Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 19.08.2011 19.08.2011

Filmes B: cinema que independe

Por Luma Pereira
Na foto ao lado o cineasta Roger Corman

“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Foi Glauber Rocha, cineasta, ator e escritor brasileiro quem pronunciou esta frase, mote do Cinema Novo – movimento cinematográfico da década de 1950. Entretanto, estas palavras fizeram tanto sentido, que hoje podem ser inseridas em outros contextos – anteriores e posteriores a elas. Os filmes B, produções realizadas em Hollywood na década de 1930, seguiam a frase de Glauber Rocha antes mesmo de ela ter sido dita.

“Os ‘filmes B’ eram produções baratas, um pouco mais curtas (raramente passavam de 65 ou 70 minutos) e sem muitos recursos”, define Carlos Primati, crítico de cinema. No contexto da Grande Depressão de 30 e dos primórdios do cinema industrial hollywoodiano, as sessões dos filmes eram duplas, com exibição de dois longas-metragens. “Um era uma grande produção, precedida por um filme mais modesto, geralmente de faroeste ou de mistério”, esclarece o crítico. “Os filmes B podem ser considerados mais despretensiosos, cujo objetivo principal era divertir a audiência”, afirma Rogerio Saladino, jornalista, escritor e fã de filmes de terror.
Além disso, há outra explicação para o termo “filme B”. Os estúdios costumavam ter dois departamentos: o “A” era destinado às produções caras, que tinham diretores e atores renomados na equipe; já o “B”, ficava responsável pelos filmes de baixo orçamento e era composto por cineastas e atores iniciantes. “Os faroestes da década de 30, estrelados por John Wayne, os filmes de mistério de Charlie Chan ou os curtas cômicos com Os Três Patetas, são produções de baixo custo que Primati cita como exemplo.
O que também caracteriza o filme B são os gêneros específicos nos quais se classificavam, tais como horror, mistério, ficção científica, faroeste e policial. Alguns diretores inseriam, ainda, temas como o preconceito, a injustiça social e o abuso de autoridade. O prazo para a realização era curto e as qualidades técnicas eram escassas. “Mas, ainda assim, alguns filmes se destacavam pelo vigor, criatividade e originalidade de alguns realizadores”, afirma Primati.
 
O cineasta estadunidense Roger Corman é considerado “o rei dos filmes B”, tendo mostrado talento para ditar tendências como essa do cinema barato. “Ele ensinou como se produzir filmes de baixo orçamento de maneira eficaz e comercialmente viável”, comenta o crítico. “Corman dificilmente fazia mais de uma tomada de uma mesma cena, reutilizava cenários e cenas de arquivo à exaustão e filmava mais de um filme ao mesmo tempo”, comenta Saladino. O prestígio que os filmes alternativos têm tido nos últimos tempos se deve muito ao trabalho dele. A Pequena Loja de Horrores (1960), sobre uma planta que se alimenta de corpos humanos, foi feito com pouca verba e se tornou um clássico do humor negro. Além disso, foi Corman quem lançou nomes como Jack Nicholson e Francis Ford Coppola, hoje consagrados na sétima arte.
Outros nomes se destacaram entre os cineastas de filmes B. “Edgar G. Ulmer era um diretor que costumava fazer obras notáveis mesmo com toda a precariedade e prazos curtos”, cita Primati. Val Lewton também é um exemplo de grande produtor de filmes desse tipo, já que “elevou o gênero do horror a um patamar adulto e psicanalítico”, conta o crítico. Willian Castle, Herschell Gordon Lewis, George A. Romero, Tobe Hooper, e até Sam Raimi e Peter Jackson são outros bons exemplos. Primati conta que Raimi realizou A Morte do Demônio (1981) e, mais tarde, aderiu ao blockbuster Homem-Aranha (2002). Já Jackson, dirigiu Fome Animal (1992), e depois se consagrou com O Senhor dos Anéis (2002).
No entanto, ao longo do tempo, o termo foi perdendo o sentido que tinha originalmente. “Há muita confusão entre ‘filme B’ e produções independentes, filmes de baixo orçamento ou simplesmente filmes de gênero (em especial, horror, ficção científica e ação)”, explica o crítico. Muitas vezes, a expressão é usada para se referir também a produções de qualidade inferior ou violenta, o que não tem fundamento. “O termo passou a ser relacionado a filmes com pouca verba ou baratos”, reforça Saladino. Até mesmo o próprio Roger Corman contesta o apelido de “rei dos filmes B”. Primati conta que na autobiografia How I Made a Hundred Movies in Hollywood and Never Lost a Dime, o cineasta declara que nunca trabalhou num departamento B, condição essencial para se produzir um filme reconhecido como B naquela época.
No Brasil, o termo se descontextualiza ainda mais, não se aplicando propriamente às nossas produções cinematográficas. “Não há ‘cinema independente’ no Brasil, pois aqui é muito mais barato fazer filmes e não temos os grandes estúdios dominando a produção”, explica Primati. Mas a essência dos filmes B hollywoodianos influenciaram as produções de José Mojica Marins, o "Zé do Caixão", e Ivan Cardoso, grandes nomes do horror nacional. A tradição do cinema de baixo custo norte-americano inspirou também diretores como Rodrigo Aragão, com A noite do Chupacabras, e Petter Baiestorf, com Raiva, a produzir um “cinema marginal”, ligeiramente semelhante às produções B estadunidenses. “O cinema brasileiro tem uma história própria com muita coisa bem diferente do norte-americano”, destaca Saladino.
Para Carlos Gerbase, diretor do filme brasileiro Menos que Nada, sobre o tratamento de um doente mental, com estreia prevista para o segundo semestre de 2011, “há diferenças importantes entre o que os americanos chamam de ‘filme B’, e o que nós chamamos de ‘B.O.’ (ou baixo orçamento)”. Ele considera Menos que nada “um típico ‘B.O’, feito com 600 mil reais”. Gerbase acredita que hoje o termo “filme B” tenha perdido um pouco a essência do passado, já que, “as tecnologias digitais revolucionaram a maneira de fazer filmes e aproximaram grandes produções de filmes menores”. O fato de não ter muitos recursos financeiros não impede que a produção seja boa tecnicamente – em imagem e som.
 
Cena do filme Estômago
Marcos Jorge, diretor de Estômago (2008), filme sobre comida e poder, concorda com Gerbase: “não acredito que podemos aplicar no Brasil o termo ‘filme B’”. Para ele, mesmo os filmes que aqui classificamos como superproduções, seriam considerados de baixo orçamento nos Estados Unidos, por serem feitos com menos de 10 milhões de dólares. “É puro preconceito classificarmos os filmes segundo seus orçamentos”, considera o cineasta. Além disso, ele conta que “Estômago nunca foi considerado um ‘filme B’ em nenhum dos mais de 20 países em que foi distribuído”.
O que é necessário para fazer um filme? Uns podem dizer que bilhões de dólares, outros que apenas uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Para Saladino, “um filme precisa ser fiel ao seu conceito, à sua proposta, com uma boa história e um bom desenvolvimento”. De fato, não importa o como e sim que o cinema continue sendo a sétima das artes. E que, diante da enorme tela, possamos ficar emocionados, indignados ou até mesmo assustados. Como vem acontecendo desde a primeira sessão de cinema, em 1895, quando a locomotiva do filme A chegada do trem à Estação Ciotat (1895), dos irmãos Lumière, fez os espectadores acreditarem que a imagem sairia da ficção.
 
 
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