Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 27.02.2012 27.02.2012

Filmes e livros com personagens gays apostam na sensibilidade e humor para atrair o público em geral

Por Andréia Silva
Annette Bening e Julianne Moore em Minhas Mães e Meu Pai
Um jovem rapaz precisa assumir um romance indesejado para a família. Duas crianças partem em busca de seu pai biológico contra a vontade da mãe. Um casal tenta adotar um bebê, mas acaba levando para casa um adolescente de 15 anos. Um bebê é deixado na porta de uma igreja e a partir daí acompanhamos sua trajetória até os 65 anos, tentando achar a felicidade.
À primeira vista, essas histórias que envolvem dinâmicas familiares se parecem com muitas outras já vistas em filmes e livros.
 
E são mesmo, com um pequeno detalhe: todas envolvem personagens gays e fazem parte de novas produções que são bem recebidas por todos os tipos de público, não apenas o GLBT. O segredo?
 
 
 
Apostar na dimensão universal das narrativas, na sensibilidade, nas situações do dia a dia e, claro, no bom humor.
“O cinema é onde percebemos essa mudança de forma muito forte, e acho que no teatro também. Já na literatura, o que houve foi um leque maior de opções. Você tem uma frente de escritores que ainda aposta no homoerótico e outros que apostam em personagens gays, mas de forma mais leve”, diz o escritor e produtor cultural Kadu Lago, que trabalha com a temática.
De fato, exemplos dessa abertura sobre o tema, que ainda enfrenta muito preconceito, não faltam na telona. Das citadas no início do texto, temos o italiano O Primeiro Que Disse, Minhas Mães e Meu Pai, Patrick 1.5, só para citar alguns.
Mas esse não é um movimento recente. Em 2001, um filme já tentava provocar essa abertura: o ótimo – e cada vez mais raro de ser encontrado – Beijando Jessica Stein. Na trama, uma jornalista, Jessica (Jennifer Westfeldt), responde a um anúncio de uma mulher no jornal e inicia um relacionamento amoroso – a duras penas – com ela, no caso, a judia e pragmática Helen (Heather Juergensen). Uma curiosidade legal do filme é que ambas as protagonistas escreveram o roteiro do filme e não são gays.
 
A participação de grandes atores e atrizes nessas produções também facilita a aceitação por parte do público.
 
É o caso de Minhas Mães e Meu Pai, no qual o casal de mulheres lésbicas é protagonizado por ninguém menos do que Annette Bening e Julianne Moore. Elas são mães de dois adolescentes concebidos por inseminação artificial e que querem conhecer o pai.
O filme ganhou o prêmio Teddy, no Festival de Berlim, entregue ao melhor longa de temática gay, e levou um público diversificado aos cinemas, tanto pelo elenco, quanto pela história divertida, retratando uma família mais “moderna”, que enfrenta novos dilemas na relação com os filhos.
 
Os outros dois filmes, O Primeiro Que Disse (foto ao lado), do turco Ferzan Ozpetek – gay assumido –, e Patrick 1.5, também fazem esse retrato familiar moderno, onde a essência continua a mesma, o que muda são os sentimentos e as preferências dos seus integrantes.
 
No primeiro, um jovem de uma família tradicional italiana tem que encarar os familiares e revelar que é gay, enquanto no outro, um casal enfrenta a burocracia e o preconceito na hora de tentar adotar um filho – os procedimentos burocráticos e a demora do sistema também são dramas comuns a centenas de casais que buscam na adoção a possibilidade de serem pais.
 
Com um detalhe: acabam recebendo um adolescente homofóbico para cuidar. O melhor do filme é mostrar a ‘desconstrução’ da intolerância quando se dá chance à convivência, ao respeito e, claro, ao amor.
 
No Brasil, um curta em especial emocionou muita gente. Trata-se de Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro [assista abaixo]. Quem já viu sabe: impossível não rolar uma lágrima, dada a delicadeza com que a história se desenrola.
 
