Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.10.2012 18.10.2012

Filósofo italiano lança livro sobre os questionamentos e as perturbações do tempo

Por Iveilyze Oliveira
 
O tempo sempre foi um mistério e assunto curioso citado em músicas, livros, filmes e até mesmo exposto em telas de pintura. A história do pensamento sempre se debruçou sobre questões para entender e lidar com os ciclos inevitáveis ao nosso crescimento interno.
 
Afinal, como é que os homens pertencem às passagens de tempo, quando e onde se sentem ao longo desse tempo e qual é o sentido de tudo isso? As respostas a essas e outras perguntas estão em Passagens de Tempo (Edições SESC São Paulo), novo livro do filósofo italiano Mauro Maldonato, que é também psiquiatra e professor de psicologia geral na Università della Basilicata, na Itália, além de autor das obras Raízes Errantes e A Subversão do Ser: Identidade, Mundo, Tempo e Espaço.
 
Ao longo de 192 páginas, Maldonato destaca a importância de se tratar os doentes não apenas pelos seus sintomas físicos, mas também pelas angústias da alma, muitas vezes despertadas por uma difícil relação com o tempo. O escritor, que pesquisa há anos o assunto, também discute as relações dos indivíduos com o mundo, as perturbações que o tempo nos acarreta e desafios como a formação da identidade. Outro ponto que o livro aborda são os atos de coragem atrás de uma resposta imediata para os nossos anseios, pois, para o escritor, é preciso ter esperança para se chegar a algum lugar.
 
O ensaio dialoga com vários campos do saber – como a prosa e a poesia, a história da filosofia ocidental, autores clássicos e contemporâneos – e relaciona as angústias do homem moderno com a medicina, psiquiatria, arte e psicologia.
 
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Mauro Maldonato explica sua reflexão em Passagens de Tempo, em especial o vazio contemporâneo frente às incertezas e inquietudes que o tempo nos provoca.
 
Como surgiu o interesse em repensar os conceitos de tempo?
 
Maldonato. A questão do tempo me preocupa, me questiona, até diria que me esgota. Quando olho para trás para reconstruir os passos importantes da minha pesquisa sobre as formas de temporalidade, vejo todas as tentativas e desvios de uma viagem que não se limitou a repassar ou transcrever "ideias recebidas". Investiguei as abordagens mais imprevisíveis, os passos mais inacessíveis, mas nenhuma resposta veio da investigação científica. A análise sobre o tempo exige a travessia de territórios (memória, expectativa, esperança), mas, acima de tudo, requer a violação de um limite aparentemente intransponível: o limite (que é um recurso secreto) de um horizonte móvel, que o pensamento não pode absorver, mas que também constantemente tentamos abordá-lo.
 
Quais são as passagens que o tempo determina em nossas vidas?

Maldonato. Cada etapa que se aproxima das esferas do tempo envolve invasão, mas este anseio pelo inatingível não elimina a lacuna e permanece como um verdadeiro conflito entre o pensamento e os seus limites, é inevitável. A violação deste limite – embora conceitualmente difícil – é uma constante viagem à temporalidade. Você nunca termina com o tempo. Uma vez colocado em sua rota, é necessária devoção absoluta, o estudo de toda uma vida. Acima de tudo, sua disposição de não se esconder das inumeráveis contradições que existem. Serve para renovar pensamentos através da meditação interior, especialmente em um momento em que eles são particularmente difíceis. Isso é algo que nos preocupa.

 
Como conceituar o tempo? Qual o maior desafio dele?

Maldonato. O tempo não é um enfrentamento. Pelo menos não no sentido de um espaço externo a nós. Cada palavra que falamos está localizada (e situa-nos) dentro dele, em um difícil pensamento. Nesse sentido, o caminho que conduz à consciência do tempo não só é retirado por causa da nossa relação (óbvia) com as palavras, mas se mostra simples (porque essencial) em toda complexa torção que o impede de ser um caminho linear. Trilhar o caminho da temporalidade – e isso torna mais claro o nosso problema – é usado para nos acostumarmos com o incomum.

 
Você aborda as dificuldades da coragem de ser. O que seria essa coragem?
 
Maldonato. Nos últimos anos, aumentou a sensibilidade com as esferas culturais e antropológicas da condição humana. Uma delas é a coragem, termo vago e problemático, que resiste à rigidez das definições conceituais. Se é verdade que nos deparamos muitas vezes em situações que envolvem coragem – que é a atitude de algumas pessoas quando confrontadas com situações de limite em relação à sua doença e como elas lidam com isso nos momentos cruciais, em outras situações individuais e sociais novas –, também é verdade que há um grande número de pessoas que geralmente sofrem com as escolhas que têm que fazer, de uma forma ou outra, com coragem.
 
Você reflete sobre a condição do “Eu” e do mundo, defendendo a necessidade de reaprender a sentir em um tempo de renúncias e necessidades. Como podemos lidar e reaprender com esse processo?
 
Maldonato. A palavra "Eu", a palavra "Lei", a palavra "sofrer" são linhas do horizonte de nossos conhecimentos, mas não são a "verdade". Sua estabilidade é continuamente testada por impulsos diferentes, muitas vezes opostos. Nesta jornada dramática para o centro de si mesmo, quais os rastros que traçam as margens da presença e da ausência? E o ser? E o inconsciente? Quem sou eu? – ponto crucial da consciência, reflexão comum, mediante a palavra e criação poética. A evidência natural de coisas desvanece.
 
