabou de se definir como um “eterno insatisfeito”. Profissionalmente, o que falta para você se sentir realizado?
Flávio. Bom, como antologista, acho que eu já podia encerrar por aqui. Mas ainda tenho, no mínimo, três ou quatro antologias para lançar. Como escritor, eu não mostrei ainda meu trabalho poético. Só fiz um livro, Livramento, que foi até finalista do Jabuti. O meu grande romance, honestamente falando, ainda está por vir. Ah, outro projeto é viajar para Paris em setembro e passar dois meses lá. Todos os anos, viajo para a França para tomar um banho de cultura. Geralmente, alugo um apartamento e trabalho por lá.
 
 
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