A idade dos personagens, ainda com ares de inocência, contribui para o tom da narrativa. O próprio diretor disse que sua intenção era fazer um filme centrado em um personagem gay, sem que a sexualidade fosse o foco. O resultado é dos melhores.
Novos caminhos na literatura
Para Lago, esse novo diálogo do cinema e da literatura com o público em geral, sem segmentar, é positivo. “É importante que as pessoas leiam e assistam a essas histórias sem se sentirem agredidos de alguma forma”, comenta ele.
Ele é autor de Confissões ao Mar (Copacabana Books), livro que está na sua segunda edição. A obra começa com o personagem principal, Mateus, acampado numa praia, onde relembra as dificuldades que passou quando começou a sentir desejos por um homem, e de ter que escondê-los da família, da namorada e de si mesmo.
 
Para Lago, a obra é universal e tem, curiosamente, muitas leitoras heterossexuais.
 
O escritor, que refuta o termo ‘literatura gay’, conta que, diferente do cinema, a literatura ainda está presa à questão da sexualidade.
 
“Não é de hoje que a literatura aborda esse tema. O próprio Caio Fernando Abreu não se assumia como esse tipo de literatura, mas trazia claramente essa temática em seus textos”, comenta.
 
O escritor Kadu Lago
 
 
Para ele, embora hoje o assunto esteja sendo discutido de forma mais aberta na sociedade, muita editoras ainda têm problemas em publicar obras cuja história gira em torno de personagens gays. “Por outro lado, isso contribuiu para que surgissem editoras interessadas nesse foco”.
 
Um desses exemplos é a editora Escândalo, criada em 2011 e que publica livros de ficção e não ficção de temática GLBT. Um de seus mais recentes lançamentos é a coletânea de diferentes escritores com textos sobre o tema, Homossilábicas.
A produção de obras e produtos culturais para o outro público também é feita por autores que não são gays, como é o caso da escritora Zilda Catharina, que, depois de escrever contos e poesias, com seus mais de 80 anos, acaba de lançar seu primeiro romance, com personagens gays.
Tudo começou quando Zilda reparou num rapaz muito elegante na rua. Um segundo encontro aguçou sua curiosidade e ela decidiu perguntar ao porteiro do prédio quem era aquele homem. “É um rapaz que não gosta de mulher”. A resposta, que ela achou indelicada por parte do porteiro, não desceu.
“Aquela resposta me chocou. A partir daí, eu comecei a escrever uma história sobre dois rapazes, mas mais do que isso, sobre a vida de um homem que foi abandonado ainda bebê na porta de uma igreja, e o acompanho até os seus 65 anos”, conta Zilda.
O livro Rosas Para Jarbas (Editora Nelpa), recém-lançado, foi escrito um pouquinho a cada dia, segundo a própria Zilda, durante os últimos cinco anos. Nascida em 1916, na Hungria, ela já publicou contos e poesia, mas esse é seu primeiro romance.
 
Trecho de Rosas Para Jarbas:
"Sentamos na cama, lado a lado, e brindamos para que minha tristeza fosse embora. Sua atenção foi muito especial, dizendo-me que perdas são sofridas, mas que devem ser vividas para que passem, e que as boas lembranças devem ser guardadas como tesouros… que não devemos levar conosco apenas mágoas. Ouvi calado e compreendi. Havia muita sabedoria naquelas palavras”
 
 
Terminada a história, Zilda pediu e teve a aprovação dos filhos e do neto, o primeiro a ler e dar sinal positivo à avó. “Tem gente que acha a história triste, mas quando terminam, gostam muito. Eu digo: não escrevo comédias e não podemos empurrar mais esse assunto com a barriga”, brinca ela.
A disposição da escritora em contar essa história talvez mostre que, aos poucos, a literatura esteja desabrochando no tema e ampliando não só seus leitores, que, gays ou não, mostram-se mais dispostos a ler livros sobre qualquer assunto, sem ter a sexualidade dos protagonistas como bandeira principal, mas também ampliando o leque de abordagens dos escritores. Afinal, não existem rótulos para boas histórias.
 
 
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