Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 13.01.2012 13.01.2012

Filmes e séries policiais do Brasil tentam reproduzir a realidade nua e crua

Por Luma Pereira
Parte do elenco de 9MM
 
Investigação, crime, suspense. O tema policial na produção de filmes e séries nacionais sempre esteve presente nos sets brasileiros – a realidade que lemos no jornal não está apenas na primeira página ou nas capas de revistas, mas também nas telinhas e telonas.
 
“No Brasil, se você abrir o jornal, tem vários assuntos ligados à atividade policial. É algo que afeta a sua vida, quer você queira ou não. Então, é natural que a dramaturgia lide com isso”, afirma Roberto d’Ávila, um dos criadores da série 9MM: São Paulo.
 
O primeiro filme nacional classificado nesse gênero foi Assalto ao Trem Pagador, dirigido por Roberto Farias, em 1962. É baseado em um fato real: o assalto ao trem de pagamentos, ocorrido em 1960, no Rio de Janeiro.
 

Plantão de Polícia foi uma das primeiras séries policiais de TV – produzida e transmitida pela Rede Globo, entre 1979 e 1981. Na década de 90, vieram As Noivas de Copacabana e A Justiceira.

 
Nos anos 2000, outras séries começaram a ser produzidas, como A Turma do Gueto, A Lei e o Crime, Na Forma da Lei, Força Tarefa e 9MM: São Paulo. E também filmes: Cidade de Deus, Tropa de Elite e Assalto ao Banco Central.
 
“O tema ‘polícia’ nunca saiu de cena. O policial sempre existiu na TV, na literatura e no cinema brasileiro. Há épocas em que está mais evidente, quer pela criatividade dos artistas, quer porque a realidade ‘pede’ o assunto”, afirma Fernando Bonassi, um dos autores de Força Tarefa.
 
Murilo Benício em cena de Força Tarefa
 
Entretanto, o que marcou o início dessa enorme leva de produções policiais no Brasil, tanto de filmes quanto de séries? “A grande marca de sucesso de público desse gênero foi Cidade de Deus”, responde d’Ávila.
 
Dirigido por Fernando Meirelles, em 2002, o filme foi um sucesso inesperado. “Cidade de Deus contribuiu para o ‘despertar’ dos produtores para o gênero”, complementa Marcílio Moraes, um dos roteiristas de A Lei e o Crime.
 
Foi a partir de então que vários filmes desse tipo começaram a ser produzidos. “As pessoas se deram conta desse negócio e passaram a querer atender a esse tipo de público”, afirma d’Ávila.
 
O sucesso de bilheteria Tropa de Elite, dirigido por José Padilha, em 2007, reavivou o interesse do público pelo gênero policial e abriu caminho para outras produções, inclusive continuações próprias: Tropa de Elite 2 foi lançado em 2010.
 
“O filme fez sucesso porque mostra a degradação da realidade policial no país, com um herói que cria uma identificação problemática, mas real, com o público”, diz Moraes.
 
Made in Brasil?
 
Mas existe um jeito brasileiro de realizar essas produções, ou seguimos os modelos americanos, como Nova York Contra o Crime e Law and Order?
 
Bonassi diz que sim: “produzimos uma crônica policial violenta, porém discursiva. Força Tarefa é uma tentativa de concretizar este modo brasileiro de delinquir e investigar”.
 
“Acredito que, esteticamente, alguns seriados nacionais até busquem inspiração em seus congêneres americanos”, afirma Marçal Aquino, outro autor de Força Tarefa. E completa: “mas as situações e personagens da cena criminal real são singularmente brasileiros”.
 
Marçal Aquino, um dos autores de Força Tarefa
 
D’Ávila conta que, para produzir 9MM, tiveram de estudar muito o cenário policial nacional. A construção dos personagens e a elaboração do roteiro foram bem discutidos e trabalhados – procuraram reproduzir a realidade tal como ela é.
 
Cada um dos episódios tem começo, meio e fim, “até para você poder contar com um espectador eventual que vem”, diz, e há um desenvolvimento dos personagens ao longo da trama. Nisso, a série é semelhante às internacionais.
 
“E depois, a gente queria que esse esqueleto estivesse vestido com uma carne que fosse bem brasileira”, comenta. “Tivemos um monte de consultores, fomos entender como era a realidade dessas pessoas”, completa.
 
“Tanto a linguagem quanto as câmeras que se mexem o tempo inteiro e o linguajar, é tudo muito cru e direto. Mais que a violência física de sangue escorrendo na tela, existe uma violência psicológica. Isso não é típico de TV aberta”, diz.
 
E completa: “se fossemos fazer a série para TV aberta, teríamos suavizado alguns desses aspectos. 9MM é feita para a TV fechada”.
 
“Posso afirmar que produções que tentem imitar o modelo americano não vão ser bem- sucedidas. Isso porque a nossa realidade social e a nossa polícia são muito diferentes”, diz Moraes. “A realidade brasileira acaba aparecendo nas séries”, completa Aquino.
 
Para d’Ávila, A Lei e o Crime tem outra maneira de narrar – a trama se desenvolve como nos melodramas. “A organização da história é mais próxima da novela do que da investigação policial”, comenta.
 
“O enredo não tem nenhuma inspiração em seriados internacionais. A série se constrói sobre três pilares: um bandido, um policial miliciano que age por motivos estritamente pessoais e uma delegada tão idealista quanto ingênua, que atua como uma estranha no ninho do aparelho policial perverso e corrupto”, conta Moraes.
 
Cena de A Lei e o Crime
 
Quanto à narrativa, o autor afirma que se manteve fiel ao formato dos seriados americanos: cada episódio tem começo, meio e fim. Ao longo da temporada, a trama dos personagens fixos tem uma progressão dramática.
 
Nas gravações, a equipe procurou ser o mais autêntica possível. “As cenas de favela foram feitas numa favela de fato, e não em estúdio ou cidade cenográfica”, diz o autor. “O sucesso de A Lei e o Crime abriu caminho nas emissoras abertas”, completa.
 
A importância do gênero policial
 
Para Bonassi, abordagem atual do tema na TV e no cinema ajuda os espectadores a entenderem melhor a realidade em que vivemos. A polícia brasileira é mostrada tal como é, e isso nos faz compreender mais como tudo se passa em nosso país.
 
“Hoje conhecemos melhor a vida carcerária graças ao Carandiru, de Drauzio Varella e Hector Babenco; conhecemos melhor as comunidades nos morros do Rio de Janeiro graças à Cidade de Deus, de Paulo Lins, Fernando Meirelles e Katia Lund”, comenta.
 
Cena de Tropa de Elite 2
 
E completa: “por fim, mas não menos importante, se estamos falando de polícia com um mínimo de responsabilidade, isso se deve a Tropa de Elite, de Rodrigo Pimentel e José Padilha”.
 
 
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