Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 27.12.2011 27.12.2011

Filha de Glauber Rocha, Ava Rocha apresenta, com sua banda homônima, seu álbum de estreia, “Diurno”

Por Rachel Souza
Os integrantes da banda AVA
 
Recentemente, o Galpão das Artes do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, serviu como espaço para o lançamento de Diurno, CD de estreia de AVA, banda formada por Emiliano 7, Daniel Castanheira , Nana Carneiro da Cunha e Ava Rocha, filha de Glauber Rocha.
No show de debut (no último mês de novembro), o tom performático da apresentação ficou evidente. Através da voz grave e singular de Ava Rocha, pôde-se ouvir composições novas e releituras de ícones da música brasileira, como Jards Macalé e Edu Lobo.
 
As canções foram entremeadas com uma passagem musicada do livro Água Viva, de Clarice Lispector, e um poema do colombiano Jorge Gaitán Duran. Sobre essas e demais referências inseridas em seu trabalho, Ava Rocha e Daniel Castanheira falaram com o SaraivaConteúdo.
O show de lançamento do CD teve uma energia muito boa, um entrosamento que transparece no trabalho de vocês. Como foi o encontro, a formação da banda?

Daniel. Eu e Ava nos conhecemos no ano 2000, em Paris, quando ela se hospedou na minha casa. De volta ao Brasil, fizemos uma viagem em 2003, para o fórum social mundial em Porto Alegre, quando saiu um ônibus do Rio de Janeiro com diversos artistas reunidos, num delírio inesquecível. Ficávamos todos cantando muito e Ava impressionou com sua voz. Sempre planejávamos fazer algo pra ela cantar desde então e nunca rolava. Anos depois, em 2008, Emiliano e Ava se conheceram por outros cruzamentos da cidade e efetivaram o projeto, começaram a ensaiar um pequeno repertório com violão e voz. Em poucas semanas, no circuito de bares e tudo mais, anunciando pras pessoas esse início, apareceu a Nana, celista já conhecida por nós meio de vista, que adorou a ideia e passou a fazer parte desses ensaios também. Nesse período, eu estava morando na Argentina por conta de pesquisa em literatura nas universidades de lá, quando recebi um e-mail de Ava dizendo que eles estavam ensaiando e que gostariam que eu fizesse parte da coisa quando voltasse. Dito e feito: dois meses depois do e-mail, estava eu de volta ao Rio, sendo o último integrante a fechar o quarteto. 

 
Ava. Da mesma maneira que eles se apaixonaram pela minha voz e me deram o carinho e a segurança para encarar o desafio, eu me apaixonei por cada um deles, pelo talento e sensibilidade de cada um. Quando experimentamos de fato o encontro, o cruzamento musical, foi muito forte, mágico. Porque estar em sintonia é assim, e toda sintonia tem seus curtos-circuitos também, o que deixou tudo mais interessante, fácil e difícil, sem moleza. É um grande aprendizado estar em conjunto, doando e recebendo, ensinando e aprendendo, impondo e cedendo.

Como foi a escolha do repertório, desde a composição de músicas próprias até as regravações?

 
Daniel. Boa parte das músicas são o início do trabalho. Elas já existiam antes. Ava sempre cantava essas músicas, que são principalmente composições e parcerias dela com o irmão Pedrão Rocha. Também entrou uma composição de Emiliano, "Infinito Azul", que foi a primeira música arranjada comigo fazendo parte da formação. Logo entrou uma música minha também, "Acorda Amor", que eu tinha composto há alguns anos e encontrou na voz de Ava a possibilidade de ganhar o mundo. As regravações apresentam aquele lado da comunhão, da troca, do cantar junto, canções que eram compartilhadas por nós com afeto e ao mesmo tempo elucidam também um diálogo real da nossa parte com uma certa música brasileira.
 

