Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 23.09.2011 23.09.2011

Filme retrata vida de poetisa que traduziu a África em versos

Por Luma Pereira
 
Borboletas Negras, dirigido por Paula von der Oest, conta a história de Ingrid Jonker (interpretada por Carice van Houten), escritora sul-africana que viveu na época do Apartheid – regime de segregação racial vigente de 1948 a 1994. Tornou-se conhecida quando Nelson Mandela leu o poema “A Criança que foi Assassinada pelos Soldados de Nyanga”, no seu primeiro discurso como presidente da África do Sul. A diretora foi inspirada por um documentário holandês produzido anteriormente sobre a poetisa. “Depois disso, li toda a obra dela e falei com pessoas que sabiam mais sobre o assunto”, conta.

Ingrid Jonker nasceu em 19 de setembro de 1933, e residia na cidade do Cabo. A vida da poetisa foi marcada pela difícil relação com o pai, Abraham Jonker, que não reconhecia o talento literário da filha e a rejeitava. Ele era membro do Partido Nacional do Parlamento, e um dos responsáveis pela manutenção do Apartheid – censurava publicações, arte e entretenimento. Ingrid lutava contra o governo segregacionista, o que estimulava o descontentamento do pai para com ela. “A Criança que foi Assassinada pelos Soldados de Nyanga” é um poema político. “Trata-se da voz de uma criança negra que mais tarde adota a voz de um soldado negro”, explica Charl-Pierre Naude, mestre em Filosofia pela Universidade de Stellenbosch e leitor de Jonker.

 
Cena do filme Borboletas Negras
 
Ele afirma que alguns dos poemas são muito profundos, tendo a reflexão histórica e política, mas sem perder o lirismo. Além disso, o tema principal das obras é a inocência perdida. “O aspecto mais mágico de sua poesia é a reflexão amadurecida, porém expressa através dos olhos de uma criança”, comenta. “Os escritos dela também têm uma inclinação autobiográfica”, completa. No filme, Paula tenta mostrar o que motivou Ingrid a escrever sobre a criança de Nyanga. Ao vê-la sendo morta pelo regime, a poetisa fica atormentada com aquilo, e redige os versos. Outra cena também evidencia o descontentamento da escritora para com o sistema: ela fica transtornada ao ver um guarda expulsando um negro do ônibus coletivo.
 
Entretanto, para Roberto Guerra, crítico de cinema, isso mostra de maneira superficial a política do Apartheid. “Não fica claro no filme por que Ingrid tem esse pensamento libertário, mesmo tendo sido criada por um pai favorável ao sistema”, afirma. Borboletas Negras também é ancorado na questão da convivência da genialidade com a loucura. Ingrid é maníaca depressiva, e sua existência foi marcada pelos efeitos disso. Em 1961, foi internada numa clínica psiquiátrica em Valkenberg, tendo recebido como tratamento o eletrochoque.
 
Casou-se, em 1956, com Pieter Venter, e teve uma filha chamada Simone. Porém, logo se divorciou e passou a se envolver com outros homens. Dentre eles, os escritores Jack Cope e André P. Brink. O primeiro é mostrado, no filme, como o grande amor da vida da poetisa, de quem ela engravidou – mas depois decidiu realizar um aborto. Brink foi responsável pela tradução do livro Black Butterflies: Selected Poems (2007), juntamente com o colega Antjie Krog. Ambos também tiveram ajuda da poetisa Ingrid de Kok. Jonker, que começou a escrever poemas aos seis anos de idade, utilizava o idioma Afrikaans.
 
Cena do filme Borboletas Negras
 
Borboletas Negras é a verdadeira vida e história de amor da jovem e talentosa poetisa sul-africana: uma artista branca desobediente durante o regime do Apartheid”, comenta Paula. A rejeição do pai e as angústias internas da escritora a levaram a se suicidar na praia de Three Anchor Bay, na cidade do Cabo, em julho de 1965. Roberto Guerra afirma que o trajeto que a leva ao extremo da internação e ao posterior suicídio é construído, no filme, “de forma rasa”. Na película, alguns poemas são lidos em off – mas não são as paisagens africanas que os ilustram, pois o que acaba acontecendo é o contrário. Os versos é que dão vida aos cenários mostrados. Ingrid Jonker transformou a voz da África em poesia.
 
Leia o poema original de Ingrid Jonker lido por Nelson Mandela:
 
The Dead Child of Nyanga
The child is not dead
The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart
 
The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride
 
The child is not dead not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain
 
The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all África
 
The child grown into a giant journeys through the whole world
Without a pass.
 
 
 
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