Quais as perturbações que o tempo acarreta para a nova geração? Há diferenças em relação ao século anterior?
 
Maldonato. O pensamento do século XX mostrou que o senso comum e, acima de tudo, as palavras, os assuntos, são nossas construções ilusórias. Desde cedo, passo a passo, estamos a construir uma rede de conexões entre o que acreditamos ser, devido a uma representação mais ou menos unitária da nossa imagem social. Nossa identidade – o fluxo de dados, sinais e eventos que controlam versões de nossa personalidade – destaca-se como evidência natural. Omitir os reflexos da linguagem, discurso, fala, voz e pensamentos que aparecem como realidades separadas, sem relações evidentes. Além das fronteiras da aparência, dizendo que ele implica um ato paradoxal, uma costura difícil entre a subjetividade e a desestabilização.
 
É comum relacionarmos o tempo com o passado, lembranças de perdas e nostalgia por algo não realizado. Como fica essa questão de identidade? Por que culpamos o tempo pelas frustrações?
 
Maldonato. Hoje, muitos conhecimentos científicos e filosóficos mostram com fundamentos uma redução de identidade, variedades, regularidades. A psicologia social e a antropologia genética mostraram que, embora as identidades sociais e os limites entre grupos representem um aspecto da propensão humana para a construção de fronteiras simbólicas, tais determinações não são caracterizadas por mecanismos invariáveis, nem por tendências gerais da mente humana. Investigar a questão da identidade exige a abertura de um horizonte de pesquisa livre de preconceitos e princípios abstratos de identidade.
A mais recente pesquisa psicanalítica mostrou como a identidade é derivada de um processo de múltiplas identificações, por uma "negociação" constante das contradições e conflitos gerados por essas mesmas identificações. A psicanálise pós-moderna – em favor de uma abordagem inclusiva – demonstrou a forma de uma autodesunificação descentralizada, o diálogo coeso em tudo, em comparação com um eu unificado. Talvez o aspecto mais interessante do discurso psicanalítico contemporâneo sobre preocupações e tensões criativas, entre a representação de um eu múltiplo e descontínuo, e de um eu único e contínuo.
 
Capa do livro Passagens de Tempo de Mauro Maldonato 
 
Por que todo acontecimento é desestabilizante? Como podemos nos preparar para as mudanças?
 
Maldonato. O encontro com a alteridade da identidade – violenta tensão em que a alteridade do “Outro” assume o risco de que seja excluída até uma figura de si mesmo – é uma relação inquietante, com base em estruturas de concreta temporalização. A tentativa desconstrói a identidade substancialista e oferece lugar a uma busca de estruturas profundas e suas determinações internas. É nesse sentido que o outro se torna constitutivo da identidade, mas essa estratégia abre o caminho para mais um gesto decisivo: o estabelecimento de uma diferença, para uma opção de agregação da identidade humana radical e antimetafísica. A identidade deste encontra o outro, o estranho. Mas quem é este estranho se meu alter-ego é reflexo de um espelho? Como é essa passagem de um vazio que liberta a estranheza que está em nós e que temos de nós mesmos? Questão altamente complexa. Enfrentá-lo significa responder à questão fundamental sobre a natureza do homem. Responder, no entanto, à pergunta "Quem é o homem?" significa se abrir para a narrativa, contar uma vida, uma identidade, uma história pessoal.
 
Em Passagens de Tempo, você utiliza a prosa e a poesia. Qual o verdadeiro sentimento do tempo na arte?
 
Maldonato. Ele se torna intelectual quando se trata de problemas humanos, morais, filosóficos, sociais, não especializados. Em minha "maneira de pensar", gosto de deixar minha participação disciplinar e me expor a pensar em ideias e pensamentos contra si e que refutam a si mesmos. Este livro, que também realiza discussões expostas em outros livros, como incertezas radicais e as questões de identidade em movimento, abre horizontes humanos que não iludem a vertigem do rosto do outro. Trata-se, em sua maior parte, de cenas fenomenológicas, movimentos de sombras que estamos considerando o que pretendemos ser.
 
O seu objetivo em interrogar a natureza do tempo e o entendimento que dele se tem foi realizado? Qual foi a principal descoberta?
 
Maldonato. Um livro nasce quase que fatalmente. Acontece quando o pensamento coloca em jogo a nossa relação (óbvia) com as palavras e as coisas, mostrando versões e desvios de sua forma não linear. Este livro representa uma nova temporada do meu pensamento sobre os territórios da medicina, filosofia e arte em geral. Apesar de ele manter a memória do que escrevi no passado, circula uma nova esperança de falar. A coragem intelectual é manter intacta a pureza desta primavera, conhecimento das minhas intuições, minhas conversões. Nesta nova jornada, não sei se fiz novas descobertas. É claro que eu tentei roubar alguns dos segredos do tempo, me aproximar de seus mistérios ao longo de cada passo, observando os momentos essenciais em notas provisórias que, talvez, nunca vai cumprir. Em pensar e escrever (como na vida), não há cumprimento que chega: apenas um "estar a caminho", caminhos sinuosos e reviravoltas inesperadas, um itinerário cuja distância é impossível medir.
 
 
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