Ava. Nosso interesse é de compor, cada um na sua viagem, em parceria, interpretar novos compositores e fazer releituras. Cruzar toda essa imensidão poética e musical. O repertório de Diurno é o espelho de um momento que é muito afetivo também, onde demos voz a canções que já nos habitavam e compartilhamos isso. Nana, por exemplo, trouxe "Pra Dizer Adeus". "Só Uma Mulher", por exemplo, era uma canção que tinha composto na voz apenas e que o Emiliano 7 deu vida ao harmonizá-la de forma brilhante. Construímos outras também, como é o caso de "Sé Que Estoy Vivo". Enfim, cada uma tem sua razão especifica e criam entre si uma relação forte, um sentido que justapõe várias camadas que traduzem nosso campo de interesse. Outras canções e experiências ficaram de fora porque, de alguma maneira, não compõem com o resto. Temos muito material. Mas, sobretudo, acho que o disco lança pro mundo novos compositores: além de nós, Pedro Paulo Rocha e Fredy Allan, e a releitura de uma memória quando se trata de canções do repertório nacional. Mas nos interessa também o repertório universal. 

AVA (a banda) tem uma teatralidade, uma plasticidade nas letras, nas músicas, na entonação da vocalista, no objeto CD, na apresentação no palco. Como foi pensada a estética desse trabalho? 
 
Daniel. Acho que elas já estavam presentes na vivência e no trabalho individual de todos nós. Não precisou ser exatamente pensada como um conceito ou projeto estético, não foi desenhada. O pensamento foi e é fundamental para garantir que todas essas mídias pré-existentes, todas nossas interfaces, olhares e afetos, se fizessem presentes, se cruzassem e encontrassem um ponto de conciliação formal. 
 
Essa influência teatral, com a cena, veio principalmente da Ava (Rocha) por conta do histórico familiar (ser filha de Paula Gaitán e Glauber Rocha) e ter feito cinema?
 
Daniel. Existem muitos tipos de teatro e de cena. Todos os integrantes atravessam essa linguagem de diversas maneiras. Eu sou performer, membro do coletivo de arte sonora Hapax há quase dez anos e professor no curso de Artes Cênicas da PUC-Rio. A Nana é uma pessoa de teatro com diversas passagens em grupos, peças e até a ópera Fedegunda, montada aqui no Rio. O Emiliano já produziu trilhas sonoras também… enfim. Diante desse afeto cênico da banda, Ava é o elemento mais dramático, sem dúvida. Parece que o Drama está nela sem formulações. Não sei se a genética garante comportamentos ou heranças estéticas. Acredito que Ava suplementa e transborda as armadilhas do tipo papai/mamãe. 
 
Ava. O interessante é que nem eu nem nenhum de nós pensamos de forma estrita, por nichos. Então, é algo natural, que misturamos naturalmente, que surge quase sem pensar. E cada vez que surge algo legal, algo que parece se encaixar, fazer sentido, aquilo é elaborado de alguma maneira. No meu caso especifico, no meu crescimento no palco e no entendimento corporal e dramático, sempre estive atenta a criticas e sugestões de pessoas que nos acompanharam, que viram o meu crescimento pessoal e o do trabalho como um todo. Cada show, apesar de já ter uma forma, um conceito, é diferente entre si. Nos deixamos impregnar pelo que é externo a nós. Às vezes, a temperatura do dia ou um sentimento especifico nos conduz a um determinado desempenho dramático. Por exemplo, às vezes é mais expansivo, às vezes mais introspectivo. 

A cena musical está cheia de novas cantoras, de novas vozes femininas. Como sentem o cenário? Como AVA contribui para ele?

Ava. Eu acho que, antes, as cantoras e os cantores carregavam uma coisa muito forte, que era dar voz a coisas importantes. A dores, a amores, a posições políticas, denúncias, infinidades de coisas, mas davam voz à alma, à poesia. Tenho escutado muito Elizete Cardoso. Também Bethânia em "Drama" e Gal em "Domingo" (junto com Caetano) e realmente é algo muito forte, muito belo. Além de serem cantoras geniais, têm timbres impressionantes, vozes lindas e uma emoção que hoje é mais rara. Também estamos num momento de procura mesmo, de experimentar novos caminhos para a música brasileira, no caso, de sabermos transar a nossa tradição e a nossa afetividade com liberdade, sem culpas ou regras. O Brasil sempre teve muitas cantoras, agora estamos num momento mais de criar as condições para que elas possam existir de fato. Eu acho que eu e AVA, a banda, temos criado essas condições para nós.

 
 
Recomendamos para você